Acidentes aéreos batem recorde e crescimento dos voos preocupa

Maior demanda por passagens domésticas e internacionais sobrecarregam tecnologia, infraestrutura e mão de obra do setor

Danilo Fariello e Severino Motta, iG Brasília |

O mercado de aviação brasileiro é o que mais cresce no mundo, a ritmo de 20% ao ano em número de passageiros. Essa disparada dos voos nos últimos três anos pressiona toda a estrutura de setores ligados à aviação e coloca sob observação alguns gargalos do sistema. Os investimentos brasileiros em tecnologia, pessoal para trabalhar no setor e infraestrutura, por mais consistentes que sejam, estão aquém do crescimento acelerado do setor e aumentam as situações de risco de quem viaja de avião no país.

O iG entrevistou diversos participantes da cadeia de aviação civil para entender o porquê dos recordes no número de acidentes aéreos registrados neste ano no país e se esses riscos podem crescer mais nos próximos anos. Para a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), porém, a sensação de aumento da insegurança não reflete a realidade da nossa aviação civil, que hoje tem, em proporção ao número de voos, o menor indicador de acidentes nos últimos dez anos.

Em todos os meses do primeiro semestre deste ano, porém, o número de acidentes no país de Santos Dumont supera os anos anteriores. Já foram 83 na aviação civil até 15 de julho, ou 75% do total do ano passado. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), ligado à Força Aérea Brasileira (FAB), responsável por avaliar os motivos desse crescimento de ocorrências diz que mantém processos de investigação sobre esses casos e que só depois deste poderá haver julgamento do todo.

Ano turbulento

Em todos os meses de 2011 o número de acidentes superou os anos anteriores

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Fonte: Cenipa


Uma análise mais conjuntural, porém, fica prejudicada pela defasagem com que o próprio Cenipa divulga seu Panorama Geral sobre os acidentes aéreos no Brasil – com distribuição por regiões, tipos de aeronaves entre outras especificidades. Até agora, o panorama mais recente é de 2009 e não há previsão para que o próximo seja divulgado. Sem esse número, por exemplo, fica mais difícil computar as ponderações sugeridas pelo organismo.

  Assumindo-se como base os anos anteriores e as últimas notícias, porém, é possível ter uma boa ideia de onde estão os principais focos de acidentes no setor aéreo. Os maiores problemas costumam estar mais distantes dos aeroportos de grandes centros urbanos e principalmente concentrados em aeronaves pequenas, como aviação geral (jatos particulares), aviões que servem ao setor agrícola e a garimpos e também taxi-aéreo, avalia Ênio Dexheimer, piloto aposentado e professor de Ciências da Aeronáutica da PUC do Rio Grande do Sul. “Em geral, as maiores vítimas voam nesse interior do país.”

Esse diagnóstico é ratificado também pela verificação das principais deficiências que podem levar aos acidentes aéreos – como praxe, nenhum especialista no setor diz que um acidente aéreo tem apenas um motivo. Entre eles, estão deficiências de fiscalização, falta de boa qualificação de mão de obra e tecnologia limitada.

Todos esses três aspectos são mais deficientes em regiões mais remotas do Brasil e os riscos são incrementados com a multiplicação dos voos. “O aumento dos movimentos aéreos vem acontecendo em todos os setores da aviação civil brasileira, o que reflete uma maior exposição ao risco”, diz Carlos Eduardo Pellegrino, diretor de operações de aeronaves da Anac.

Para Pellegrino, porém, no próprio aquecimento do mercado está um caminho para a solução para esse crescimento do risco. O crescimento econômico impulsiona a busca por mais e melhores equipamentos, melhores profissionais e uma manutenção mais efetiva, diz ele ao iG , sem descartar a necessidade de atuação do regulador.

Pellegrino explica que foi criada recentemente a Iniciativa Estratégica da Aviação Civil, um fórum técnico para coletar dados justamente para embasar a revisão normativa. Ele cita, ainda, que recentemente o país introduziu o teste de álcool e outras drogas, bem como programas reabilitação, para pilotos. Outra regra em fase final de elaboração é o programa de controle de fadiga, para impedir acidentes por falhas humanas por cansaço.

Sempre haverá necessidade de aperfeiçoar

Segundo Clarice Bertoni, secretária de Navegação da Secretaria de Aviação Civil (SAC), o país trabalha atualmente em um sistema mais eficiente de gerenciamento de riscos, explica. “O órgão regulador nos últimos tempos modernizou substancialmente sua atuação”, para conviver com esse mercado mais aquecido. “Porém, sempre haverá necessidade de aperfeiçoamentos.”

Há ainda severas complicações, principalmente com escassez de corpo técnico em ujm país de dimensões continentais. Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por exemplo, luta para conseguir abrir concursos que incrementem seu corpo técnico em mais de 500 pessoas para acompanhar o crescimento da frota. Após o acidente da Noar em Recife, no mês passado, percebeu-se que os pilotos não cumpriam as exigências da agência, o que lançou questionamentos sobre a eficiência do órgão em fiscalizar o setor.

Nos últimos anos, por conta da prevista perda de profissionais militares atuando em sua estrutura, a Anac perdeu número considerável de funcionários e teve de reduzir sua capilaridade, o que levou até ao fechamento de alguns escritórios regionais da agência.

A agência reguladora destaca, porém, que a fiscalização não é só presencial. Auditorias nas empresas aéreas e inspeções nas rampas compõem o sistema geral de operações. “Há uma fiscalização indireta, a partir da análise de dados de desempenho e de tendências do setor, diz Pellegrino. “É difícil para qualquer país ter representantes de sua autoridade de aviação civil presentes em cada aeródromo, cada empresa, cada oficina.”

Ocorrências em alta

Evolução do número de acidentes em voos civis na última década

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Fonte: Cenipa


No caso dos controladores de voo, a situação é parecida e agravada pela introdução de profissionais civis em um setor tradicionalmente militar. O fato de controladores terem sido incriminados juridicamente no acidente do voo Gol 1907, levou os profissionais do setor a uma ação mais conservadora, que tornou até mais reduzida a produtividade dos profissionais por medo de erros que possam incriminá-los, avalia Dexheimer.

Isso exigiria um crescimento ainda maior do corpo técnico de controladores, que permanece estagnado há anos. “Os problemas dos controladores não foram resolvidos com as medidas adotadas após o acidente”, diz o professor da PUC-RS.

Embora a agenda atual tenha um foco mais atento à expansão da infraestrutura, em algum momento no médio prazo o Brasil deverá começar a debater com mais firmeza a necessidade de desvincular a fiscalização do gerenciamento do sistema, ambos feitos pelo Departamento de Controle Aéreo (Decea), ligado à Força Aérea Brasileira (FAB), segundo representantes do governo.

Para infraestrutura há planos claros

A deficiência de infraestrutura no Brasil é gritante. Diversos estudos, inclusive um do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apontam um estágio “alarmante” dos aeroportos brasileiros. No entanto, apesar da situação atual, esse parece ser o elo da cadeia do setor aéreo que apresenta movimentos mais consistentes para superar seus gargalos.

Até o fim do ano, a SAC quer fazer a concessão de três aeroportos: Guarulhos e Viracopos, em São Paulo, e o Galeão, no Rio. Demorou, mas neste ano o governo de Dilma Rousseff definiu que esse modelo de concessão é o mais interessante para superar as dificuldades atuais. “A previsão é de que esse crescimento da demanda que a gente vê hoje vai se manter, por isso essas ações para viabilizar a expansão da infraestrutura”, diz Clarice, da SAC.

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