"A vida é bastante simples", diz José Mindlin em entrevista

Bibliófilo possui coleção com cerca de 40 mil livros e obras originais

Danielle Ferreira, do Último Segundo | 19/07/2009 10:29

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Foto: AE Ampliar

José Mindlin mostra o livro "Grande Sertão: Veredas"

A Casa do senhor José Mindlin transpira livros, em estantes que vão do chão ao teto. As diversas poltronas espalhadas e vazias parecem convidar quem invade o espaço a fazer a atividade que mais se encaixa e combina com o lugar: a leitura, que para os desavisados, toma a forma de contemplação.

O observador tímido pode notar que, em uma das paredes estão repousando diversos volumes, em edições diferentes de "Em Busca do Tempo" Perdido, de Marcel Proust. Obra que o dr. José, como o senhor Mindlin é chamado, nunca cansou de reler (os sete volumes no original em francês).

Mindlin é um senhor simples, em seus 94 para 95 anos. Cerca de 40 mil volumes, colecionados desde os anos 30, muitos deles raridades, como a primeira edição de "Grande Sertão: Veredas", estão na sua biblioteca. Ou então a rara primeira edição de "O Guarani", de José de Alencar, livro que demorou quase vinte anos para ser comprado, entre leilões e oportunidades perdidas. Até que a obra se perdeu, na viagem de volta ao Brasil, esquecida no avião. Foi recuperada dias depois: estava na Argentina.

Parte de sua coleção particular será doada para a Universidade de São Paulo (USP). Cerca de 17 mil títulos, ou 40 mil volumes, vão formar a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, que ficará em um edifício que está sendo construído entre o prédio da reitoria e a Faculdade de Letras, Filosofia, e Ciências Humanas.

As obras são da literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários, periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia (estampas e álbuns ilustrados) e livros de artistas (gravuras).

iG -Em um texto de 1992, publicado na Revista da Biblioteca Mario de Andrade, o senhor disse que tinha receio de deixar seu acervo para uma instituição pública no Brasil, com medo de uma possível falta de cuidados e continuidade de projetos. O que o fez mudar de ideia?
Mindlin - Bom em primeiro lugar, quando eu dizia essa coisa eu não pensava na universidade. A univesidade tem uma estabilidade que uma asssociação civil não tem. Você não tem segurança absoluta de conservação em caso nenhum, tudo corre em riscos, mas ficar com a biblioteca em casa... E eu tenho quatro filhos, todos gostam de livros, mas todos têm a vida própria, têm a bilbioteca própria, e eu achava que não podia sobrecarregar a vida de meus filhos dando o encargo de conservar a biblioteca.

Então, isso é que me levou a procurar uma instituição com estabilidade e com uma razoável segurança de permanência, de conservação. Sem ilusões, pode acontecer que num dado momento tem conservação e de repente lá os sócios decidem vender. É um risco que você corre ao fazer uma doação. Mas eu acho que você tem que abrir para um público mais amplo, dar acesso às obras a um número maior de pessoas e depois deixar ver o que está acontecendo.

iG -O que o senhor acha da falta de hábito no Brasil de dedicar algo privado à vida pública, como o senhor vai fazer com a biblioteca que montou ao longo da vida?
Mindlin - Olha, eu acho, que é uma coisa que nos Estados Unidos é comum, a pessoa abrir mão do seu patrimônio em benefício público. Eu acho que no fundo é uma obrigação, não tem nenhum mérito especial, e eu atribuo isso a não ter o fetiche da propriedade.

iG - Alguma vez o senhor pensou em vender a biblioteca, em vez de doá-la?
Mindlin - Não, eu vejo que há o papel de livreiro, mas não era o meu papel, eu até fiz uma tentativa com o Claude Blum [amigo e colecionador, com quem Mindlin abriu a livraria de obras raras Parthenon em 1946]. Um dia compramos essa livraria, e aí os mais velhos disseram: olha, você vai se desiludir rapidamente, porque você não foi feito para vender livros, você é feito para comprar, e realmente foi o que aconteceu, eu tinha um livro e a venda era sempre um sacrifício, e às vezes eu tinha que vender, já com outros na mira, que eu achava preferíveis.

iG -Em algum momento, a paixão que o senhor tem pelo livros lhe prejudicou?

 
 
 

Mindlin - Não, ao contrário, eu até não digo que eu tivesse de fato uma posição de privilegiado por gostar de livros, mas achava que era importante. Tinha pena de quem não dava o devido valor aos livros e não sabia o que estava perdendo, o prazer que os livros podem proporcionar. E isso vem de longe, desde, eu diria, os 13 anos, em 27, que foi quando eu comecei a frequentar os sebos. O ginásio era de manhã e à tarde eu corria os sebos, então eu me tornei amigo dos livreiros. E o engraçado é que eles não eram ciumentos.

É um comércio diferente do comércio normal. Minha mulher [a senhora Guita Mindlin, morta em 2006] era solidária comigo, quando eu hesitava, ela dizia: olha, se você tem o dinheiro para comprar esse livro, compra, porque o dinheiro volta, mas esse livro pode não voltar. Então realmente hoje eu só me arrependo do que eu não comprei, na biblioteca não tem nada que eu tenha me arrependido de comprar.

iG - Como um professor pode fazer a literatura se transformar em paixão para um aluno jovem?
Mindlin - Bom, a primeira coisa que se precisa ver é se o professor gosta de ler. Um professor que não goste de leitura, dificilmente vai transmitir o gosto pela leitura para os alunos, é um esforço conjunto, o professor tem que falar dos livros que ele se interessa por ler e falar para os alunos. Assim fica um interesse comum de ler, e tive alguns bons profesores que também pensavam que o papel do professor é interessar o aluno pela leitura.

iG -O que significa para o senhor fazer parte da Academia Brasileira de Letras?
Mindlin - A academia tem sua importância, porque reúne pessoas que gostam de ler, gostam de literatura. Agora, tem alguns que gostam da academia, do cargo, da importância, e isso eu realmente, sem desrespeito aos acadêmicos que consideram que a academia tem uma importância intrínseca, isso eu não tenho. E eu não me tomo a sério. Eu tomo a sério as coisas que eu faço, mas a mim eu não tomo a sério. Então a vida é bastante simples. Eu não achava que as academias são uma instituição, eu diria, ultrapassada. Quando eu fui convidado para entrar na academia, primeiro na de São Paulo e depois na Brasileira, eu não achava que minha vida tinha chegado ao cume do sucesso. 

Muitos já eram membros da academia ou de São Paulo ou da Brasileira e me diziam você deve entrar.  E eu dizia: eu entrar na Academia Brasileira? Eu não tenho título pra isso. Então eu acabei sendo convidado para entrar tanto na Academia Paulista como depois na Academia Brasileira. Sem achar que eu tinha ficado importante por causa disso. Mas tanto numa como em outra, não pleiteei entrar. Eu nunca pleiteei nada na vida que fosse de meu interesse pessoal, eu deixo o barco correr e as coisas vêm. Procurar as coisas não quer dizer que vai conseguir, então eu espero acontecer. Eu acho que a irreverência é um elemento importante na vida, você ter uma liberdade de crítica ajuda o relacionamento com outras pessoas.

iG - O que o senhor tem lido ou os autores novos com quem o senhor tem entrado em contato?
Mindlin - Não, eu preciso ainda me familizar com os autores novos, eu gosto muito de reler livros de preferência pessoal, eu releio com prazer. Entre reler o livo que eu gosto e pegar um livro que eu nunca tinha ouvido falar e ler, eu prefiro a primeira opção. E se eu viver mais dez anos, eu estaria obsoleto, não me atualizei com a literatura contemporânea, mas tem autores novos também que eu aprecio.

iG -  Como foi a sua experiência como jornalista no "O Estado de S. Paulo"? O que o senhor aprendeu e foi importante para a sua vida trabalhando como jornalista?


 
 

Mindlin - Abriu uma cortina, eu fiquei conhecendo a sociedade por fora e por dentro. Eu era menino, eu entrei no Estado em maio e fiz 16 anos em setembro, então fui o repórter precoce. A experiência foi que, primeiro eu aprendi a escrever. Eu já escrevia razoavelmente, mas o Estado era rigoroso no Português, escrever com correção e clareza, eu aprendi lá.  Você tem que falar numa linguagem correta e acessível ao público médio. Eu creio que a minha escrita se tornou definitiva na Redação do Estado.

E era um ambiente ótimo, pois o jornal tinha uma Redação pequena, todos os redatores bem mais velhos do que eu, que achavam graça num menino assim interessado, eu tinha uma certa precocidade, então eu me equiparava tranquilamente aos jornalistas mais velhos. O sistema lá era esse: olha releia, se você estiver satisfeito, tudo bem. Considero uma escola insubstituível, pois ela é feita com cordialidade e sem inibição.

iG -O senhor, que devorava livros enquanto os professores de Direito liam sua preleções na aula, acha que fazer faculdade é uma escolha essencial na vida das pessoas?
Mindlin - Bom, em primeiro lugar, é essencial do ponto de vista formal. Em segundo, o ambiente da universidade situa você à vontade para o futuro. As amizades mais sólidas feitas na mocidade são feitas na faculdade. E a faculdade era o ambiente mais misto possível, porque tinha os integralistas, que estavam começando, e eu era muito contra, mas o integralismo não tinha assumido aquele papel meio fascista que veio depois. Então, a gente tinha amigos integralistas, eu era considerado comunista, porque já naquela época você falar em reforma social, era comunista, como reforma social, a sociedade está bem organizada. E eu ainda tenho gente que me considera assim, mas para comunista do que outra coisa. Você vê a doação da biblioteca eu não tenho o fetiche da propriedade, o contato com o livro é um aprendizado para mim, é uma companhia também insubstitível.

iG - Qual foi a experiência mais valiosa que o senhor levou da época em que foi Secretário de Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, em 1975?
Mindlin - Fui convidado para ser secretário com a ideia de usar o cargo para coisas úteis. Eu achava que havia secretários que ficavam um ano, dois anos ou mais e não deixavam marca, e ter a oportunidade para ser secretário de Cultura valia o risco. A vantagem é você poder fazer coisas, é um instrumento importante.

iG - Como foi conviver com tantos autores consagrados, como Guimarães Rosa e Drummond?

Mindlin - Olha, a amizade e a convivência com a amizade - e não uma convivência puramente formal - , é uma das boas coisas da vida. Eu sempre tive a sensação de que o escritor bom é um ser superior. Eu sei que é uma ilusão, mas eu embarquei nessa ilusão, de achar o escritor um ser que tem um elemento de superioridade sobre o leitor, porque o escritor é o criador, o livro é a criatura e o leitor é quem aproveita do trabaho do escritor. Me aconteceu várias vezes com escritores, conhecendo a pessoa, achar que seria difícil ela escrever uma coisa muito boa.

iG - Isso aconteceu com o Guimarães Rosa?
Mindlin - Eu tinha a impressão de que a linguagem dele era rebuscada, artificial, mas não é. Ela é aparentemente complicada, mas ela é complicada dentro da simplicidade, é uma lógica de exposição muito boa. Guimarães Rosa eu conhecia antes de ler a obra e achava que ele era um sujeito com quem eu tinha uma boa convivência, mas não fazia ideia de que a obra dele fosse dessa importância e, quando li, fiquei espantado.

Realmente, no Brasil nós temos Machado de Assis como expoente do século 19 e o Rosa como expoente do século 20 e eu custei a me dar conta disso. Porque todo mundo falar de um escritor não é uma coisa que me leve a querer ler, eu fico desconfiado, o Brasil é um país de entusiasmos fáceis, então é preciso ter um certo receio.

iG - Aos 94 anos de idade, o que o senhor mais deseja?
Mindlin - Olha, eu tenho na minha vida deixado o barco correr, eu não tenho objetivos, desejos fixos, marcantes que eu fique perseguindo. Eu acho que a expressão da gente deixar o barco correr, é bem significativa. A vida corre independentemente do controle da gente, você pode, embora, querer algumas coisas específicas, mas planejar a vida eu nunca planejei. E estou satisfeito de não ter planejado, porque tudo que aconteceu foi satisfatório, agora ficar atrás de uma coisa, perder o sono até conseguir, isso nunca me aconteceu.

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