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A vida de zumbi de quem sofre de insônia

Os olhos abertos fitam o teto e ele fica imóvel, torcendo para que o sono chegue, enfim. Não o sono ralo que o acompanha há anos.

Agência Estado |

Mas o descanso reparador de que ele tanto precisa para encarar adversários ferozes no dia seguinte. Enquanto luta contra a sensação de alerta, ele sabe que seus competidores repousam profundamente. "É desesperador", desabafa o velocista Sandro Viana, finalista dos 4x100m em Pequim.

Sua insônia crônica - quando as crises se repetem por mais de três meses - atingiu o pico entre os grandes prêmios de Fortaleza, Rio de Janeiro e Uberlândia, em maio, quando Sandro só conseguiu dormir um pouco melhor por duas noites em uma semana. "Adormecia às 23h e à 1h despertava, sabendo que não dormiria mais. E que na manhã seguinte encontraria os outros atletas dispostos e eu seria um zumbi."

A performance de Sandro estava ameaçada e ele chegou a pedir que seu técnico o liberasse dos outros compromissos ao longo do ano. Mas o treinador insistiu em que ele buscasse tratamentos alternativos - já que atletas não podem tomar qualquer tipo de remédio - e Sandro acatou. "Hoje, já consigo dormir 5 horas por noite. Mas deito assim que bate o sono, porque sei que pode ser minha única chance", conta.

Um estudo epidemiológico dos distúrbios do sono, que está sendo concluído pelo Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que 13,2% dos paulistanos sofrem da síndrome da insônia. Pelos critérios internacionais, a insônia vira síndrome quando o sujeito apresenta queixas de dormir pouco e mal, a duração das crises é de mais de um mês e há consequências diretas no dia a dia do paciente. Os que apenas se queixam de insônia chegam a 37,6% dos moradores da cidade.

"Fizemos entrevistas subjetivas e exames objetivos em 1.101 paulistanos, de 20 a 80 anos, de ambos os gêneros e todas as classes sociais", explica Rogério Silva, coordenador da pesquisa Episono. Os dados revelam ainda que as mulheres são mais atingidas pela síndrome: 16,5% das paulistanas se encaixam nesse perfil, contra 9,2% dos homens.

Estresse

A insônia costuma ser mais sintoma do que doença - embora em 35% dos casos seja considerada primária, provocada por uma resposta anormal do cérebro ao estresse, deixando as áreas relacionadas à vigília mais ativadas. Quando é secundária, além de ser uma decorrência comum de outros distúrbios do sono, como a apneia, a insônia é frequentemente associada à depressão. "Quem vem se tratar está muito aflito e geralmente condicionado vários medicamentos", relata Anna Karla Smith, médica do sono.

Para ela, fator determinante do tratamento da insônia crônica é a psicoterapia, para se tentar diminuir a necessidade de remédios e, em último estágio, para que o paciente reaprenda a dormir. "Quando crianças, dormimos mais, pois o sono é o momento de processamento das memórias", explica. "Na adolescência e na maturidade, criamos hábitos que nos mantêm longe da cama. E a cobrança do insone, de que ele precisa dormir de qualquer jeito, acaba tendo o efeito contrário."

Sintomas

O que se sabe é que pessoas que não dormem direito há vários dias podem apresentar dores musculares, visão embaçada e discurso confuso. O ritmo dos batimentos cardíacos aumenta e a memória raleia. Os níveis de cortisol, hormônio relacionado ao estresse, disparam. São esses os efeitos que levam eventualmente a uma automedicação desesperada.

A alternativa é, como na maioria das situações crônicas, procurar ajuda profissional e tratamentos. "Com os remédios mais modernos, as terapias auxiliares e algumas mudanças de hábitos é possível dar ao insone uma qualidade de vida", afirma a neurologista Anna Karla. É o que Sandro está empenhado em alcançar. Melhorou sua alimentação, procurou técnicas de fisioterapia que estimulam o sono e, por volta das 20h, vai para o quarto. "Interrompo o que for quando me sinto sonolento. Descobri o quanto é valiosa uma noite bem dormida."

AE

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