A relação estreita entre saúde e trabalho

A relação estreita entre saúde e trabalho Por Cecília Nascimento São Paulo, 03 (AE) - Livros de auto-ajuda para superar dificuldades na vida profissional existem aos montes nas vitrines das livrarias. Poucos, porém, nascem da experiência prática de convívio com as angústias reais de quem não consegue equilibrar a atividade que garante a sobrevivência com uma vida saudável.

Agência Estado |

E que tenha embasamento médico.

Preocupado com a variedade de edições de qualidade duvidosa e sem base científica, o médico Marcelo Dratcu, pesquisador da unidade de Medicina Comportamental do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina-Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), decidiu escrever "Por que não me disseram isso antes", que acaba de chegar à livrarias pela editora Saraiva. Confira, na seqüencia, a entrevista com Dractu.

AGÊNCIA ESTADO - Qual a relação entre saúde e trabalho?

MARCELO DRATCU - Em umas das primeiras páginas do livro, cito uma frase do médico italiano Bernardino Ramazzini, que trabalhava na Europa no século XVII e foi um dos primeiros profissionais de saúde a relacionar trabalho e vida saudável. Ele escreveu "Quando estiver na cabeceira da cama de seu paciente, não se esqueça de perguntar-lhe onde trabalha para saber se na fonte de seu sustento não se encontra a causa de sua enfermidade". Há mais de uma década trabalhando com essa relação, posso afirmar que a maior dificuldade, tanto dos profissionais como das empresas, é ver o ser humano como um todo. Na empresa, a pessoa é o mesmo ser humano que atua em família, na sociedade, com todas as deficiências e limitações. Quando o trabalho não vai bem, a família e a vida social como um todo é afetada. E vice-versa.

AE - Quais os problemas mais comuns relacionados ao trabalho?

DRATCU - Pesquisadores da Harvard Medical School , em parceria com o National Institute of Mental Health, nos EUA, divulgaram em outubro do ano passado um estudo que mostra que pessoas que sofrem de problemas físicos ou mentais perdem cerca de 32 dias de trabalho por ano devido a faltas ou incapacidades de realizar suas atividades diárias, contabilizando 2,4 bilhões de dias perdidos em decorrência de problemas físicos e 1,3 bilhões por problemas psíquicos. As condições clínicas mais incapacitantes são as doenças músculo-esqueléticas, especialmente dores nas costas e no pescoço, e a depressão, respectivamente.

Aí entra a responsabilidade do empregador, que nem sempre oferece condições físicas e emocionais para a realização da atividade profissional. No Brasil, não temos ainda dados recentes, mas a pesquisa americana mostra que há um prejuízo geral - para a saúde humana e para as empresas, sejam públicas ou privadas.

AE - O que podem fazer os trabalhadores e os empregadores para melhorar essa situação?
DRATCU - Freqüentemente, reportagens e artigos médicos sobre saúde no trabalho dão dicas para que o trabalhador cuide de sua saúde psicológica e física. Isso inclui exercícios físicos, maior convivência familiar e alimentação equilibrada. Pouco se fala do papel dos empregadores. O que falta, na minha opinião, é verificar que o trabalhador, seja de baixo, médio ou alto escalão, precisa ser ouvido em suas demandas. O que muitos pacientes que procuram a nossa ajuda no hospital reclamam é que não conseguem se sentir ouvidos. A cultura autoritária e paternalista ainda existe em muitas instituições e isso atrapalha o relacionamento. Ninguém quer, numa relação, apenas ouvir. Quer ser ouvido também. Quando esse respeito existe, o coração funciona melhor, o trabalhador se sente mais motivado. Segundo pesquisa realiza em 2006 pela Hewitt Associates, consultoria de recursos humanos, empresas com funcionários mais engajados possuem maior banco de talentos, menor rotatividade de pessoal, menores índices de absenteísmo (faltas), satisfação crescente de clientes, maior retorno financeiro e sustentabilidade para enfrentar desafios nos negócios.

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