A poderosa gestora do Bolsa Família

Norma Ferreira inclui e retira pessoas do programa. Há quem use benefício até para comprar playstation

Sabrina Lorenzi, enviada a Junco do Maranhão |

Das cinco salas de paredes verdes e quentes da Prefeitura de Junco do Maranhão, a mais movimentada trata do Bolsa Família. Nem o gabinete do prefeito é tão procurado. Sem ar condicionado, com temperaturas condizentes com a proximidade da linha do Equador, Norma Ferreira, de 51 anos, comanda a gestão do programa no município. E acumula o cargo com o de titular da secretaria de Assistência Social da prefeitura.

Discreta, de fala mansa, Norma ri quando a chamam de poderosa. Temida por uns, adorada por outros, ela comanda a fonte de renda que mais alcança gente na cidade. São 888 famílias recebendo o Bolsa Família na cidade de maior cobertura do País. Por onde passa, causa reação. Uma beneficiária convidada a pegar carona para casa com esta reportagem diz: "Se a Norma for, então eu vou também". Outra fica reticente em abrir as portas de sua casa para ela e o iG. Afinal, Norma inclui e retira famílias do maior programa social do País.

Paulo Marcos
Muitas famílias não entendem as regras e pensam que, quando são retirados do programa, eu fico com o dinheiro delas

Norma não dá a palavra final, mas é quem indica os nomes para entrada ou saída do programa, pois fica à frente da fiscalização. O poder é diluído no Conselho Municipal de Assistência Social da cidade, que costuma acatar o parecer de Norma sobre a situação das famílias.
"Quando assumi a gestão vi que muita gente que não precisava tinha o benefício e tive de direcionar a verba para os que realmente precisavam", conta. "Muitos ficaram chateados comigo. Tenho até medo", desabafa.

Formada em Letras, Norma deu aulas nas escolas municipais de Junco do Maranhão durante 16 anos até ingressar na secretaria de assistência social do município, em 2005. Entrou como coordenadora de um programa social e acabou aceitando convite para assumir o comando da pasta. Com o cargo, veio também a função de gerir o Bolsa Família para o governo federal. Filiada do PT desde 1997, Norma trabalha para uma prefeitura de poucos recursos, onde os telefones fixos não funcionam. Faz parte do quadro do prefeito Iltamar Pereira Araújo (PRB), que está no segundo mandato.

"Muitas famílias não entendem as regras. Eles pensam que quando são retirados do programa, eu recebo no lugar deles". Viúva, mãe de cinco filhos, Norma vive com o segundo marido na mesma casa há décadas, na mesma rua em que trabalha. O imóvel é simples, sem laje, mas bem aparelhado com eletrodomésticos.

Professora concursada, ele recebe cerca de R$ 2 mil como secretária da Prefeitura, sem salário extra do governo federal pelo trabalho como gestora, conta.

A fila anda

Em 2010, o trabalho de Norma aumentou, já que as vagas foram congeladas no Bolsa Família. A oportunidade de entrada dos mais carentes, portanto, está condicionada à saída de outros. A cada final de ano, Norma indica uma lista de pessoas suspeitas de terem elevado a renda, outra de famílias candidatas à inclusão.

Em Junco do Maranhão, 131 famílias deixaram de receber o benefício neste ano. Destas, 56 tiveram o pagamento transferido para outros municípios. As demais foram cortadas do Bolsa Família porque não se enquadravam mais no perfil.

Amiga não escapa

Há também quem tenha conseguido elevar renda com emprego melhor, como é o caso da professora Raimunda Gomes Pereira. Amiga de Norma, Raimunda não escapou da fiscalização. Quando soube que a vizinha passara num concurso público, foi até sua casa e avisou que perderia o benefício. "Claro que entendi a situação e não me importei com isso. Norminha tinha toda a razão", diz Raimunda. As duas frequentaram a mesma faculdade na cidade vizinha de Governador Nunes Freire. “Nós nos conhecemos antes dessas barrigas. Crescemos e alargamos”, lembra, rindo.

Paulo Marcos
Amiga de Norma que perdeu o benefício: entendi perfeitamente

Ela passou num concurso público no final do ano passado para lecionar na rede estadual de ensino. Elevou a renda de um salário mínimo para R$ 1,8 mil. Com cinco filhos, a professora dava aulas somente na rede municipal. O marido, lavrador, praticamente cultiva para a subsistência, segundo ela.

Formada em Letras e pós-graduada em Português e Literatura por um curso à distância, Raimunda avalia que o Bolsa Família a ajudou a dar o salto no mercado de trabalho. "Com o dinheiro do programa, eu tive mais tempo para estudar, em vez de me preocupar em fazer outros trabalhos", conta.

Famílias com renda per capita superior a R$ 140 não recebem o benefício. Rendimentos de R$ 70 a R$ 140 podem ganhar benefícios variáveis, que dependem de crianças e/ou jovens na escola.
A saída de gente como Raimunda do programa abriu caminho para outras 60 famílias, que entraram no programa em 2010. Norma conta que cerca de dez famílias deixaram de receber o Bolsa Família neste ano porque foram capazes de aumentar a renda, como a professora Raimunda.

Playstation na mira

Outro caso na mira da gestora do Bolsa Família é o da beneficiária Maria da Glória dos Santos Silva. Segundo Norma, Maria da Glória foi indicada para receber o benefício, há alguns anos, porque a renda por pessoa da família era inferior ao teto de R$ 140 estabelecido pelo governo federal. “O marido dela estava desempregado, mas já verificamos que não está mais. Comprou carro e tudo”. O caso é um dos cinco que já f

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Maria da Glória usou benefício para comprar playstation para o filho

oram identificados para a exclusão do programa no final do ano. A versão de Maria da Glória é outra. Segundo ela, a renda da família não passa de R$ 400, dinheiro proveniente das vendas da lojinha montada na garagem de casa. Ela diz que o marido “faz uns bicos” e a família ainda precisa da verba do Bolsa Família. Por outro lado, ela conta que comprou um videogame Playstation com o dinheiro do programa. O aparelho foi comprado para o filho Manoel.

O Bolsa Família não estabelece regras para o uso do benefício, mas as assistentes sociais são orientadas a sugerir que as mães gastem o dinheiro com alimentos ou material escolar para os filhos.

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