A moda que veste a casa

A moda que veste a casa Por Beto Abolafio Roupas vestem o corpo. Móveis vestem a casa.

Agência Estado |

Moda e design sempre caminharam juntos. Mas, agora, com a velocidade das informações do mundo globalizado, essa relação entre as diferentes áreas anda cada vez mais estreita. Para além da criação, é uma questão de mercado.

Importantes grifes internacionais, como ocorre com os perfumes, também têm sua linha para a casa - às vezes com lojas específicas para ela. No Brasil, é um fenômeno relativamente novo o interesse dos estilistas por criar produtos domésticos, tanto quanto o de fabricantes de móveis e objetos por aqueles profissionais. "Isso mostra um amadurecimento da indústria da moda no Brasil", opina a editora de moda Lilian Pacce. O objetivo é atender a um consumidor que busca o conceito do exclusivo e faz da casa extensão do comportamento. Para isso, a indústria e os próprios estilistas passam a apostar no frescor de um olhar capaz de agregar o que é fashion a um sofá, um lençol, um prato, entre outras possibilidades.

"É a estética do estilo", resume Sonia Diniz, proprietária da loja Firma Casa. Nesse consumo por identificação, a visão dos estilistas tem mesmo valor, segundo Houssein Jarouche, dono da Micasa. "Traz sofisticação", considera o empresário, que destaca a vivência dessa gente com o traço e os tecidos, natural para quem cria duas coleções de roupas por ano.

Mas ninguém troca a decoração de casa como quem troca de roupa. Portanto, móveis e objetos de grife têm de guardar certa perenidade. O segredo parece ser traduzir, da melhor maneira possível, o que é visceral em cada marca e autor, independentemente do preço do produto em questão. "Não precisa ser caro ou barato. Precisa ser único", explica o coordenador de tendências da Tok&Stok, Edson Coutinho.

Jum Nakao, Marcelo Sommer, Amir Slama, André Lima, Adriana Barra e Alexandre Herchcovitch são profissionais da moda brasileira que têm adentrado o mundo do design de mobiliário e objetos. Abaixo, confira a opinião de cada um deles sobre o trabalho.

JUM NAKAO - "CASA É PELE"
É atrás de uma porta de garagem em uma rua da Vila Clementino que Jum Nakao cria. O cenário é caótico, mas o estilista não se perde em meio à confusão visual. Sabe bem o que quer. O desfile dele na São Paulo Fashion Week em 2004 ainda ecoa na mente de quem viu. Criações de papel cortadas a laser eram rasgadas pelas modelos ao final, provocando comoção e fazendo pensar, entre outros aspectos, sobre a efemeridade da moda. Desde essa espécie de clímax, Jum não produziu muito mais roupas, mas passou a atuar em outras áreas, como o design de móveis a partir de imagens afetivas. "A roupa é um objeto ao redor do corpo. Em uma escala maior, a casa também é uma pele", diz.

Mais do que emprestar estampas para tingir produtos, o profissional tem mergulhado no fazer design. Aqueles mesmos cortes a laser compõem, por exemplo, uma poltrona metálica que concebeu e está à venda na A Lot Of. Para a mesma loja, fez interferências com tecidos produzidos por uma comunidade carente do bairro do Brás em assentos assinados por Michel Arnoult, um dos precursores do móvel seriado no Brasil. Há ainda a estante vertical, com módulos pivotantes, a ser lançada pela Tok&Stok. Nessa peça colorida, parece ficar evidente um traço de influência na obra do autor: o lúdico.

Em busca de um design mais "humano e holístico", Jum prossegue em seu caminho - aliás, muitas vezes feito de bicicleta. "É bom ser gauche", comenta. Quando criança, uma professora o ensinou a desenhar uma maçã, indicando que começasse por misturar vermelho e amarelo para, aos poucos, chegar à casca da fruta. "Descobri, com isso, que as coisas não são feitas apenas de contorno", divaga o paulistano de 42 anos, que, pela essência de sua produção, foi recentemente homenageado na Holanda, onde teve convite para ser exilado intelectual. Recusou.

RUA E RETRÔ INSPIRAM SOMMER
O mundo da rua norteia o trabalho do paulistano Marcelo Sommer. O vocabulário street wear, somado a boa dose de reminiscências, reflete-se também nos objetos estampados de sua linha para casa, a Oliveira Lar, que tem desenvolvimento do designer Amaury Moraes. São canecas, porta-joias em forma de mão, xícaras, bandejas que parecem ter saído da casa da vovó. A ideia de se embrenhar no segmento de objetos veio no fim de 2006, depois de sair da direção criativa da marca Sommer, vendida ao grupo AMC Têxtil em 2004.

Para o estilista, trata-se de mais uma forma de expressão. Seja nas passarelas ou nos objetos, ele gosta de provocar algo na memória das pessoas. Ao ser perguntado sobre como era quando criança, Sommer, meio assustado, pergunta: "Por quê?" Só mais tarde reconheceria a importância desse período em sua lida, como a predileção pela cor dos uniformes escolares, caso do vinho e do azul.

Alto e esguio, o homem de 42 anos admite não gostar muito de dar entrevistas. Não por ser blasé, mas por timidez. "Ainda que nem sempre, curto também transmitir mensagens de sorte nas coisas que faço", explica o canceriano. Ele, que aprecia decoração, mora em um lugar coalhado de móveis e objetos com ar retrô e muitos, muitos brinquedos colecionados. Alguns exemplares estão à venda em sua loja, Do Estilista, um predinho na Alameda Franca, na região dos Jardins, em São Paulo, onde, no andar superior, fica sua sala.

Entre outras coisas, ali se pode observar o vitral com motivos florais na parede de fundo, além de um quadro com uma santa e outro com um Cristo. Seria ele religioso? "Acredito em Santo Expedito", afirma, a respeito da figura evocada para destrinchar causas urgentes - e que dá as caras em uma de suas canecas.

VERÃO ETERNO DE SLAMA
Depois de 16 anos à frente da Rosa Chá, Amir Slama virou uma espécie de rei do beach wear brasileiro. Em maio, o estilista desligou-se da marca, que foi vendida para o grupo Marisol. Está livre para outras investidas. Isso quer dizer abrir novas lojas com seu nome, mas também desenvolver produtos para casa. Amir já tinha criado móveis para a Montenapoleone, por exemplo. Agora, uma série de itens com sua assinatura - para serem usados no jardim ou na piscina - acaba de chegar à Tok & Stok. Tudo a ver com o verão.

De chaises a garrafas de plástico, a série explora estampas criadas pelo paulistano de 42 anos, ao longo da carreira, com atmosfera bem tropical. "Foi quase um licenciamento", explica ele, que entrou com os grafismos, enquanto a rede de lojas desenvolveu a coleção. Até hoje, o autor registra cerca de 500 desenhos, que exploram diferentes temáticas e texturas, muito embora admita ser o Brasil uma de suas maiores fontes de inspiração. "Carmen Miranda é um ícone para mim", afirma o profissional, que diz não haver regra na hora de criar, seja na moda, seja em outro segmento. "Me libero para sentir um pouco de tudo."

Slama também assina a coordenação criativa da marca Trousseau, de home wear. Ali, uma vez por semana, tem cuidado de cada detalhe da coleção de inverno 2010 - que, como era de se esperar, passa pela estamparia das peças, uma marca do criador desde o começo de sua trajetória. Foi quando o jovem formado em História desistiu de dar aulas e, com a namorada, alugou um sobrado no bairro do Bom Retiro - onde não havia nem telefone - para começar a fazer uma moda praia personalíssima. O ponto de partida foram velhas máquinas de costura fornecidas pelo pai depois de um negócio desfeito. Hoje, com uma pequena equipe, o estilista ocupa também um sobrado, dessa vez no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, lugar onde continua com a mesma vocação.

ANDRÉ TESTA A GEOMETRIA
O apreço de André Lima pela decoração e pelo design fica evidente a quem visita sua loja-ateliê na Vila Olímpia, na zona sul da capital paulista. Com exceção do armário escandinavo, um ambiente todo feito de móveis desenhados pelo estilista paraense compõe a recepção. Os sofás e pufes de grandes dimensões empregam estampas em preto e branco, tanto gráficas quanto orgânicas. A geometria está ainda presente no tapete em tons fechados e nos garden seats. Têm tudo para ser perenes, embora fashion. Com espaço também para a cor, essa é só uma amostra do que o criador produziu para a Firma Casa com a ajuda do amigo e arquiteto Maurício Arruda, já que ainda engatinha em aspectos como volumetria e proporção do mobiliário.

Nascido em Belém, o estilista chegou a cursar Arquitetura na metade dos anos 80, mas não concluiu. "A moda falou mais alto", lembra ele, com personalidade entre cartesiana e intuitiva, que na época estava com o pós-modernismo na veia e buscava experimentações não proporcionadas pela faculdade. Hoje, aos 39 anos e desde 1992 em São Paulo, a incursão nesse outro universo parece ter se mostrado complementar à sua atividade principal. Afinal, na moda, diz ter mesmo como referência o design, a decoração, além da arte e da natureza - essa última tão presente na infância. "Isso me fez ter uma visão do Brasil para além do turístico."

Aos 5 ou 6 anos, André pirou quando descobriu uma biblioteca. Amante dos livros, compra quilos de exemplares para matar uma curiosidade inata. A experiência com estamparia e esse olhar caleidoscópico, que gosta da ideia de influenciar a vida das pessoas, interessou Sonia Diniz. A proprietária da Firma Casa logo arrematou as primeiras almofadas de jacquard feitas pelo estilista com sobras de tecidos da confecção. Foi a semente de uma viagem estética que parece estar só no início. "Quero experimentar muito mais", conta o profissional, que adora a presença de ícones sacros tanto no trabalho quanto em casa, onde, confessa, não gosta de acumular muitas coisas.

ADRIANA: ESCOLA DE ESTAMPAS
Além de produzir um prêt-à-porter com acabamento de alta-costura, Adriana Barra prepara-se para lançar, em breve, sua moda casa na loja recém-inaugurada nos Jardins, em São Paulo. Tudo sempre com estampas vistosas. "Nunca vou deixar de experimentar", afirma. Entre as novidades, chama a atenção, por exemplo, um jogo de cama em que a descolada boneca Blythe surge em diferentes looks.Em 2003, um convite do proprietário da loja Micasa, Houssein Jarouche, fez com que a estilista migrasse seus desenhos para vestir um sofá e a poltrona Swan, clássico de Arne Jacobsen, além de usá-las em tecidos de decoração. Foi o ponto de partida para outras vivências. De lá para cá, lançou, pela mesma loja, outras peças coloridas, revestidas de laminado plástico. E também minigeladeiras, nas quais, por exemplo, pode-se constatar o encontro inesperado de Piu-Piu e Frajola com o tradicional xadrez da inglesa Burberry. "Ainda não desenho peças. Prefiro, por enquanto, lidar . só com as estampas", explica.

Na sala onde cria, em seu ateliê na Barra Funda, na zona oeste da cidade, uma estante repleta de livros, fotos, toy arts, lembranças de viagens e até embalagens dá pistas de um viés multicultural. É a partir desse repertório que a estilista, em seu Macintosh potente, vai unindo isso com aquilo, escolhendo cores, estabelecendo variações. "O que faço, faço primeiro para mim", diz a paulistana de 36 anos. É como se tal criação remetesse à adolescente que personalizava as capas de cadernos. E pensar que Adriana chegou a aventar ser designer de interiores. Mas foi com a publicação de um vestido seu na revista Elle, em 2002, que a carreira decolou e não para de crescer.

ANTENADÍSSIMO HERCHCOVITCH
São 8h15 de uma quinta-feira e Alexandre Herchcovitch já está em seu ateliê no bairro de Campos Elísios, no centro de São Paulo. É que ele prepara a coleção de inverno 2010, que tem de ficar pronta logo, logo. Painéis resumem as criações em sua sala. Cioso dos achados, prefere que nada ali seja fotografado - nem visto. Depois da sessão de fotos, numa entrevista de 17 minutos, por causa da agenda complicada, revela como vê a interseção entre moda e design. "Moda é design. Por isso, os criadores de roupas têm capacidade de pensar em outros tipos de produtos", opina. Ele, que já estampou isqueiros descartáveis e até ataduras, também faz cama e banho para a Zêlo e objetos para a Tok&Stok, que deverá lançar em breve um novo sofá com sua grife.

As influências do autor vêm de dentro ou de fora. "Fico antenado em tudo o que acontece, mas também tenho minhas lembranças de adolescência." Sejam quais forem os produtos para a casa, o importante, para ele, é não perder o DNA da marca, com uma pegada transgressora, contestadora, inusitada. Um bom exemplo são os pratos e saladeiras em que surgem, estampadas, lâminas de barbear.

Mas foi a memória afetiva que falou mais alto na coleção recém-lançada pela Micasa. As diferentes paginações de tacos do piso das casas da família - um elemento sempre presente em seu imaginário - agora estão revisitadas em tampos de mesas, banco e tapetes desenhados de fato por ele. Com acabamento impecável, as peças ganharam os nomes das donas daquelas residências: Regina é a mãe do estilista; Golda, a avó paterna; Maria, a avó materna; Sara, uma tia.

Parquet também reveste a casa onde ele vive, no Sumaré, na zona oeste da cidade, com seus cães Paschoal, Berenice e Chanel. Fica pouco ali e, nessas ocasiões, deixa tudo o que se refere a trabalho de lado. Mas o que, afinal, o paulistano Herchcovitch, aos 38 anos, pretende do futuro? "Só sei que não quero só desenhar roupas", responde, de olho em novos desafios.

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