A joia do lixo Por Vera Fiori Aos 27 anos, a carioca Mana Bernardes tem muito para contar sobre as voltas e reviravoltas de sua vida, que, desde a infância, foram tecendo sua vocação para transformar objetos do cotidiano em joias singulares, e pensamentos em artes visuais. Em suas mãos, modestos grampos de cabelo viram gargantilhas majestosas, assim como braceletes feitos com escamas verdes de garrafas plásticas ganham status de esmeraldas.

Bolas de gude, cordões de polietileno, cartões telefônicos, garrafas PET, canetas esferográficas, vidros de amostras de perfumes, palitos, redinhas plásticas que embalam limões, madeiras e outros materiais misturam-se à prata e às pérolas, confundindo o olhar sobre o que é lixo e o que é nobre. "A ideia chega primeiro e, depois, vou atrás do material."

Suas peças, produzidas num aconchegante ateliê no bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, ganharam projeção internacional. Estão à venda no Museu de Arte Moderna - MoMA, de Nova York, dentro do projeto "Destination Brazil", que reúne nomes como Irmãos Campana, Paulo Mendes da Rocha, Kimi Nii, entre outros. As cores, formas e texturas presentes em suas joias conversam com moda, poesia, artes plásticas e educação, caminhos que se entrecruzam no seu trabalho. Não podia ser de outra maneira, já que Mana traz no DNA influências criativas por parte do avô, o arquiteto Sérgio Bernardes, do pai, o cineasta Sérgio Bernardes, e da mãe, a socióloga, artista plástica e poetisa Rute Casoy:

- Comecei a fazer colares de miçangas aos 7 anos, quando fui passar férias na Bahia e visitei a aldeia dos índios pataxós. Quando voltei para o Rio, inventei bijuterias com retalhos de lycra, papel de embrulhar carne e aquele papel douradinho de maço de cigarro. Aos 12 anos, tive um problema sério de saúde e me afastei da escola por um ano e meio, quando passei a desenvolver peças para lojas como a Cantão. Nessa época, teve muita repercussão as tiaras que eu criava para a personagem Babalu, da novela da Rede Globo "Quatro por Quatro", em meados de 90.

ARTE E CIDADANIA
Aos 14 anos, conheceu a pedagoga Iolanda Silva, da ONG Ser Cidadão, e durante oito anos trabalhou com capacitação profissional de jovens de risco, por meio de oficinas de bijuterias. "Fiquei apaixonada pelas aulas e, mais ainda, pelos resultados, experiência que inspirou o slogan da minha marca: o poder de transformação é a joia do ser humano", conta. Mana também trabalhou em uma grande fábrica de bijuterias de resina, a R. Sobral, onde teve contato com todos os elos da cadeia de produção de acessórios, da matéria-prima ao varejo.

Em 2002, deu um tempo na criação, quando o pai a chamou para ser assistente do longa metragem "Tamboro", a ser lançado este ano:

- Viajei por todo o Brasil, acampei com os integrantes do MST, foi uma experiência muito rica. Terminadas as filmagens, pensei: e agora? Retomei os colares com a proposta de manifestar coisas grandiosas e universais da forma mais simples possível, utilizando materiais de uso cotidiano. Como exemplos, a partir da mandala, desenvolvi o colar "Manda Lá", recortando uma a uma, lâminas com sobras de garrafa PET. Já no colar "Esferas que Flutuam na Rede", usei princípios da Física, misturando bolas de gude e redes de plástico. Mas oferecia às lojas e as pessoas não entediam o conceito.

Foi quando decidiu investir na própria marca e decolou em apenas seis meses. No entanto, para ela, não bastava apenas reciclar o material usado e dar novo uso a ele. Era preciso alertar as mulheres envolvidas na produção sobre questões ambientais:

- No caso dos colares com PET, fizemos um trabalho de conscientização com as artesãs, sobre a importância da reciclagem, orientando-as a recolher as garrafas nas suas vizinhanças. Estava, assim, fechado o ciclo de produção, que hoje enfeita o colo de mulheres. Ainda, para que o processo fosse realmente justo, precisávamos compensar o trabalho de coleta das artesãs, o que foi embutido no preço de montagem das peças, diminuindo nossa margem de lucro.

PROJETOS DIVERSOS
Paralelamente ao ateliê, teve participações em um livro sobre design contemporâneo e em algumas exposições. O flerte com as artes plásticas resultou em um vídeo, com projeção internacional. A ideia surgiu casualmente, durante uma pesquisa para a Faculdade de Desenho Industrial na Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ), ainda em curso, sobre o simbolismo espiritual dos cordões, guias, terços. "Comentei com uma amiga que seria bacana registrar imagens do umbigo de várias pessoas na rua, conectando-as por um cordão, como um grande cordão umbilical." E não é que, por intermédio dessa amiga, o Senac bancou o projeto? Mana saiu às ruas clicando umbigos de todos os tipos, de 130 pessoas. Em 15 dias, nasceu a videoarte "Conectar-se pelo Cordão", que já percorreu vários países.

Experimentações na moda também fazem parte do currículo de Mana. Na São Paulo Fashion Week do ano passado, suas poesias foram bordadas na parte de trás e nas mangas de camisas masculinas e moletons da marca Uma, da estilista Raquel Davidowicz. Participou de um workshop este ano, na 6ª edição do Ziguezague, projeto idealizado pela pesquisadora de moda Cristiane Mesquita e produzido pelo Museu de Arte Moderna (MAM-SP), em parceria com o Senac São Paulo, e que ocorre por ocasião das edições de inverno da SPFW.

Com entusiasmo, fala também sobre sua metodologia "História de Vida Através do Objeto; História do Objeto Através da Vida", que já foi aplicada no Instituto Europeu de Design, em São Paulo, e por instituições de todo o país: "São cursos de uma semana para 30 alunos, em que cada participante recebe um kit com arame, papel e caneta, e é estimulado a trabalhar seu potencial criativo", explica. O mais novo projeto, adianta, é um livro de contos e poesias todo manuscrito, que deverá ser lançado em setembro pela editora Aeroplano, de Heloisa Buarque de Holanda.

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