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A briga contra o cigarro foi a maior que já comprei

A briga contra o cigarro foi a maior que já comprei Por Fernanda Aranda São Paulo, 04 (AE) - O cheiro que lembra a infância não combina com a imagem das brincadeiras no quintal grande da casa em Botucatu, no interior paulista. Mas sempre que qualquer rastro de nicotina passa por suas narinas, vêm à memória os tempos de menina, ao lado do tio mais querido, que não existia sem estar com um Hollywood na mão esquerda.

Agência Estado |

Aí dói. Ela se lembra dele morrendo de câncer, aos poucos, e ensinando o que era saudade para alguém que só tinha 15 anos. Sem saber, Maria Cristina Megid começava ali a se transformar na "xerife da fumaça".

A partir de agora, aos 52 anos de idade, é esta médica quem comandará a fiscalização da lei mais restritiva ao fumo que o Estado de São Paulo já teve. Com 1,53 m de altura, Maria Cristina vai liderar a equipe de 420 fiscais que tentará não dar trégua aos bares, restaurantes e casas noturnas que permitirem o uso do cigarro em ambientes fechados. Ela é quem autorizará multas entre R$ 720 e R$ 3 mil para os locais infratores (a partir de 6 de agosto) e poderá dar suspensão das atividades por até 30 dias ao comércio em caso de reincidência.

A "xerife" possui um exemplo caseiro que a faz ter certeza de que a lei antifumo vai, de fato, pegar. Depois do tio que perdeu para o cigarro, nenhum integrante dos Megid se aventurou no hábito. Ainda mocinha, Maria Cristina tentou comprar cigarrilhas para combinar com a turma. Mas ela "afogou". Tossiu tanto... Sua vida de fumante durou um trago.

Já nessa época de fracasso no fumo, ser médica era ideia fixa, quase teimosia. Ela tinha só 4 anos quando viu uma "heroína" de avental branco salvar a vida do irmão caçula. "Nunca mais pensei em ser outra coisa na vida."

Cristina largou o colégio de freira onde estudou desde menina para se aventurar no imponente Arquidiocesano de Botucatu. Em 1979, aos 23 anos, estava formada na quinta turma de Faculdade de Medicina de Bragança, também no interior paulista.

Escolheu ginecologia e virou a única médica de Bofete, cidade de 8 mil habitantes, onde atendia de tudo: de parto a enfarte. O cigarro, de forma ou outra, já dava trabalho dobrado."Nos pacientes de câncer, nas gestações interrompidas, enfisemas...", pontua.

Veio então o grande susto. O irmão do meio, aos 36 anos, teve obstrução da coronária, problema típico de fumante, sem nunca ter colocado um só tubinho de nicotina na boca. "Eram os males do fumo passivo chamando a minha atenção", diz a médica.

Maria Cristina chegou à capital há seis anos e foi convidada a trabalhar no Centro de Vigilância Sanitária, departamento onde aprendeu a "comprar brigas". "E essa do cigarro, agora, é a maior que já comprei."

Mas para não ficar com fama de brigona, Maria Cristina gosta de citar a pesquisa nacional que mostra a morte diária de sete pessoas em decorrência do fumo passivo. "São essas que precisam ser salvas com a lei." No fim, a "xerife" só quer ser a heroína de avental.

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