A adolescente virou mãe

A adolescente virou mãe Por Ciça Vallerio São Paulo, 05 (AE) - Você está pronta para ser crucificada? Foi uma das perguntas que Maria Mariana ouviu, quando apresentou à editora Agir seu livro Confissões de Mãe, lançado no mercado este ano. Isso porque a maternidade é retratada por ela com deslumbramento descomunal - para a felicidade das mães embevecidas e o desespero das que priorizam outras conquistas femininas.

Agência Estado |

Dito e feito: de lá para cá, a autora, de 36 anos,tem recebido uma enxurrada de críticas no seu blog.

Algumas frases do livro dão uma ideia do grau de encantamento da autora com a experiência da maternidade: "Ser mãe é o que de mais importante podemos fazer aqui na Terra", "A maternidade é uma excelente terapia", "A mulher precisa ser mãe entre os 20 e 30 anos de idade", "É a melhor escola (a maternidade) para uma mulher aprender a ser feliz e a caminhar mais firme."

Esses comentários vêm, justamente, de quem se revelou uma adolescente contestadora nos anos de 1990. Para refrescar a memória, Maria Mariana alcançou a fama aos 19 anos, quando protagonizou a série de TV, dirigida por Daniel Filho, "Confissões de Adolescente", baseada em seu livro homônimo, escrito quando tinha apenas 18, e que alcançou a marca de 200 mil exemplares vendidos. A sua história também foi parar no teatro e a peça ficou dez anos em cartaz.

Nessa época, ainda garota, integrou o elenco de novelas e peças teatrais. Também trabalhou como roteirista colaboradora da série "Malhação", da TV Globo. De repente, saiu de cena para assumir seu grande papel, o de mãe integral de quatro filhos, na cidade de Macaé, a duas horas da capital do Rio de Janeiro. A virada aconteceu um mês depois de conhecer seu atual marido (um cardiologista de 52 anos), durante um curso de meditação.

Segundo ela, não foi fácil realizar o seu grande sonho de ser mãe. "As pessoas olhavam para mim como se eu tivesse ficado maluca", conta a autora, que, aos 20 anos, já colecionava exemplares da revista "Pais & Filhos". "Quando estava na quarta barriga, após uma gravidez atrás da outra, meu pai me chamou para uma conversa séria. Estava preocupado com minha saúde mental, e queria saber se andava deprimida ou perdida, sem rumo."

O pai, diga-se, é o cineasta e dramaturgo Domingos Oliveira, conhecido por suas posições liberais, como, por exemplo, a defesa do casamento aberto. Depois de ter se separado da atriz Lenita Plonczynski, mãe de Maria Mariana, a filha foi morar com ele. Portanto, quando garota, ela vivia cercada de intelectuais e artistas.

Maria Mariana conta que conviveu com um pai presente e aberto ao diálogo - fato retratado em seu primeiro livro. Por isso, ele entendeu perfeitamente a mudança brusca na sua vida, após a conversa franca que teve com a filha, grávida de mais uma neta.

Foi para os seus quatro filhos - Clara, de 9 anos, Laura, de 7, Gabriel, de 5, e Isabel, de 2 -, que ela escreveu "Confissões de Mãe". Em vez de um simples diário de uma mamãe grávida, colocou no papel suas convicções e descobertas com a maternidade. "Venho escrevendo desde que nasceu a minha primeira filha", conta. "O livro passou por várias versões, até eu encontrar a forma em que pude expor minhas opiniões através do coração, já que é uma carta aos meus filhos."

DO LAR
Embora esteja mais tranquila com relação às críticas, confessa que colocaria em uma nova embalagem alguns trechos do livro. Como, por exemplo, a parte em que fala da importância de administrar as divergências do casal para o relacionamento se fortalecer. "Quando você encontrar uma cueca usada de seu marido no chão, ao lado do cesto de roupa suja, agradeça a Deus a oportunidade de aumentar a paciência, evoluir", escreve em "Confissões de Mãe".

"O exemplo das cuecas foi muito infeliz", admite. "Quis fazer uma piada. Não escrevi a sério, mas entenderam tudo errado!" Quem se prendeu a essa frase imaginou que ela estivesse valorizando o papel da "Amélia", ou seja, da mulher submissa. O que não é de todo um engano:
- Quanto à Amélia, me sinto bem com este rótulo quando ele significa zelo com a família, a casa, os filhos, o marido. Não há nada mais importante para mim do que minha família, e estou procurando um jeito de ser cada vez mais Amélia. Mas quando Amélia quer dizer submissão, não me identifico nem um pouco. Dentro de um casamento em que há amor, isso não existe. Graças a Deus, amo muito meu companheiro e nos respeitamos bastante".

Em seu cotidiano caseiro, Maria Mariana arregaça as mangas para dar conta dos rebentos. Acorda, no máximo, às seis horas da manhã, arruma toda a criançada - dividindo as tarefas com o marido, é bom frisar - e, depois de despachar todos para a escola, vai para seu escritório, montado em um dos quartos do andar superior de sua casa, para escrever.

À tarde, quando a turminha retorna, fica à disposição das crianças, ajudando nas tarefas escolares, levando um e outro para a aula de inglês, natação, entre outras atividades. Sua adorável ioga, a qual frequenta desde sua "primeira barriga", é encaixada no pouco tempo livre que sobra. "Procuro mostrar o quanto ganho estando com meus filhos, cuidando e aprendendo com eles", ressalta. "Por isso penso ser tão importante a presença da mãe. Para que, desde cedo, possamos aproveitar a oportunidade de conhecer quem são nossos filhos. Assim, quando eles estiverem na maturidade, poderão nos ouvir. Afinal, teremos uma longa estrada percorrida juntos, e uma amizade sólida para colher."

Para esclarecer melhor seus pontos de vista sobre a maternidade, ela está adaptando "Confissões de Mãe" para o teatro. "Não quis julgar nem criticar mulheres que não tiveram filhos, mas sim cativá-las, para que venham mergulhar nesse mar de amor que eles proporcionam", explica. "Não disse que a maternidade é o ‘único’ caminho para o autoconhecimento, mas o melhor caminho. As críticas movimentaram algo dentro de mim, mas não mudei de opinião."

Paralelamente ao projeto para o teatro, realiza outro sonho, o de escrever um romance. Sua estreia será uma história voltada para leitores juvenis. Durante a entressafra profissional, que durou dez anos, não ficou apenas trocando fraldas. De Macaé, pegava estrada para atuar na série "Menino Maluquinho", exibida pela TVE do Rio, antes de nascer sua quarta filha. Clara, a primogênita, era pequena quando atuou na peça "Todo Mundo tem Problemas Sexuais", escrita por seu pai.

Ainda contratada pela Record, foi co-autora da novela "Mutantes", de Tiago Santiago. Mas é com seu livro que volta de vez à cena. "Nada como o tempo para pôr cada coisa em seu lugar", conclui.

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