Este mês, a homenagem da ROTA aos seus Policiais foi especial. Veja porque

Todo mês, numa cerimônia simples e rápida, o Comando da ROTA homenageia seus melhores Policias. Este mês o evento teve um significado especial: a lembrança do capitão Marcos Henrique da Silva

Não é todo dia que tomo café da manhã num prédio construído em 1891, inspirado na arquitetura militar francesa no estilo “Pós-Napoleônico”, e tombado pelo nosso patrimônio histórico. Este prédio é o Quartel da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), um dos Batalhões de Choque da elite da Polícia Militar paulista.

Foto: PM Divulgação
Vista aérea do Quartel da ROTA, prédio construido em 1891 e inspirado na arquitetura militar francesa


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Uma vez por mês, o Comando da ROTA faz um café da manhã para reconhecer o trabalho dos seus Policiais que se destacaram em ocorrências, seja pela bravura, pelas prisões efetuadas ou pela quantidade de drogas e armamentos que conseguiram tirar das ruas. Semana passada tive o privilégio de ser convidado pelo Major Cássio Araújo de Freitas, do Primeiro Batalhão de Choque e subcomandante da ROTA, para participar deste encontro. 

Entrar no Quartel da ROTA é uma experiência forte e fascinante, que evoca sentimentos como respeito, admiração e orgulho. Não sei exatamente porque, mas sempre pensei que o acesso ao seu interior era proibido para a população. Estava completamente enganado. Qualquer pessoa pode entrar e visitar o Quartel, interagir com os Policiais e conhecer suas dependências.

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O café da manha que homenageia os Policiais do mês é feito no Salão Nobre do Quartel, uma sala sóbria, de pé direito alto, relativamente pequena e decorada com fotos históricas, documentos e brasões. Ao entrar lá, encontrei cerca de vinte Policias não muito confortáveis com o que estava acontecendo. O motivo? O Policial da ROTA não gosta de estar no seu Quartel e também não se importa muito com homenagens. Ele gosta de estar na sua viatura, nas ruas, trabalhando e combatendo a criminalidade e protegendo a sociedade. E a melhor homenagem que podem receber é um aceno amistoso da população. 

Veja as fotos da premiação:


O Major Cássio resume numa frase esse sentimento de sevir, que ouvi de vários Policiais com que conversei: "Um bom dia para um Policial da ROTA, sem nenhuma dúvida, é o dia em que consegue ajudar uma pessoa ou uma família a se livrar de uma situação de perigo. Não há nada que dê mais prazer para qualquer Policial do que ver a felicidade de uma vítima, e de seus familiares, quando consegue controlar e terminar uma situação de violência preservando a integridade dos envolvidos”.  Leia aqui a entrevista completa do Major Cássio Araújo de Freitas.

Entre os Policiais homenageados estava a equipe do Primeiro Tenente PM Rafael, composta pelo Cabo PM Gouvea,  Cabo PM André e Cabo PM Carlos. Eles participaram de uma ocorrência digna de filmes de investigação. Durante um patrulhamento de rotina em São Vicente, cidade do litoral paulista, o Tenente e seus Policiais suspeitaram de duas pessoas e as abordaram. Encontraram pedras de crack e tubos de cocaína prontos para serem vendidos. Os traficantes levaram os policiais para o local de estoque das drogas e lá foram apreendidos mais 10 tijolos de maconha, centenas de porções de maconha, já embaladas para venda, e munição de armas de calibre restrito. Deste local, a equipe da ROTA seguiu para a casa de um dos traficantes, onde localizaram um elaborado mecanismo para esconder drogas, dinheiro e armas.

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Numa das paredes da sala da casa, os Policias notaram que uma das tomadas de eletricidade possuía algumas marcas de mãos. Ao investigarem com mais atenção, puxaram a tomada para fora e descobriram um acesso com fundo falso para o esconderijo onde o material ilegal era mantido. Detalhe: a tomada funcionava normalmente, com eletricidade viva.

Veja as fotos desta operação:


Veja o video do esconderijo:

Quando pensei que o evento de premiação dos Policiais do mês havia terminado, o Major Cássio pediu a atenção de todos e trouxe um quadro, mas não com uma pintura, e sim com uma farda, emoldurada atrás de um vidro. Na gola da camisa cinza havia o símbolo da patente de Capitão e sobre o bolso direito o nome “Henrique”. A ROTA estava homenageando um dos seus que havia tombado.

Há um ano o Capitão da ROTA, Marcos Henrique da Silva, fazia um churrasco na sua casa para amigos e familiares quando quatro criminosos entraram na sua residência. O que era para ser um “simples assalto de rotina” se transformou num assassinato a sangue frio, quando os ladrões encontraram a farda do Capitão no armário do seu quarto. Ao invés de irem embora com o produto do roubo, os criminosos não hesitaram: efetuaram 14 disparos contra o Policial. Mas, como um típico Policial da ROTA, Marcos não permitiu que a decisão sobre o momento de sua morte ficasse nas mãos dos terroristas urbanos e tampouco lhes deu a satisfação de vê-lo morto. Ele consegui sobreviver por mais 20 dias no hospital. O Capitão deixou uma viúva e dois filhos.

Foto: PM Divulgação
Capitão PM Marcos Henrique da Silva - Durante assalto à sua residência, terroristas urbanos o alvejaram com 14 disparos ao descobrir que ele era um Policial Militar
Foto: PM Divulgação
Homenagem do Comando da ROTA - O quadro contendo a camisa da farda do Capitão PM Marcos Henrique da Silva passa a fazer parte do acervo de exposição e memória da Corporação

Olhando para os cerca de 20 Policias da ROTA que estavam no Salão Nobre do Primeiro Batalhão de Choque, vários com alianças na mão esquerda, me senti humilde ao perceber que esses homens literalmente colocam suas vidas em risco 24 horas por dia, 7 dias por semana, para defender as nossas vidas. Para alguns, essa frase pode parecer um lugar comum, mas isso muda rapidamente quando se conhece pessoalmente estes profissionais, e quando você enxerga com seus olhos uma camisa cinza, idêntica a que todos os Polciais da ROTA usam, enquadrada atrás de um vidro, por um único motivo: seu dono foi executado por ser um Policial.

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