Sabesp atrasa entrega de caixas-d'água à população pobre na Grande SP

Por Nicolas Iory - iG São Paulo |

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Meta de distribuir 25 mil reservatórios é revisada pela segunda vez; sem dinheiro, beneficiário do programa segue sem água

A Sabesp desistiu de correr contra o tempo para cumprir com a meta de distribuir 25 mil caixas-d'água a famílias de baixa renda na Grande São Paulo até o fim do ano. A companhia paulista de saneamento atrasou as entregas e agora, faltando ainda a distribuição de 10 mil reservatórios, decidiu adiar a conclusão do programa para março do ano que vem.

Essa é a segunda vez que o governo paulista revisa o prazo da ação. A promessa inicial era de concluir as entregas até junho deste ano.

A companhia justifica o atraso alegando "complexidade das regiões" onde a distribuição é realizada e a falta de "disponibilidade do cliente para o recebimento do equipamento".

Morador de comunidade na zona sul de SP não teve dinheiro para instalar caixa-d'água
Nicolas Iory/iG São Paulo - 24.9.15
Morador de comunidade na zona sul de SP não teve dinheiro para instalar caixa-d'água

O programa "Se economizar, não vai faltar" beneficia famílias que recebem até três salários mínimos por mês. A campanha teve início em janeiro diante da necessidade da Sabesp em promover a chamada redução de pressão, manobra que diminui o volume de água nas torneiras e interrompe o abastecimento em várias regiões da capital paulista.

A iniciativa prevê apenas a entrega das caixas-d'água, cabendo ao recebedor a tarefa de instalar o reservatório. Mas, por ser um programa que atende apenas famílias de baixa renda, às vezes a falta de dinheiro acaba inviabilizando essa instalação.

Esse é o caso de Antonio Tavares, de 49 anos, morador do Jardim Régis, comunidade na zona sul da capital paulista. Ele recebeu a caixa-d'água em março, mas não conseguiu aproveitá-la até agora, já que a casa em que vive com a mulher e os dois filhos não tem estrutura para comportar o reservatório (que tem capacidade para 500 litros).

Tavares estima que precisaria gastar cerca de R$ 1 mil para fazer uma pequena reforma na casa. Ele está afastado do trabalho desde o começo do ano, quando passou por uma cirurgia, e está há mais de dois meses sem receber o benefício do auxílio-doença devido à greve dos servidores do INSS.

Enquanto não sobra dinheiro, a caixa-d'água dada pela Sabesp continua seca, pendurada no corredor da casa.

"Ela estava atrapalhando a passagem, então amarramos com uma corda. Aqui falta água todo dia, desde o começo do ano, sempre das 21h às 6h. A gente enche dois baldes na torneira e minha mulher e meu filho usam para tomar banho antes de sair de casa", conta Tavares.

Dono de bar no jardim Régis apoiou reservatório no telhado do estabelecimento
Nicolas Iory/iG São Paulo - 24.9.15
Dono de bar no jardim Régis apoiou reservatório no telhado do estabelecimento

No ato de entrega dos reservatórios, a Sabesp alertou os beneficiários do programa que iria verificar após 30 dias se a instalação realmente foi feita. Existia a possibilidade de as caixas-d'água que não estivessem sendo utilizadas adequadamente serem recolhidas. 
À reportagem do iG, a Sabesp informou que nenhum reservatório foi tomado até o momento, já que essa não é a intenção do programa.

Enquanto ao menos 10 mil famílias ainda aguardam por uma alternativa para se proteger dos cortes no abastecimento, aqueles que já receberam e tiveram condições de instalar o reservatório comemoram.

Edemilto Mulato, de 55 anos, colocou a caixa-d'água em cima do bar que ele mantém no Jardim Régis. "Aqui [no bar] eu apoiei a caixa sobre as duas vigas que sustentam o telhado. Já na minha casa eu precisei fazer uma laje e gastei R$ 700. Levou um pouco mais de um mês para eu juntar o dinheiro, mas o bom de agora é que não falta água", conta.

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