Prefeito de cidade líder em incidência de dengue compara doença à aids

Por David Shalom - iG São Paulo |

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Com 4.064 casos do vírus confirmados em 5 meses, Cândido Mota (SP) teve 13% de sua população contaminada só em 2015

Em uma cidade onde mais de 13% da população já foi infectada pela dengue somente neste ano, é difícil encontrar alguém que não conheça um caso da doença. No entanto, para o prefeito de Cândido Mota, município com maior incidência do vírus do Estado de São Paulo em 2015, segundo a Secretaria de Estado da Saúde, o assunto deve ser tratado da forma mais discreta possível, pois "leva a pessoa contaminada a ser alvo de preconceito por parte de familiares, vizinhos e amigos".

O prefeito de Cândido Mota, Zacharias Jabur: para ele, dengue é tão estigmatizada quanto a aids
Divulgação
O prefeito de Cândido Mota, Zacharias Jabur: para ele, dengue é tão estigmatizada quanto a aids

Apesar de médico, Zacharias Jabur (PMDB) tem ideias bastante controversas em relação à doença, mesmo em meio ao pior surto da história do vírus no Estado, responsável por tornar públicos até casos de personalidades da mídia e dos esportes – e que levou sua cidade a confirmar 4.064 contaminados entre 1º de janeiro e 9 de maio. Para ele, não se deve falar sobre o assunto, a não ser quando necessário, com profissionais de saúde.

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"É como se fosse um caso de aids. Você acaba taxando negativamente a pessoa por causa da doença. Eu nunca tive dengue, nem ninguém da minha família. Mas, caso tivesse, com certeza não falaria abertamente a respeito. E acho que ninguém deveria falar", diz em entrevista ao iG Jabur. "As pessoas têm de ficar quietas. Quanto menos abrirem a boca melhor. O que deve ser feito é trabalhar, limpar quintais, fazer nebulização e incentivar a conscientização."

A opinião de Jabur é oposta à defendida por órgãos públicos de saúde, para quem a informação é a melhor forma de prevenção da doença.

Não existe uma área específica do município onde os casos tenham aparecido. Diferente da capital paulista, onde a maioria dos diagnósticos foram feitos em bairros periféricos, em Cândido Mota a epidemia não escolheu endereço. Somente na prefeitura, mais de duas dezenas de pessoas tiraram licença de seus trabalhos devido à contaminação por dengue, segundo o próprio Jabur.

Agente da prefeitura de Cândido Mota faz nebulização em casa na cidade com 3,1 mil casos
Divulgação
Agente da prefeitura de Cândido Mota faz nebulização em casa na cidade com 3,1 mil casos

Entretanto, assim como prefeitos de outras regiões paulistas, ele não vê qualquer culpa de sua gestão em relação ao surto da doença. E justifica a situação enfrentada por seu município apenas como consequência do período de chuvas ocorrido desde o início do ano, garantindo que tudo a seu alcance foi feito para evitar casos da doença.

"Desde o início começamos a fazer a nebulização, falta apenas 15% das casas para passarem pelo processo", afirma Jabur, ignorando o fato de a dengue já ter passado por seu pior momento neste ano, de acordo com os dados oficiais. "A cidade é muito pequena, todo mundo convive junto. Então acabou ficando fácil de o vírus se espalhar."

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Mesmo liderando a lista de maior incidência da doença, Cândido Mota, por sua baixa população, não é nem de longe a recordista em número de casos. Com 11 milhões de habitantes, a capital paulista lidera o ranking, com quase 57.794 casos registrados até 9 de maio.


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