Disputa entre taxistas e motoristas Uber tem ameaças e clima de guerra

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

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São Paulo vive clima de ódio nas ruas. "Se for preciso 'tacar' fogo no carro desses fdp, vamos colocar", ameaça taxista

O fim processo judicial contra o aplicativo Uber, que oferece transporte em carro executivo, reacendeu a rivalidade entre taxistas e motoristas particulares nas ruas de São Paulo. Nos bastidores, os dois lados trocam ameaças com mensagens de áudio e vídeo viralizados via WhatsApp e Facebook. À margem da fiscalização do poder público, a atuação dos motoristas segue em clima de medo, inclusive à luz do dia.  

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“Nós temos que brigar de frente a frente. Se for preciso ‘tacar’ fogo no carro desses filhos da p..., vamos colocar fogo”, diz uma das mensagens de áudio que alcançou milhares de taxistas nas últimas semanas. A convocação era de um colega de profissão desconhecido, mas representava o desejo de muitos profissionais da categoria de táxi comum.

Escute o áudio de ameaça contra motoristas Uber de São Paulo:

Após conversar com diversos profissionais em São Paulo, a reportagem encontrou R., de 40 anos, que assumiu a autoria da mensagem de ódio. “Gravei porque estava irritado e queria estimular a luta contra esse transporte ilegal e clandestino”, justifica. Ele conta que agora já faz parte da rotina de trabalho discutir e agredir verbalmente motoristas da Uber. “Existe uma rivalidade sim. E vou lutar para ver o fim desse serviço.”

Uber substitui táxi por carros particulares. Grátis para iPhone e Android
Reprodução
Uber substitui táxi por carros particulares. Grátis para iPhone e Android

O Uber é um aplicativo de transporte pago presente em 45 países, incluindo o Brasil, nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O usuário chama um carro particular que atua como um serviço de táxi. O pagamento é feito por meio do aplicativo com cartão de crédito. Ele causa desconforto entre taxistas porque o motorista não possui alvará, documentação que pode custar dezenas de milhares de reais, e não enfrenta rigorosa fiscalização para andar pelas ruas do País.

Após manifestações de taxistas no Rio de Janeiro contra o aplicativo, um vídeo com um homem armado fazendo ameaças incendiou a discussão. "Vou mandar um recadinho para vocês taxistas. Vento que venta lá, venta cá também. Vocês querem tomar posto [de táxi] como se fosse boca de fumo”, fala o homem, dizendo ser motorista de transporte executivo enquanto exibe uma arma. O caso é investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Assista ao vídeo com homem armado ameaçando taxistas do Rio:

Procurada, a Uber confirmou que o homem do vídeo é um ex-colaborador da empresa, desligado há alguns meses após “críticas negativas de passageiros”. Questionada sobre o atrito em São Paulo, a empresa disse em nota que repudia qualquer tipo de violência. “Motoristas parceiros da Uber são orientados a reportar às autoridades competentes qualquer ato ou ameaça de agressão”. E garante que, após checagem de antecedentes criminais, motoristas com histórico de violência são “automaticamente desconectados”.

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O embate entre motoristas privados e taxistas não é novidade e se estende a outros países. Nos últimos meses, as atividades do aplicativo foram questionadas por autoridades e companhias de táxis – que citam a Uber como concorrência ilegal e transporte clandestino. No Canadá, após casos de violência física entre os lados, a Uber pediu autorização para realizar serviços de táxi. Já na Índia, o serviço foi proibido.  

No Brasil, um dos episódios mais emblemáticos da rivalidade foi o fechamento do acesso ao tradicional baile de carnaval da revista Vogue, no dia 5 de fevereiro, na zona oeste de São Paulo. Testemunhas declararam que o evento realizou uma parceria com o aplicativo para levar os convidados para a casa. A presença massiva de carros de luxo irritou taxistas, que impediram a passagem dos concorrentes. “Isso não vai ficar barato”, ameaça o experiente taxista P. de 65 anos, que estava presente no dia do confronto.

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Clima de medo

A troca de mensagens odiosas e bate-boca no trânsito criou um clima de medo entre os profissionais do aplicativo, que adotaram estratégias para escapar de possíveis confrontos e driblar a fiscalização – que já apreendeu carros nos aeroportos de Cumbica e Congonhas, ambos em São Paulo. Todos os motoristas Uber ouvidos pelo iG confessam que finalizam antes a corrida aos terminais e escondem o celular com o aplicativo aberto. 

Motorista Uber divide faixa com táxi de luxo em SP. 'Eles estão com 70% do mercado', diz taxista
Carolina Garcia / iG São Paulo
Motorista Uber divide faixa com táxi de luxo em SP. 'Eles estão com 70% do mercado', diz taxista

“Deixei de trabalhar à noite pelo medo e durante o dia não dou bobeira quando pego ou deixo passageiro. Nos aeroportos, sou apenas um amigo dando corona ou motorista particular”, conta a M., de 32 anos, que adotou o Uber como nova profissão há seis meses. Poliglota, ele trabalha de terno e gravata e mantém médicos, executivos e estrangeiros entre os principais clientes.

Já C., de 68 anos, trabalha há dois meses como motorista e diz que não tem experiência na área. “Mas estou amando e hoje ganho R$ 400 por dia. Fui vendedor a vida inteira e hoje descobri um novo trabalho. Já fui xingado na rua, mas acho que eles [taxistas] vão perceber que não somos rivais. Eles querem é trabalhar como eu, sem burocracia e custos mensais”, justifica o aposentado, citando os gastos que o taxista comum mantém com pagamento de frotas, aluguel de veículos e documentação.

Após a primeira derrota judicial, o Simtetaxi-SP afirmou que está em contato com o Ministério Público. O órgão confirma o clima bélico nas ruas e garante que o medo entre os parceiros do aplicativo surge pela "irregularidade da plataforma". "Perceberam que entraram numa roubada, muitos compraram carro, fizeram dívidas e vão ter que parar. É transporte clandestino", disse Carlos Laia, responsável pela comunicação do grupo. 

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