Dezenas ficam feridos e 6 mil desabrigados em Xanxerê; queda de 5 torres de energia elétrica deixou 200 mil imóveis sem luz

Um evento raro em território brasileiro deixou um rastro de horror em uma pacata cidade no oeste catarinense, na tarde de segunda-feira (20). Um tornado com ventos de até 200 km/h atingiu Xanxerê, cidade de 48 mil habitantes, deixando ao duas pessoas mortas, dezenas de feridas e centenas de casas completamente destruídas.

Casas e postes ao chão: fenômento foi apenas o terceiro registro do tipo na história do Brasil
Flávio Carvalho/TudosobreXanxerê/Fotos Públicas - 20.4.15
Casas e postes ao chão: fenômento foi apenas o terceiro registro do tipo na história do Brasil

Autoridades afirmam que 75 pessoas deram entradas em hospitais após o fenômeno, entre elas três crianças em estado grave. Cerca de três mil imóveis foram atingidos, segundo a Polícia Militar. No total, seis mil pessoas ficaram desabrigadas.

O ginásio municipal veio literalmente abaixo, ficando totalmente destruído, e creches e escolas acabaram danificadas. Com a queda de cinco torres de energia elétrica, 200 mil imóveis na região, inclusive nas cidades vizinhas de Chapecó e Xaxim, ficaram sem luz.

O morador Alcimar Sutil, de 32 anos, morreu protegendo os dois filhos quando a casa em que estavam desabou. "Ele foi tentar socorrer e deitou em cima das crianças. A casa caiu bem em cima dele, e o menino parece que está em estado grave. Teve traumatismo crânio-encefálico", disse o prefeito de Xanxerê, Ademir José Gasparini (PSD), em entrevista ao iG.

Deonir Coni, de 32 anos, que trabalhava na construção de um supermercado parcialmente destruída pelo tornado, morreu quando parte das estruturas metálicas desabaram. De acordo com o prefeito, entre os feridos, três operários, que trabalhavam na construção civil foram atingidos por objetos com cobertura de zinco, sofreram amputações.

"Um ginásio inteiro desabou. Temos muitos feridos, com gravidades diferenciadas, que já estão sendo encaminhados a outros hospitais da região por falta de leitos em Xanxerê", afirmou à reportagem Paulo César Santos, da Defesa Civil do Estado, na noite de segunda-feira (20), horas depois da tragédia.

A Defesa Civil montou um posto de recebimento de donativos no Centro de Exposições da Feira Estadual do Milho (Femi), na Rua José de Miranda Ramos, número 455. 

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"Pegou todo mundo de surpresa"
A partir das imagens da destruição, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) estima que o tornado teve intensidade F2, com ventos entre 180 km/h a 249 km/h, que causam fortes estragos, ou F3, com vendavais de 250 km/h a 332 km/h, responsáveis por danos severos. Segundo o prefeito, a velocidade dos ventos chegou a 200 km/h.

"Pelo que me foi mostrado, com carro tombado e torre de energia elétrica torcida, foi um tornado que classifico como F2 a F3", analisa Mamedes Luiz Melo, meteorologista do Inmet em Brasília. O coordenador da Defesa Civil de Santa Catarina conta que o céu estava claro quando a tempestade começou, algo comum antes de tornados.

"Meio que pegou todo mundo de surpresa, devastando tudo por onde passou", conta Paulo César Santos. "Esta parte do oeste do Estado é bem propícia a vendavais. Temos histórico de casos semelhantes."

Moradores registram o tornado; assista

Tempestade durou poucos minutos
Segundo Rogério Rezende, meteorologista do Inmet em Porto Alegre, as imagens sugerem que o tornado atingiu uma área restrita e durou aproximadamente de 2 a 3 minutos.  "É um evento muito isolado, de quase impossível previsão", afirma ele. "São fenômenos raros [no Brasil]."

Os tornados são como um funil de ventos que desce em forma de espiral de uma nuvem de grandes proporções, chamada de cumulonimbu, e atinge o solo. Geralmente, segundo Rezende, deslocam-se por cerca de 10 a 300 metros antes de se dissiparem.

Em 2009, a cidade de Guaraciaba, a cerca de 170 km de Xanxerê, foi vítima de um evento semelhante. Na ocasião, acabou se confirmando que o fenômeno, com ventos entre 120 km/h e 180 km/h, tratou-se de um tornado, um dos primeiros registrados em território brasileiro. Quatro pessoas morreram.

Em outubro passado ocorreu um tornado em Brasília, fenômeno raro no País, mas também já registrado em outras regiões, como no interior paulista ao menos três vezes – a mais recente, em janeiro, na cidade de Votorantim – e duas no interior de Mato Grosso do Sul. 

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"Precisamos de ajuda urgente"
"Casas, empresas, escolas, veículos e o que mais estava na frente foi destruído! As cenas são de desespero. Estamos sem luz e praticamente sem comunicação – e provavelmente ainda ficaremos neste estado de calamidade por mais alguns dias", lamentou o empresário Leandro Lorenzon, morador de Xanxerê, logo após a tragédia.

Devido à falta de comunicação por telefonia, ele, assim como tantos outros da cidade, encontrou nas redes sociais uma forma de pedir ajuda para a população de Xanxerê. "Água, comida, colchões, telhas. O que puderem doar já será de grande ajuda", pediu o empresário.

"Tenho  25 anos de polícia e 45 de idade. Nunca vi algo assim e nunca mais quero ver", desabafou um policial militar do município. Integrantes da corporação que estavam de folga na cidade, além de agentes de municípios vizinhos a Xanxerê, foram convocados para ajudar nos resgates e nas remoções dos escombros. 

Por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) do governo federal, o Ministério da Integração mobilizou uma tropa de cem homens do Exército para ajudar os policiais e bombeiros catarinenses. O chefe da pasta, Gilberto Occhi, confirmou viagem a Xanxerê para ver os estragos. 

No início da tarde desta terça-feira (21), o ministro do Trabalho e Emprego, o catarinense Manoel Dias, anunciou que o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) será liberado a todas as famílias prejudicadas pelo tornado. "Vamos tomar todas as providências para que os recursos cheguem até as pessoas que tiveram suas casas destruídas”, prometeu.

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