Dois anos após tragédia na Kiss, 49% da população não sabe como agir em incêndio

Por David Shalom - iG São Paulo | - Atualizada às

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Pesquisa com 1.011 brasileiros mostra ainda que 92% dos entrevistados passaram a se sentir mais inseguros em casas noturnas depois do incêndio que matou 242 pessoas em 2012

Dois anos após a tragédia que deixou 242 mortos em uma casa noturna da cidade de Santa Maria, interior gaúcho, uma pesquisa mostra que quase metade dos brasileiros não saberia como agir diante de situação semelhante.

Fachada da Boate Kiss, onde acúmulo de erros resultou na tragédia que abalou toda uma cidade
Reprodução/Google Maps
Fachada da Boate Kiss, onde acúmulo de erros resultou na tragédia que abalou toda uma cidade

Divulgado nesta terça-feira (27), dia em que se completam dois anos do incêndio na Boate Kiss, o levantamento tem o objetivo de avaliar a percepção dos brasileiros em relação à segurança contra incêndios. Conduzida pela KCR Research, sob encomenda da empresa norte-americana Honeywell (multinacional que produz produtos e oferece serviços ligados a diversas áreas, inclusive segurança contra incêndios), a pesquisa ouviu 1.011 brasileiros, entre os dias 12 e 17 de dezembro, com idades entre 18 a 64 anos.

Os números mostram que, apesar de toda a repercussão da tragédia na casa noturna gaúcha, 49% dos entrevistados não saberiam como se comportar se estivessem em um incêndio. Número que casa com a quase totalidade dos pesquisados – 92% – que se sentem mais inseguros em casas noturnas desde o incidente em Santa Maria. 

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"Quando quase metade das pessoas afirma que não saberia encontrar uma saída de emergência em uma ocorrência percebemos o quão perigosa é essa questão no País", analisa César Miranda, gerente geral do Negócio Fire Safety América do Sul da Honeywell e diretor do Grupo Setorial de Sistemas de Detecção e Alarme de Incêndio da Abinee (Associação Brasileira da Industria Eletro Eletrônica). Ele cita uma notória mudança de comportamento, citada por 81% dos entrevistados, devido ao temor de se verem envolvidos em uma tragédia semelhante.

"Infelizmente, pela falta de confiança no poder público, na fiscalização e nos próprios proprietários dos lugares que frequentam, as pessoas parecem ter a tendência de se sentirem incomodadas quando vão a um lugar público. E acabam ficando em casa."

Veja fotos da tragédia que deixou 242 mortos dois anos atrás:

Familiares e amigos de vítimas da boate Kiss participam de vigília ue marca um ano da tragédia (27/01/2014). Foto: Luca Erbes/Futura PressGrupo reclama da falta de punição aos responsáveis pela tragédia. Foto: Luca Erbes/Futura PressSobreviventes da Kiss ainda tossem e expelem fuligem um ano após o incêndio . Foto:  Luca Erbes/Futura PressVigília em homenagem aos 242 mortos no incêndio. Foto: Luca Erbes/Futura PressUm ano depois da tragédia, Santa Maria se prepara para homenagear os 242 mortos do incêndio da boate Kiss. Foto: DivulgaçãoAlém do mortos, centenas de pessoas se feriram no incêndio ocorrido no dia 27 de janeiro de 2013. Foto: DivulgaçãoFachada da boate Kiss foi limpa nesta semana para as homenagens de um ano do incêndio em Santa Maria. Foto: DivulgaçãoFlores murchas foram retiradas e cartazes foram limpos por membros de algumas associações de familiares de vítimas da tragédia. Foto: DivulgaçãoFlores e cartazes com mensagens de familiares e amigos foram deixados na frente da boate Kiss após o incêndio. Foto: Vinícius Costa/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressVítima é socorrida durante incêndio na boate em Santa Maria. Foto: Deivid Dutra/A RazãoVista da Boate Kiss após o incêndio controlado que tomou conta do local na madrugada deste domingo matando mais de 200 pessoas em Santa Maria (RS). Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag. O DiaPoliciais civis realizam nova perícia na boate Kiss, centro de Santa Maria, no RS. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPertences das vítimas ainda podem ser encontrados na entrada da casa noturna Kiss, em Santa Maria. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPoliciais realizam nova perícia na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, nesta terça-feira. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressAutoridade lê a lista de nomes com os sobreviventes do incêndio que passam por atendimento no centro esportivo próximo à boate Kiss. Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag/O DiaEstado em que ficou o bar da boate Kiss após o incêndio que matou mais de 200 pessoas na madrugada deste domingo em Santa Maria (RS). Foto: Deivid Dutra/Jornal A Razão/Ag. O DiaFoto do resgaste de sobrevivente do incêndio que matou mais de 200 pessoas na boate Kiss, que sofreu um incêndio na madrugada deste domingo. Foto: Ricardo Giusti/O DiaDj Bolinha postou esta foto no Facebook antes do acidente. De acordo com testemunhas, os fogos de artifícios usados pela banda Gurizada Fandangueira provocaram o incêndio. Foto: Reprodução/FacebookdjbolinhasmFamiliares de vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: AP Photo/Ronald Mendes-Agencia RBSBombeiros fazem o socorro na boate enquanto populares chegam para acompanhar o resgate. Foto: Deivid Dutra/A RazãoO fogo começou às 2h da manhã, quando faíscas de um show pirotécnico atingiu a espuma do teto. Foto: Deivid Dutra/A RazãoFachada da boate Kiss pouco após o incêndio que matou pelo menos 200 pessoas neste domingo. Foto: Associated Press/RBSJovem desacordado é socorrido após incêndio em boate em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: Associated Press/RBSFamiliares aguardam liberação para identificação dos corpos e informações em frente ao Centro Desportivo Municipal em Santa Maria (RS), na manhã deste domingo (27). Foto: Rafael Happke/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressBoate pegou fogo a partir das 2h, dizem bombeiros. Nº de mortos não é oficial e pode aumentar. Foto: Divulgação/Um SantamariensePM deposita flores em homenagem aos mais de 230 mortos na calçada da boate Kiss, no centro. Foto: ReutersEnterro da estudante Mariana Callegari, morta no incêndio da boate Kiss. Foto: ReutersFoto da Fuel mostra que festa universitária, realizada em setembro, teve atrações com fogo (canto esq.). Foto: Reprodução/FacebookCentenas de pessoas participaram de uma vigília em frente à boate Kiss, em Santa Maria, após missa de sétimo dia na Catedral Medianeira. Foto: Futura PressFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29). Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral. Na foto, a mãe Elaine Gonçalves. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do sepultamento do estudante Silvio Beuren, em Santa Maria. Foto: ReutersMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilGarota se emociona durante caminhada em homenagem às vítimas (28/01). Foto: APMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilPessoas carregam cartazes em caminhada de protesto (28/01). Foto: APJovens participam de caminhada nos arredores da boate Kiss (28/01). Foto: APAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressSepultamento da vítima Alexandre Machado em cemitério na cidade de Santa Maria. Foto: ReutersAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressHomem chora durante enterro de Vinicius Rosado, que morreu em incêndio em casa noturna em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: APEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinicius Costa/FuturapressEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinícius Costa/Futura PressEnterro das vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), no Cemitério Municipal. Foto: Vinícius Costa/Futura PresEnterro do soldado Leonardo Machado em cemitério na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Foto: APGladimir Callegaro (2º à D), pai da vítima Marina Callegaro, e outros parentes choram durante seu enterro em cemitério na cidade de Santa Maria (28/1). Foto: APParentes e amigos são vistos perto de caixão durante enterro de Tanise Cielo, vítima de incêndio em Santa Maria (28/1). Foto: APFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinicius Costa/FuturapressFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado na quadra do Centro Desportivo Municipal na noite de domingo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressParentes e amigos participam de velório de vítima de incêndio na Boate Kiss em Santa Maria, Rio Grande do Sul (27/01). Foto: APAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado em um ginásio do Centro Desportivo Municipal, ao lado do pavilhão para onde os corpos retirados da casa noturna foram levados. Foto: Futura PressVítimas do incêndio são veladas no ginásio de Santa Maria. Foto: Futura PressA presidenta Dilma Rousseff durante visita às famílias das vítimas da tragédia ocorrida em boate em Santa Maria. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR Presidenta Dilma Rousseff se emociona em pronunciamento sobre incêndio em boate em Santa Maria. Foto: AP

A pesquisa mostra que a desconfiança é realmente generalizada em todos os pontos relacionados ao tema. Para 72% dos entrevistados, por exemplo, a segurança contra incêndios é insuficiente em lugares públicos. Mais: 92% acham que o governo é o responsável pela segurança contra incêndios – por meio de fiscalização mais rígida – e 70% querem mais ações para reduzir riscos. 

Um curioso dado mostra como uma simples mudança poderia mudar alguns temores: 67% dos entrevistados disseram não ter participado de nenhum treinamento contra incêndios nas empresas onde trabalham nos últimos cinco anos. Prática que poderia mudar a insegurança demonstrada por eles. 

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"É importante que as empresas, as escolas e afins tenham um treinamento pelo menos a cada ano, uma simulação que leve as pessoas a entender como agir caso seja necessário", diz o norte-americano Benjamin Driggs, presidente da Honeywell no Brasil. "E também em edifícios residenciais. É preciso saber onde ficam situadas as sinalizações de emergência, ter a consciência de que a fumaça pode intoxicar. É um preparo a mais para o futuro e com certeza deve ser feito em todos os lugares", completa César Miranda.

Para o diretor da Abinee, existem três pilares para situações como a de Santa Maria: uma legislação atualizada – um projeto de lei sobre segurança aguarda aprovação do Congresso desde abril do ano passado –, normas técnicas rígidas de fiscalização para a prevenção e combate contra incêndios e educação/treinamento da sociedade para estar preparada quando necessário. 

"A tragédia da Kiss só aconteceu por um conjunto de falhas: falta de fiscalização adequada; vistoria realizada sem avaliar detalhes, como materiais dispostos no local, rotas de fuga, saídas de emergência... Um dos maiores problemas daquele incêndio foi que havia só uma porta para sair", ressalta Miranda. "É preciso ter mais alternativas. Se o fogo tivesse começado perto da entrada, todo mundo sem exceção morreria lá dentro."

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