Major Victor Fedrizzi disse que rojão lançado pelos manifestantes do MPL poderiam ter provocado ferimentos graves; ato tem saldo de pelo menos oito detidos e dois feridos

Bombas e fogos de artifício próximo à sede da prefeitura de São Paulo
Anderson Passos/iG São Paulo
Bombas e fogos de artifício próximo à sede da prefeitura de São Paulo

Provocações em forma de cânticos por parte dos manifestantes e a reação truculenta da Polícia Militar do Estado de São Paulo marcaram o protesto contra a alta da tarifa do transporte público no final da tarde desta sexta-feira (16) em São Paulo.

Para o Major Victor Fedrizzi, que coordenou as ações de um efetivo estimado entre 800 e 900 PMs, a reação dos policiais não foi desproporcional.

"Não, não foi [desproporcional] limitou-se a dizer. "Na frente da prefeitura, quando estavam sendo feitas projeções na parede, um grupo de manifestantes soltou rojões em direção à tropa e a tropa teve que agir para fazer a dispersão", justificou. Mais tarde, explicou que "o rojão, acertando, por exemplo, o rosto de uma pessoa, pode vir a matar".

Às 17h, hora da concentração agendada pelo Movimento Passe Livre, as tensões entre policiais e manifestantes já eram evidentes já que as autoridades passaram a revistar mochilas a procura de pedras, máscaras e vinagre, produto usado para conter os efeitos das bombas e de gás de pimenta - usuais pela corporação em conflitos de rua. A ordem para apreender os portadores de vinagre teria partido do Palácio dos Bandeirantes - sede do governo paulista.

Dizendo-se formado em Direito, o tenente Cesário, da PM, afirmava que a revista não era ilegal, em contraposição à tese de advogados presentes ao ato, que rechaçavam a interpretação. Cesário e Fedrizzi estavam acompanhados o tempo todo por dois representantes do MPL.

Outro ponto de divergência era o trajeto: inicialmente, os jovens queriam ganhar a Avenida Paulista em direção à Brigadeiro Luiz Antônio para, finalmente, chegar à sede da prefeitura, a PM não cedeu. O canteiro central, em obras para receber uma ciclovia, era um prato cheio para os vândalos devido à grande presença de pedras e entulho.




Black blocs

Às 18h30, quando a marcha com 3 mil manifestantes começou a descer a Rua da Consolação, as provocações eram evidentes com cânticos que defendiam o fim da Polícia Militar. A reportagem do iG flagrou dois jovens xingando os policiais. Eles ajudavam a formar um cordão de black blocs em frente à marcha. Nesse grupo, chamava a atenção a presença de meninas de não mais do que 15 anos de idade. Alguns portavam máscaras.

A todo o momento, os militares trocavam de lugar para levar informações pessoalmente a seus superiores. A comunicação por rádio inexistia. O celular também foi uma "arma" importante da PM. A todo o momento, o Major Fedrizzi podia ser flagrado ao aparelho, sempre falando baixo e discretamente. Os jovens do MPL que o acompanhavam também trocavam mensagens de texto com os colegas de marcha.

A estratégia do envelopamento - isolamento da manifestação em apenas uma pista da Consolação - ruiu quando, vindo pela rua Augusta - paralela à à via principal adotada como rota - black blocs aproveitaram um descuido e, portando máscaras e bandeiras vermelhas e pretas, ingressaram na marcha em grande número. O conflito viria, parecia evidente.

Mais adiante, duas pausas na marcha para prisões. Na Xavier de Toledo, já próximo da prefeitura, uma agência bancária foi depredada. Houve prisões.

Explosão

O Major Fedrizzi, que não era mais visto na manifestação, reapareceu quando a marcha se aproximou da prefeitura, no Viaduto do Chá. Eram 20h30 quando os manifestantes projetaram a letra de uma música na parede da prefeitura, entoada em coro. O estopim para a crise foi uma garrafa lançada em direção à polícia. Depois dela, fogos de artifício deram a senha para a PM, que lançou pelo menos uma dezena de bombas, dispersando a multidão. Grupos se dispersaram pelo quarteirão via Libero Badaró, Terminal Bandeira e de volta ao Viaduto do Chá, próximo ao Teatro Municipal.

Carregada por dois jovens carregando uma mulher desmaiada atravessaram a frente da prefeitura rumo à Praça do Patriarca em busca de atendimento médico. O local estava isolado pela PM. A reportagem do iG e esses jovens não conseguiram passar a barreira policial em socorro à vítima. Pela tentativa de ato heroico, todos receberam doses cavalares de gás de pimenta no rosto.

Aguardado pela imprensa para se manifestar sobre a repressão ao ato, o coronel Silvio Luiz fez cara de poucos amigos quando estava ao fone e foi provocado por um repórter sobre se concederia um não uma entrevista. "Eu já não disse que vou falar com você?", questionou dizendo que antes dele o Major Fedrizzi falaria aos jornalistas. O coronel, que permaneceu incógnito durante todo o ato provavelmente numa viatura, não concedeu entrevista, mas advertiu seu subordinado: "Veja lá o que vai falar".

Até o fechamento deste, números preliminares da PM davam conta de que oito manifestantes haviam sido presos e encaminhados ao 2º e ao 78º DP. Duas pessoas foram feridas.

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