Convocada às vésperas do primeiro protesto do grupo que protagonizou atos em 2013, aula pública contou com participação de secretário que fez pesquisas sobre tarifa zero

O Movimento Passe Livre (MPL) realizou, na tarde desta segunda (5), no Vale do Anhagabau, próximo ao prédio da Prefeitura de São Paulo, na região central, na uma aula pública para discutir o aumento das tarifas do transporte público na cidade. Cerca de 350 pessoas compareceram, segundo a Polícia Militar. O ato pacífico durou uma hora.

Relembre os atos de junho de 2013 que derrubaram o aumento das tarifas:

A aula foi uma espécie de aquecimento para o primeiro grande ato do grupo -marcado para a próxima sexta-feira (9) - desde os anúncios dos aumentos de ônibus, metrô e trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) – de R$ 3,00 para R$ 3,50 – feitos pelo prefeito Fernando Haddad (PT) e pelo governador Geraldo alckmin (PSDB), em dezembro passado.

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Além de representantes do movimento, que ganhou relevância nacional em 2013, e da sociedade civil, a aula pública teve a participação do engenheiro civil aposentado Lúcio Gregori, que foi secretário dos transportes municipais de São Paulo no governo de Luiza Erundina (então do PT) no início da década de 1990. Ele foi um dos responsáveis pela apresentação de um projeto de tarifa zero para os ônibus municipais usando o aumento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) para financiar as gratuidades. O projeto não chegou a ser votado na Câmara Municipal. 

"Tem de aumentar a receita da prefeitura e revisar contratos com empresas para diminuir o lucro dos empresários", afirmou Gregori, que citou u um relatório da feito a pedido da SPTrans (empresa que gerencia os ônibus na capital) pela auditora independente Ernst & Young. De acordo com Gregori, as empresas de ônibus têm lucros de 26% e as cooperativas, de 34%. "Se diminuísse a taxa de lucro para 12% teríamos tido uma economia de R$ 6,9 bilhões nos últimos nove anos. O suficiente para subsidiar a tarifa à população por quatro anos."

Gregori lembrou que em países da Europa, o governo subsidia cerca de 60% das tarifas dos transportes, cabendo à população o restante. No Brasil, disse ele, apenas 15% das tarifas são subsidiadas pelos governos.

Lúcio Gregori, secretário dos transportes no governo Erundina: para ele, tarifa zero é possível
Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo
Lúcio Gregori, secretário dos transportes no governo Erundina: para ele, tarifa zero é possível

"O transporte não é um direito social, assim como saúde, a educação, a segurança? Mas para se movimentar na cidade se paga. E só não se paga mais por causa de um subsídio merreca", atacou. 

Defensor do passe livre, além da diminuição dos subsídios, ele disse que para chegar ao objetivo do grupo, a prefeitura tem ainda que aumentar a receita de arrecadação.

“Existem formas mais simples de fazer isso, como aumentar os recursos para investimento e revisar esses contratos com as empresas de ônibus”, disse.

Durante sua fala de 30 minutos às pessoas que acompanhavam o ato, Gregori também criticou a qualidade dos transportes públicos na cidade de São Paulo e a forma como as empresas são remuneradas pela prefeitura. Atualmente, a prefeitura paga por passageiro transportado.

Nenhum representante da prefeitura ou do governo do Estado foi convidado. Mas Frederico Haddad, filho do prefeito da capital, foi visto na platéia antes do início da aula. Ele foi embora antes do ato sem dar entrevistas.

MPL nas ruas
A aula pública foi realizada a poucos dias do primeiro grande ato do MPL na capital paulista. A última vez que integrantes do movimento saíram às ruas foi em junho do ano passado para comemorar um ano dos atos que terminaram com revogação das tarifas em 2013. Na ocasião, houve quebradeira em concessionárias de veículos de luxo na zona sul.

Além da aula e do ato já agendado para esta semana, o MPL de São Paulo promete novas manifestações para barrar os aumentos e pela gratuidade dos transportes. Foram anunciados ainda atos para mais sete cidades do País. 

Marcelo Hotimsky, 21 anos, estudante de filosofia e militante do grupo, disse que o ato de hoje pretendeu "dar voz" à população que de fato é afetada pelo aumento. "Nos últimos tempos, as pessoas têm acesso às informações apenas pela boca dos gestores", explicou ele. 

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Outra justificativa para a aula foi dada pela estudante Andreza Delgado, 19 anos, também militante do MPL: "A aula também serve para dar o tom da luta, para fortalecer o discurso. Mas não existe fórmula pronta para fazer a luta".

Antes de aumentar a tarifa, o prefeito de São Paulo anunciou o passe livre para estudantes, que permitirá gratuidade a alunos de baixa renda no trajeto entre a casa e escola, em um total de 48 cotas mensais. O movimento vê com ressalvas a novidade.

"Esta medida está longe de ser um passe livre estudantil", criticou Delgado. "É fechada para o trajeto entre a casa e a escola e não permite ao estudante acessos a outros meios, como sarais nos bairros, por exemplo. A gente entende que ela é fruto da luta do povo, mas está longe de ser o ideal."

É a opinião da estudante Paloma Moreira, 17 anos, que participou da aula pública como representante da população. "O aumento da tarifa impede que pessoas como eu continuem sem acesso à cidade, porque não existem só catracas do transporte", critica a moradora do Jardim Varginha, na zona sul paulistana. "Já a gratuidade para estudantes, apesar de boa, é limitada, já que o processo educativo é muito mais amplo e diz respeito ao acesso a todos os outros meios culturais da cidade."

O MPL ganhou relevância nacional em junho de 2013, quando organizou e protagonizou as manifestações realizadas em todo o País exigindo a revogação dos aumentos e exigindo, com palavras de ordem, a "tarifa zero" nos transportes das cidades. Na ocasião, a tarifa subiu de R$3 para R$ 3,20 na capital paulista, mas, após uma série de protestos marcados por conflitos e violência, que acabaram ganhando dimensões até então impensadas, voltou para R$ 3 – valor que permanece em vigor até à 0h desta terça-feira (6). 

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