Governo de SP diz que Juquery não será desativado e critica reportagem do iG

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Para governo, fechamento de leitos decorre de nova política em saúde mental e não representa retrocesso no atendimento

A Secretaria de Saúde de São Paulo questiona, por meio de nota, o teor da reportagem “À espera do fechamento, Juquery agoniza e vê funcionários virarem pacientes”, do repórter Anderson Passos. O material, publicado no iG na sexta-feira (12), relata a situação precária do complexo, com um raio-x do local e depoimentos de servidores e pacientes.

Abaixo, a íntegra da nota oficial do governo e a resposta do repórter.

Acesso principal do hospital Juquery em Franco da Rocha. Foto: Ricardo Shinji/iGOrganograma fixado na parede da 3ª Colônia, no Juquery. Foto: Ricardo Shinji/iGCorredores vazios e mato alto mostram abandono do Juquery. Foto: Ricardo Shinji/iGCerca recentemente colocada nos fundos da 3ª Colônia no Hospital Juquery. Foto: Ricardo Shinji/iGO Hospital Juquery visto do alto em imagem de 2005. Foto: Reprodução/FacebookUm dos acessos principais do Hospital Juquery em Franco da Rocha. Foto: Reprodução/FacebookParte externa do Hospital Juquery, em Franco da Rocha. Foto: Reprodução/FacebookO Juquery foi fundado por Franco da Rocha em 1898 e chegou a abrigar 20 mil pessoas. Foto: Reprodução/FacebookAntigo espaço dos tuberculosos no Juquery. Foto: Reprodução/FacebookDaniel Navarro Sonim (E) e Walter Farias (D) escreveram O Capa-Branca. Foto: Nicole Bressane




Em relação à matéria “À espera do fechamento, Juquery agoniza e vê funcionários virarem pacientes”, publicada nesta sexta-feira, 12 de dezembro, a direção do Complexo Hospitalar Juquery lamenta a abordagem equivocada em relação às mudanças que ocorreram na unidade no decorrer dos anos. O texto reforça um estigma e mostra desrespeito à política de desospitalização prevista pela Reforma Antimanicomial.

Todas alterações afetas ao Juquery não preveem a desativação, mas sim a reestruturação do local e a reinserção dos pacientes nos moldes da nova política de saúde mental, preconizada por legislação federal. Portanto, a reportagem erra ao citar a suposta “ofensiva do governo de São Paulo para desativar o hospital”.

O fechamento de leitos decorre dessa nova política e de forma alguma representa um retrocesso no atendimento em saúde mental. Pelo contrário. Todos os pacientes que saíram do Juquery foram transferidos para comunidades terapêuticas e instituições referenciadas do interior de São Paulo que oferecem planos mais adequados aos quadros de pacientes, que ainda são acompanhados por profissionais do hospital de origem.

A reportagem errou ao mencionar dois pacientes que teriam sido funcionários. Nenhum paciente internado atualmente é servidor do Complexo.

É inverídica a afirmação de que “os internos que não tiveram a sorte de ir para outro hospital passaram a perambular pela cidade de Franco da Rocha”. Nenhum interno foi abandonado na rua, como já dito.

Também é mentirosa a firmação de que em 2011 “a última transferência massiva lotou quatro ônibus”. Em 2010, havia 250 pacientes e atualmente há 151 internos. Cem pessoas não poderiam ter lotado quatro ônibus.  A última transferência de elevado número de pacientes ocorrem em 2005 e 2006, quando internos foram transferidos para outras instituições, conforme mencionado acima.

A reportagem é completamente rasa ao abordar o afastamento de funcionários amparando-se em informações do SindSaúde-SP sobre denúncias referentes ao adoecimento de profissionais. É pertinente mencionar, ainda, que tal sindicato é ligado à CUT (Central Única dos Trabalhadores) e faz oposição sistemática ao governo de São Paulo.

Também parece ignorar que problemas de saúde não têm necessariamente relação direta com ambientes de trabalho. Boa parte do quadro de profissionais do Complexo são idosos e acabam solicitando licença médica por outros fatores alheios às questões psicológicas. A propósito, a unidade mantém conta com a Comissão de Saúde do Trabalhador e um núcleo de saúde para atender funcionários.

Quanto à vegetação do entorno, o Complexo esclarece que a manutenção das áreas verdes e ajardinadas é realizada sempre que necessário, com maior ênfase nos espaços com maior circulação de pessoas.

É importante pontuar, ainda, que a presença de cães no local decorre do abandono de ninhadas no entorno do Complexo pela população local. A direção já enviou ofícios à prefeitura de Franco da Rocha solicitando providências por parte do setor de Zoonoses, mas não obteve êxito. A região não dispõe de um Centro de Zoonoses ativo e, por isso, o governo estadual já cedeu ao consórcio intermunicipal um espaço para implantação do serviço em área pertencente do Complexo. A oferta foi feita há cinco anos e até hoje o equipamento não foi instalado.  

Por fim, cabe ressaltar que o modelo manicomial foi completamente desativado. Todos os pacientes do Juquery são assistidos e tratados de forma completamente humanizada. Como prevê a lei, o hospital oferece assistência integral à pessoa portadora de transtornos mentais em tratamento em regime de internação, incluindo serviços médicos, de assistência social, psicológicos, ocupacionais, de lazer, e outros.

Resposta do reporter Anderson Passos

Reafirmo o que diz o texto da reportagem “À espera do fechamento, Juquery agoniza e vê funcionários virarem pacientes”. Há servidores insatisfeitos e com dúvidas sobre o que será do seu futuro. Todos lidam com o Juquery como um complexo em fase de desativação.

Dois servidores em tratamento psiquiátrico foram indicados e encontrados durante a visita. Viraram personagens no texto. A reportagem se comprometeu a preservar os nomes. Se ambos não são internos no complexo, como sustenta a secretaria, estão, no mínimo, em tratamento por lá. É correto dizer que funcionários se tornaram pacientes. 

Importante salientar que a reportagem em nenhum momento sugeriu que os doentes são tratados de forma desumanizada, como aponta o governo estadual.

A nota, ao sugerir que a reportagem tem viés político porque o Sindsaúde, vinculado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), faz oposição ao governo de Geraldo Alckmin (PSDB), apega-se a uma simplificação.

O governo nega a transferência em massa dos pacientes. Todas as fontes, entre elas servidores, o Sindsaúde e moradores das imediações do complexo, confirmam o que diz a reportagem.

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