'Morreria pelo meu cachorro': veja a relação entre moradores de ruas e seus cães

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

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Donos deixam de comer para alimentar os animais e contam ao iG histórias de cumplicidade que aliviam drama de viver na rua

Invisíveis para a sociedade, moradores de rua enxergam em seus animais de estimação o companheirismo que não encontram nos humanos. É comum encontrar pessoas carentes nas ruas de São Paulo acompanhadas apenas pelo amigo de quatro patas. É o caso de Beatriz Menezes, de 25 anos. Apesar de muitas vezes não ter comida suficiente para a própria sobrevivência, ela confessa que fica sem comer para alimentar o cão Malhado, parceiro há sete anos.

Carolina Garcia/iG São Paulo
Beatriz e Malhado no centro de São Paulo

Hoje com pelos brilhantes, que são escovados e limpos toda semana, Malhado foi encontrado por Bia quando era filhote dentro de um buraco na Praça Santa Cecília, no centro da capital paulista. “Ele é meu melhor amigo, morreria pelo meu cachorro. E sei que sou responsável pelo Malhado porque ele não fala. Eu me viro, mas ele não sabe pedir ajuda”, justifica a mulher, que está grávida de sete meses, sobre os momentos que escolhe ficar sem comer pelo cão.

Ao seu lado, “como uma sombra”, Malhado observa cada pedestre que se aproxima da sua dona. Sobre a fidelidade do cão, ela explica: "É um amor puro porque ele não conhece dinheiro". Bia tranquiliza a reportagem dizendo que durante o dia Malhado é muito amável, “apenas à noite ele entra em estado de alerta” para protegê-la. A parceria entre os dois é bem conhecida pelos moradores da praça General Jardim, no centro, que são tratados por ela como “tio”, “tia” e “vó”, depende da idade do pedestre. “É uma relação de respeito, né?”. 

E esse respeito foi observado por Rosicleia Vicaril, de 53 anos, proprietária de um petshop na mesma rua há 16 anos. A comerciante ajuda Bia com porções de ração, vacinas e até material para dar banho em Malhado. “Uma vez ela até pediu algodão para colocar no ouvido dele durante o banho. Ela cuida dele como filho, por isso ajudo. Me emociono com a dedicação dos dois, um cuida do outro."

“Ele vale 1 milhão de dólares”

Ao ser abordado, o ex-pintor Kiko, de 60 anos, só aceitou conversar sobre a história do seu labrador mestiço Jamaica, de dois anos. Falar sobre o que levou Kiko a morar em sua Kombi é algo dolorido e “que não vale ser repetido”. O recomeço, segundo ele, foi adotar o filhote, que exibe pelagem bonita e pula alegremente com a saída do seu dono do carro. “Não vivo sem esse safado”, diz ele, retribuindo o carinho do animal.

Kiko com o cão Jamaica, de 2 anos. 'Não vivo sem o meu safado', diz o morador de rua. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloJamaica chama atenção pelo tamanho, mas é dócil e extremamente protetor. 'Ele fica bravo quando entro no bar e fumo'. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloOs dois dividem espaço na Kombi na rua Vieira de Morais. Ao fundo, Jamaica late. 'Ele tem ciúmes'. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloA Kombi de Kiko e Jamaica já foi reformada por vizinhos, que montaram um grupo no Facebook para ajudar a dupla. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloBeatriz Menezes, de 25 anos, com o seu cão Malhado, de 7. Ele foi adotado ainda filhote e é seu melhor amigo. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloFilhote Scooby vive na região central de São Paulo com o irmão da Beatriz, que não quis gravar entrevista. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMoradores de rua pedem fotos com Scooby e Malhado no centro de São Paulo. Foto: Carolina Garcia/iG São Paulo'Morreria pelo meu cachorro', diz Bia. Ao lado, a dona do petshot Rosicleia Vicaril. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloCena é comum no centro de São Paulo. Moradores de rua adotam animais e aliviam drama de não ter um lar para viver. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloProjeto 'Moradores de Rua e Seus Cães', de Edu Leporo, reúne 15 histórias de amor incondicional e pode virar livro. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesAlessandro posa com o seu cão Thor na praça da rua Pedroso, em São Paulo. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesCasal de moradores de rua, Diego e Ângela, com Lion na região da Marginal Pinheiros. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesSaulo e o filhote Hulk, que tem apenas quatro meses, moram na praça da República. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesGilberto conta uma das histórias que mais emocionou o fotógrafo. Três cães foram roubados por uma falsa cuidadora. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesMaik posa com os seus três cães e conta que tem um sonho de fundar uma ONG para ajudar animais abandonados. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesOs cães Bruce e Lauren Hill que são companheiros de Maik. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesSeu José vive na praça João Mendes, no centro de São Paulo, com três cães. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesPapai posa ao lado de Leão (o cão) uma amizade que já dura 15 anos no centro de São Paulo. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus CãesNatal adotou os cães Roberto (cinza) e Lupita, que já tem 13 anos. Eles moram nas ruas do bairro Bela Vista. Foto: Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus Cães

Com aproximadamente 30 kg, Jamaica chama a atenção com o seu porte por onde passa. Kiko já recebeu inúmeras propostas para vender o animal. E dá o preço: “Ele custa 1 milhão de dólares. Coloquei esse preço pensando exatamente que ninguém irá cobrir. Com posso vender o único cara que me dá bola e aguenta ouvir os meus problemas?”, desabafa com lágrimas no rosto. O morador de rua já foi convidado por uma assistente social para morar em abrigo, mas recusou porque não pode levar Jamaica.

A Kombi carrega todos os pertences de Kiko, inclusive três sacos de ração para cachorro, dois doados por vizinhos. O ex-pintor esclarece que o animal é dócil, mas tem problemas com homens. “O garoto é esperto, só pula e pede carinho das meninas que passam aqui." Além de companhia durante as buscas por papelão na região, Jamaica mostra que se preocupa com o dono. Kiko garante que suas idas ao bar ou o ato de acender um cigarro irritam o animal. “Ele late, fica furioso comigo. Ele cuida de mim."

“Amor maior do que dentro de casa”

Desde o começo da vida profissional, o fotógrafo Edu Leporo decidiu se dedicar ao trabalho com animais. Após centenas de ensaios com cães na casa dos donos, ele questionou o poder da relação entre um animal - muitas vezes abandonado - e o morador de rua.

Surgiu então o projeto “Moradores de Rua e Seus Cães”, que reúne 15 histórias de amor incondicional. “Tento mostrar para a sociedade que apesar de serem moradores de rua, sujos e muitas vezes mal cuidados, eles são pessoas de bem. E fazem questão de compartilhar o pouco que têm com o cão”. (veja mais fotos do profissional na galeria)

Edu Leporo / Moradores de Rua e Seus Cães
Alessandro posa com o seu cão Thor. Os dois vivem na região da rua Pedroso de Morais, em SP

Em todas as suas caminhadas, o profissional garante que nunca encontrou um cão em más condições. “Muitos recebem mais amor do que se estivessem dentro de uma casa”, diz. Ao abordar seus entrevistados, Leporo percebeu que muitos moradores de rua não queriam ter o cachorro fotografado por medo de roubo. “Eles reclamam que muitas pessoas passam, oferecem dinheiro pelo animal e até roubam quando não estão por perto."

Entre suas histórias, Leporo destaca a de Gilberto, que mora na região do parque Trianon, ao lado da avenida Paulista, em São Paulo. Ele teve três cachorros roubados por uma falsa cuidadora. “Após ter problemas com a polícia, uma senhora se ofereceu para cuidar dos cães, mas ela nunca devolveu. Hoje ele tem novos animais, mas fala até em greve de fome para recuperar os outros três."

Atualmente, o fotógrafo procura patrocinadores para seu projeto, que deve virar um livro e uma exposição no centro de São Paulo. “Quero que eles [os moradores de rua] possam acompanhar o resultado. É um trabalho voluntário e faço isso por eles."

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