Sindicato dos Enfermeiros protocola solicitação para mediação da Delegacia do Trabalho e Ministério Público; assembleia deve ser realizada e indicativo de paralisação faz parte da pauta

Na última sexta-feira (28), data limite para o pagamento da primeira parcela do 13º salário, a Santa Casa de São Paulo emitiu comunicado aos funcionários dizendo que não faria o depósito do dinheiro aos servidores – incluindo corpo médico e funcionários – senão uma parte (R$ 300) daqueles que têm ganhos de até R$ 3 mil mensais. Funcionários falam em greve após mais uma crise.

Fachada da Santa Casa da capital paulista: instituição precisou pedir ajuda para não fechar PS
Reprodução/Google Maps
Fachada da Santa Casa da capital paulista: instituição precisou pedir ajuda para não fechar PS

O Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo (SEESP) protocolou, na segunda-feira (1º), uma solicitação urgente para que a Delegacia Regional do Trabalho (DRT) e o Ministério Público do Trabalho (MPT) tentem mediar mais uma crise na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

"Hoje o sindicato foi comunicado formalmente do não pagamento pela Santa Casa e estamos pedindo uma reunião urgente com a Delegacia Regional do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho", informou a assessoria do Sindicato dos Enfermeiros.

Um dos diretores do sindicato, Péricles Cristiano Batista disse ao iG que a expectativa é de que “a DRT receba trabalhadores e os representantes da Santa Casa no dia 9 de dezembro. Só havia datas em janeiro, mas conseguimos agilizar”, explicou o dirigente.

Já no MPT, a perspectiva é de que a mesa de negociações seja montada em até 15 dias.

Idosos formam fila no setor de internação e exames na Santa Casa de Misericórdia de SP
Reprodução
Idosos formam fila no setor de internação e exames na Santa Casa de Misericórdia de SP

O dirigente da SEESP disse que vem conversando com o Sindicato dos Médicos sobre a situação da Santa Casa (ambos são filiados à Central Única dos Trabalhadores) e que uma assembleia deve ser convocada para debater, inclusive, a possibilidade de greve.

“Conversei com a diretora de enfermagem da Santa Casa e ela me relatou que o atendimento está ocorrendo normalmente, mas que o clima é de revolta entre os trabalhadores. A má gestão estourou nos trabalhadores”, lamentou Batista.

Além da possibilidade de greve, outro ponto que deve ser debatido entre os enfermeiros da Santa Casa é a falta de perspectiva de pagamento da folha em janeiro.

“Há boatos de que a Santa Casa vai pagar apenas 40% do salário de dezembro e isso também será debatido na assembleia”, comentou Péricles Cristiano Batista.

Um profissional de medicina, que pediu para não ser identificado, comentou que “sequer há perspectiva sobre o pagamento dos salários de dezembro”, que devem ser pagos em janeiro de 2015.

A Santa Casa de Misericórdia mantém, além de uma unidade hospitalar na região central da capital paulista, contratos de gestão em unidades de atendimento de saúde com o estado e o município de São Paulo.

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No começo do dia, o Sindicato dos Enfermeiros tinha uma informação extra-oficial de que apenas os trabalhadores que atuam em unidades que mantém contratos com o governo do estado foram afetadas pelo não pagamento. À tarde, Péricles Batista confirmou que a prefeitura da capital honrou com os repasses enquanto o governo do estado não.

Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde esclareceu que as seis unidades de saúde cuja gestão era compartilhada entre a pasta e a Santa Casa tiveram os contratos rescindidos em novembro passado. Atualmente, o estado de São Paulo e novas Organizações Sociais assumiram essas mesmas unidades e os repasses do 13º salário foram realizados normalmente.

Veja vídeo que mostra precariedade financeira da Santa Casa paulistana:

Rotina mantida
No hospital da Santa Casa, na região de Santa Cecília, o clima pouco lembrava o de crise senão pelos cartazes afixados nas unidades de atendimento. Os avisos apontavam que a unidade atuava no limite da capacidade e advertia para demora na recepção aos pacientes pelo corpo médico.

As unidades de emergência e traumatologia seguiam lotadas nesta segunda-feira, movimento considerado normal. A enfermeira aposentada Carmem de Almeida da Silva, 64 anos, procurou a unidade de traumatologia e elogiou o atendimento.

Pacientes encontram portões de pronto-socorro da Santa Casa fechados, em julho
Marcos Bezerra/Futura Press
Pacientes encontram portões de pronto-socorro da Santa Casa fechados, em julho

“Sofri uma queda e trinquei o joelho. Vim aqui na sexta (28), cheguei passava das 8 da manhã e saí daqui às 13h. Mas em 20 minutos eu fui atendida. O que demorou mais foi secar o gesso”, relatou.

Carmem reconheceu a crise da entidade, mas disse que ao passar pela Santa Casa não ouviu qualquer queixa de médicos ou funcionários em relação ao 13º não pago.

Outro médico, que também pediu sigilo para falar, lamentou a postura do Sindicato dos Enfermeiros de tentar mobilizar uma paralisação no atendimento para pressionar a direção da entidade a quitar a dívida do 13º.

“Não é a primeira vez que atrasa. Atendo aqui há dez anos e já vi situações assim. Acho que essa conversa do Sindicato dos Enfermeiros de greve joga contra eles e prejudica a população. Saúde é algo muito mais complexo. Aqui na Santa Casa nós trabalhamos com o que tem. E não tem faltado material ultimamente” destacou.

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Auditoria
Relatório preliminar sobre a situação financeira da Santa Casa de Misericórdia indicava que a dívida da instituição estava em R$ 433,5 milhões até dezembro de 2013. O documento, divulgado no final de setembro, apontava ainda que o patrimônio líquido da instituição - que não inclui os imóveis - caiu 98,5% em quatro anos - passou de R$ 220,3 milhões em 2009 para R$ 323 mil em 2013.

A auditoria foi realizada após uma crise em 22 de julho desse ano que redundou no fechamento da emergência. Naquela ocasião, médicos e enfermeiros não tinham sequer materiais básicos para trabalhar como luvas e esparadrapos. Naquela ocasião, tanto o Ministério da Saúde quanto a Secretaria Estadual de Saúde repassaram recursos para que as dívidas com os fornecedores fossem minoradas.

A auditoria nas contas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo segue sendo realizada por uma comissão técnica instituída pela Secretaria de Estado da Saúde e que é composta ainda por representantes do Ministério da Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde e do Conselho Estadual de Saúde. O relatório final ainda não tem data para ficar pronto.

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