"No Brasil somos livres", diz refugiado sírio sobre a vida em São Paulo

Por Amanda Campos e Beatriz Atihe - iG São Paulo |

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Em busca de uma vida melhor longe da guerra civil na Síria, refugiados deixam de lado diferenças culturais pela liberdade

Se dominasse o idioma português, o sírio Ahmad, de 27 anos, certamente se identificaria com o trecho "Liberdade - essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda!", da obra de Cecília Meireles (1901-1964).

Mas por causa de sua pouca fluência na língua, o homem de cabelos cuidadosamente penteados se complicou com as palavras ao tentar responder ao iG por que decidiu buscar refúgio no Brasil. Após tentativas frustradas de construir uma frase, Ahmad viu no celular a solução para seu problema: mostrou fotos de seus antigos encontros familiares na Síria e, em uma pasta à parte, expôs imagens da festa de aniversário de sua filha mais velha com os novos vizinhos em São Paulo.

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EFE
13.700 sirios conseguiram escapar da violência no país e se refugiam na Turquia

"Somos livres", disse. "E vocês [brasileiros] são amigáveis. Minha família na Síria também é amigável", acrescentou, sem tirar os olhos do aparelho.

Para se adaptar mais rápido ao Brasil, o sírio participa das aulas de português ministradas por voluntários da Liga da Juventude Islâmica do Brasil, a maior comunidade síria no País atualmente, e já trabalha em um restaurante da região do Brás, em São Paulo.

Ao lado da mulher e dos dois filhos – o mais novo, Wasim Hawana, tem pouco menos de um mês e nasceu no Brasil - Ahmad faz parte dos 1.183 refugiados sírios que chegaram ao País entre janeiro e outubro de 2014, segundo dados do Acnur, Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados. 

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Em conversa com o iG, Andrés Ramirez, representante do Acnur Brasil, explica que a postura solidária do Brasil com as vítimas do conflito - que já matou mais de 170 mil em três anos, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos - tem tornado o País atraente para os refugiados.

A fim de facilitar a entrada dos grupos no País, a legislação nacional de refúgio criou o Conare, Comitê Nacional para os Refugiados. Por meio do órgão, foi instituida uma lei que garante a emissão mais rápida de documentos básicos aos refugiados, como os de identificação e trabalho.

"Essa normativa brasileira facilitou a entrada dos refugiados no País. Além disso, não se pode esquecer que a comunidade síria e também libanesa, que estão em grande número no Brasil, têm ajudado a acolher esses refugiados, levando mantimentos e ajudando na inclusão desses novos grupos", afirmou Ramirez.

Garota síria, que fugiu com sua família da Síria, em campo de refugiados na Turquia (23/8). Foto: APIdoso sírio deixou sua casa por conflito entre rebeldes para viver em campo na Turquia, perto da fronteira (23/8). Foto: AP
Síria carrega bebê em campo de refugiados jordaniano na cidade de Mafraq (13/8). Foto: ReutersRefugiados caminham pelo campo de Zaatari, na Jordânia, onde mais de 3 mil expressaram insatisfação com as precárias condições do campo (13/8). Foto: AP
Família síria fugiu do conflito armado do país para campo de refugiados em Mafraq, na Jordânia (12/8). Foto: ReutersRefugiados sírios esperam para registrar nomes ao chegar a campo de Mafraq, na Jordânia (11/8)
. Foto: Reuters
Crianças sírias olham alimentos que receberam em Zaatari, Jordânia (11/8). Foto: EFESírios carregam seus pertences ao chegar a campo de refugiados na vizinha Jordânia (11/8). Foto: ReutersRefugiados sírios em campo de refugiados após receber atendimento médico em hospital militar marroquino em Mafraq, Jordânia (10/8). Foto: APRefugiados sírios no campo de Zaatari, em Mafraq, Jordânia (10/8). Foto: AP
Refugiados sírios passam de ônibus pela cidade de Reyhanli, da província turca de Hatay, na fronteira (10/8)
. Foto: ReutersMãe e filhos deixaram a Síria e cruzaram a fronteira em Qaim, no Iraque (7/8). Foto: APRefugiados sírios na entrada de sua tenda no campo de Zaatari, na Jordânia (2/8). Foto: APGarota síria se lava em campo de refugiados da Jordânia (2/8). Foto: APRefugiado sírio escala torre de energia elétrica para chamar colegas no campo de refugiados de Zaatari, em Mafraq, Jordânia (2/8)	
. Foto: APRefugiados sírios chegam à cidade iraquiana de Qaim, na fronteira com a Síria (26/7). Foto: AP
Refugiados sírios em Qaim, no Iraque (26/7). Foto: AP
Refugiados sírios chegam à fronteira com o Iraque, na cidade de Qaim, a 320 km de Bagdá (26/7). Foto: AP
Refugiado sírio passa por playground em campo de refugiados de Al Bashabsheh, em Ramtha, Jordânia (17/7). Foto: APGarotos sírios brincam no campo de Al Bashabsheh, na Jordânia (17/7) 
. Foto: APCrianças caminham em campo de refugiados em Hatay, província turca na fronteira (3/4). Foto: ReutersGarotas feridas em conflito na Síria se recuperam em hospital no Líbano (21/3). Foto: AFPSírios que fogem do conflito esperam na fronteira para entrar na Turquia por Reyhanli (19/3). Foto: AP13.700 sirios conseguiram escapar da violência no país e se refugiam na Turquia (19/3). Foto: EFERefugiado sírio caminha em direção à fronteira da Turquia carregando bens em sacos (15/3). Foto: APRefugiada síria chora durante protesto contra regime de Assad em Yayladagi, Turquia (12/3). Foto: APRefugiado sírio e menino são vistos em Yayladagi, Turquia (12/3). Foto: APCrianças refugiadas sírias protestam contra o presidente Bashar al-Assad em Yayladagi, na Turquia (27/6/2011). Foto: APRefugiados sírios na Turquia (24/6/2011). Foto: ReutersRefugiados sírios recém-chegados à Turquia são levados para campo de refugiados perto de Guvecci (23/6/2011). Foto: AP

O grande fluxo de pedidos de asilo - de 2010 a 2013 aumentou mais de 930%, passando de 566 para 5.882 - faz do Brasil o país que mais recebe refugiados na América Latina e Caribe. De acordo com a instituição, até outubro de 2014, foram reconhecidos 7.289 refugiados de 81 nacionalidades diferentes – 25% deles, mulheres. Além da Síria, há um grande fluxo de asilados da Colômbia, 1.218, Angola, 1.067, e República Democrática do Congo, 784.

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O jovem Mouayad Shmoon, de 21 anos, está no País há 6 meses e já se sente acolhido pela comunidade síria e brasileira. Com alguns familiares e amigos aqui, Shmoon decidiu sair do país de origem para não ter de participar ativamente da guerra.

"Meu irmão é soldado e foi obrigado pelo governo a lutar. Eu não quero ficar lá porque não quero matar ninguém, não quero ser obrigado a fazer isso", explica o jovem.

Com facilidade para aprender o português, Shmoon participa de algumas aulas da Liga, mas prefere aprender na prática, com os amigos brasileiros.

"Eu dou aulas de dança e muito dos meus alunos são brasileiros. Quando estou com eles tento conversar só em português, é assim que eu estou aprendendo o idioma", disse.

Mas um assunto tira o sorriso expressivo no rosto do jovem: o fato de sua mãe continuar vivendo sob o regime do presidente Bashar al-Assad. E não pretender deixar seu país de origem em busca de uma vida mais tranquila, segundo ele.

"Eu sinto muita falta dela, falo com ela todos os dias, mas minha mãe não se importa realmente com o que está acontecendo por lá [Síria], se eu e os meus irmãos estivermos a salvo. Ela ama a Síria e não quer deixar o país", diz Shmoon.

Apesar de saberem dos problemas do Brasil, grande parte dos sírios demonstra querer recomeçar sua vida aqui. Na mesquita do Pari, apesar do olhar desconfiado, os refugiados mostram que um lugar onde não há guerra é melhor do que um onde ela prevaleça.

O clima de descontração está constantemente presente: grupos conversando e rindo, crianças correndo e se divertindo, como se eles estivessem à esperança de que uma nova vida – sem medo – começasse no território brasileiro.

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