Local tem corredores lotados e fila para plano de demissão voluntária. "Agora nosso padrão é o SUS", diz médico

Entrada do Hospital Universitário da USP na Cidade Universitária
Wanderley Preite Sobrinho/iG
Entrada do Hospital Universitário da USP na Cidade Universitária

O reitor da USP (Universidade de São Paulo), Marco Antonio Zago, bem que tentou, mas o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse que não pretende cuidar do Hospital Universitário (HU), funcionando na Cidade Universitária desde 1981. Diante da recusa, o complexo já começa a sofrer com o corte de gastos.

A reitoria mandou reduzir a quantidade e a qualidade do material hospitalar. Alguns setores diminuíram o atendimento, enquanto as macas lotam os corredores do pronto-socorro e 362 funcionários entraram na fila de um plano de demissão voluntária.

A ideia de entregar o HU ao poder público surgiu depois que o Conselho Universitário aprovou a transferência do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o Centrinho, de Bauru, para a Secretaria Estadual de Saúde. Alckmin, no entanto, recusou-se a assumir o Centrinho e deixou claro que pretende fazer o mesmo se a transferência do HU for aprovada. "Tem alguém que quer [repassar o HU], mas o outro não quer. Não tem discussão", afirmou o secretário da Saúde, David Uip, quando questionado a respeito.

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Essa era a cartada que Zago - no cargo desde dezembro de 2013 - precisava para desafogar as contas da USP, cuja folha de pagamento consome 105% de todo o orçamento, de R$ 4,5 bilhões em 2014. Com a transferência dos dois complexos, o reitor esperava economizar até R$ 450 milhões por ano. Em entrevista à revista IstoÉ, Zago é claro: "Por que a USP gastaria os seus recursos com fraldas, antibiótico e soro? A função da universidade é ensino e pesquisa".

Com a recusa de Alckmin, o jeito foi apertar o cinto. "Até o pó de café foi cortado", reclama uma médica que falou ao iG sob condição de anonimato. Ela estima em 10% o corte no material utilizado no atendimento a pacientes. Outro médico diz que o corte é de 20%, mas afetou apenas a qualidade do material. "Antes, a família de uma criança que fosse passar por uma cirurgia recebia uma estrutura para acompanhar o filho. Hoje isso acabou. O material agora é ruim, antes era o diferencial do HU. O que se diz aqui é que agora o nosso padrão é o SUS", diz o médico, que teme especialmente pela queda na qualidade de ensino.

Local para 11 macas chega a receber 40
Wanderley Preite Sobrinho/iG
Local para 11 macas chega a receber 40

É que o hospital foi projetado na década de 1970 para ser uma plataforma de ensino de medicina experimental. O curso acabou antes de o hospital funcionar plenamente, mas o espaço passou a receber os alunos da Faculddade de Medicina e de outros cursos da área médica, como Enfermagem e Farmácia. Hoje, 2,4 mil alunos estudam no Hospital Universitário.

Para economizar, a reitoria também reduziu o teto salarial dos funcionários da USP para R$ 20 mil. No HU, havia médicos que acumulavam salários de até R$ 28 mil porque dobravam sua carga horária de 20 para 40 horas semanais. Com a medida, as horas extras foram revogadas e a falta de médico, escancarada.

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Um diretor do hospital estima em 50 o número de médicos que precisam ser contratados para trabalhar nos plantões. "Sem a hora extra, a gente pede que o médico troque sua escala ordinária, de dia, para cobrir uma lacuna à noite e aos finais de semana, desfalcando o atentimento no horário comercial." Ele explica que há 30 cirurgiões nas escalas, nem metade do necessário. O resultado é a diminuição do número de cirurgias e até anestesias por plantão.

Por essa razão, as filas cresceram, especialmente no pronto-socorro, que chega a acumular até 40 macas em um espaço preparado para 11. Em alguns setores, como a ortopedia, os atendimentos laboratoriais foram suspensos. Agora, só emergência.

A reitoria também cortou em 30% o número de funcionários terceirizados e retirou benefícios de quem trabalha no complexo: os funcionários do hospital foram proibidos de indicar dependentes. "Nossos filhos até 21 anos tinham direito a um serviço exclusivo de agendamento e a não pagar por exames encaminhados pelo HU", conta outra médica.

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A falta de funcionários e a superlotação devem se agravar nos próximos meses. É que a USP planeja desembolsar R$ 450 milhões para demitir 21% dos funcionários da universidade por meio de Plano de Incentivo a Demissão Voluntária (PIDV). A ideia é que os funcionários que pedirem demissão entre dezembro e janeiro sejam dispensados em fevereiro, o que deve atingir 362 dos 1.727 funcionários do HU. A proposta é pagar um salário por cada ano trabalhado até o teto de 20 salários. Para pessoas de 55 a 67 anos, serão 20 salários de incentivo mais a liberação dos 40% do Fundo de Garantia. 

Sem espaço,  idosa é atendida no corredor do PS do Hospital Universitário
Wanderley Preite Sobrinho/iG
Sem espaço, idosa é atendida no corredor do PS do Hospital Universitário

Essas demissões devem agravar ainda mais o atendimento na região Oeste, preveem os funcionários. Com 260 leitos, a região precisa de 800. Os profissionais afirmam que boa parte da demanda se deve às 11 Unidades Básicas de Saúde (UBS's) que precisariam ser construídas na região, uma vez que 60% dos atendimentos no Hospital Universitário são de atenção primária. Além disso, o Hospital Sorocabana foi fechado e as outras duas opções - o Hospital da Lapa e o Hospital Bandeirantes - devem fechar para reforma em dezembro e janeiro próximos.

Uma das razões para a paralisação que afetou a USP, e o hospital, de maio a setembro, foi o volume de 23 mil pacientes por mês, embora a capacidade do complexo seja de seis mil atendimentos. Os cortes promovidos pela reitoria podem provocar uma nova paralisação a qualquer momento, diz o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), que reclama do silêncio de Zago, que além de não conversar com os sindicalistas desde setembro, escolheu uma data distante para a retomada das contratações: 2018.

Outro lado

Questionada pela reportagem, a assessoria da reitoria negou a redução da quantidade e qualidade do material hospitalar e afirmou que as demissões no HU não têm por objetivo recuperar as contas da USP. Sobre a redução nos proventos pagos aos médicos, "trata-se do teto remuneratório do Estado de São Paulo”.

Já a respeito do suposto silêncio do reitor, a assessoria diz que "durante a greve, foram feitas várias reuniões de negociação com o sindicato. No dia 25 de outubro, foi publicada portaria do grupo de trabalho, designado pelo reitor, com o objetivo de estudar formas institucionais para os entendimentos referentes às relações de trabalho dos servidores técnico-administrativos da Universidade e estabelecer regras e procedimentos para a negociação sindical". A USP também afirma que ainda não foi estipulada uma data para as recontratações na universidade.

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