Número de queimadas no Brasil é 70% maior do que soma de toda América do Sul

Por David Shalom , iG São Paulo |

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Segundo dados do Inpe, em 10 meses foram registrados no País 157.196 focos de incêndio contra 91.863 de seus vizinhos

O aumento neste ano do número de focos de incêndio no Brasil revela um dado que mostra como o País vice-campeão em desmatamento no mundo – perde apenas para a Indonésia – consegue superar facilmente outros concorrentes, mesmo dentro do próprio continente. É o que provam imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), segundo as quais o número de focos de incêndios em vegetações florestais e campestres no território brasileiro é superior à soma dos registrados em todas as nações da América do Sul. E a diferença não é pequena.

Parque Nacional da Serra dos Órgãos/Divulgação
Imagens aéreas de queimada em área preservada na Região Serrana do Rio no mês passado

Atualizados diariamente, os números do instituto mostram que foi detectado um total de 157.196 queimadas no Brasil entre os dias 1º de janeiro e a última quarta-feira (5), um aumento de 69% no acumulado do ano quando comparado aos índices registrados em 2013 (92.527). Assim, os focos de incêndios em áreas verdes no Brasil foram até a data mencionada mais de 70% superiores à soma dos registrados em todos os países sul-americanos no período – 91.863.

O instituto credita a diferença ao fato de o Brasil possuir território amplamente maior ao de seus vizinhos, mas a realidade não é exatamente essa. Isso porque, apesar de realmente ocupar boa parte da América do Sul, o País tem cerca de 48% da área total do continente. Para a justificativa ter efeito, o território precisaria registrar aproximadamente a mesma quantidade de focos de incêndio da soma de seus vizinhos – não quase o dobro. Para o Ibama, a culpada é a estiagem.

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Mas especialistas consultados pelo iG citam uma série de outros fatores para o resultado. O tamanho do território é, sim, relevante para explicar os números, assim como a falta de chuvas, que torna a vegetação seca e propicia para a combustão. No entanto, tão ou mais relevantes são os tipos de vegetação, o clima e o terreno das mais diversas regiões e as políticas ambientais praticadas por cada um dos governos do continente.

"O controle do Brasil em relação às queimadas é ruim, não tem muita fiscalização, pessoal suficiente ou mesmo gente suficientemente qualificada para identificar como o fogo está e qual é a melhor forma de combatê-lo", diz Sandra Cristina Muller, professora do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "Além disso, o atual Código Florestal Brasileiro é menos restritivo do que o anterior, facilitando bastante a questão das queimadas."

Veja fotos de incêndio na Chapada dos Veadeiros no mês passado:

Incêndios atingem Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO). Foto: Patrícia Moraes/iGIncêndios atingem Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO). Foto: Patrícia Moraes/iGIncêndios atingem Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO). Foto: Patrícia Moraes/iGIncêndios atingem Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO). Foto: Patrícia Moraes/iG

Sancionado pela presidente Dilma Rousseff em 2012, o Código Florestal Brasileiro impôs mudanças em relação aos cuidados de áreas verdes no País responsáveis por gerar um descontentamento em ambientalistas que perdura até hoje. Entre eles está uma espécie de de perdão àqueles que desmataram ilegalmente antes do ano de 2008, além do abrandamendo das definições das Áreas de Proteção Permanente (APPs) e das fronteiras agrícolas.

"Em São Paulo, por exemplo, você tem APPs que tinham um tamanho e agora passaram a ter um tamanho muito menor. Ou seja, temos cada vez menos florestas ou possibilidades de restaurar as florestas, que têm seus terrenos picotados, dificultando sua recuperação", analisa Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Universidade de Campinas (Unicamp). "As propriedades agrícolas acabam, assim, gerando um grande impacto nas áreas de queimadas. Isso demonstra um verdadeiro retrocesso nas nossas leis ambientais."

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Também existe a questão de terreno e clima. Diferente de outros países que dividem com o Brasil a Floresta Amazônica – densa e úmida suficiente para só ter incêndios quando há derrubada de árvores –, o País possui uma ampla área central com vegetação rasteira, de fácil combustão: o cerrado (semelhante à savana africana), o segundo maior bioma do território, que ocupa mais de 2 mil km² de oito Estados mais o Distrito Federal, incluindo o Mato Grosso, região conhecida por práticas agrícolas e de pecuária que lidera o ranking de focos de incêndio no Brasil em 2014, com 26.753 casos.

Parque Nacional da Serra dos Órgãos/Divulgação
Grande incêndio em parque nacional no município de Petrópolis, no mês passado

Com clima seco em até metade do ano, essa região tem as queimadas como uma de suas características naturais, que até favorecem seu ecossistema, segundo Muller. No entanto, a presença do homem, responsável por até 99% de todos os incêndios no País, segundo o Ibama, acaba elevando os casos para além dos índices saudáveis, extinguindo espécies e se espalhando pelas florestas do entorno – que, diferente do cerrado, não recebem de forma saudável o fogo ocasional.

"A pessoa do campo pode ir lá, queimar parte do terreno para abri-lo para criar gado ou plantar alguma coisa e, devido à secura das plantas, esse fogo vai se alastrando", diz a especialista da UFRGS. "Essas queimadas também sempre vão ocorrer com maior frequência pelas condições climáticas do Brasil. Se o solo e o clima são propícios para isso, o fogo vai se alastrar mesmo."

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