Seca no Sudeste faz incêndios florestais crescerem até 275% em 2014

Por David Shalom , iG São Paulo |

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Situação é crítica em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde focos de queimadas aumentaram, respectivamente, 150%, 135% e 275% entre 1º de janeiro e 3 de novembro

A falta de chuvas que tem afetado o Sudeste, especialmente os Estados de São Paulo e Minas Gerais, não prejudica apenas o abastecimento dos reservatórios de água da região. De acordo com dados atualizados diariamente por satélite pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o número de focos de queimadas florestais na região aumentou muito nos últimos 10 meses. 

Parque Nacional da Serra dos Órgãos/Divulgação
Grande área atingida em parque nacional no município de Petrópolis (RJ), no mês passado

Entre os dias 1º de janeiro e a última segunda-feira (3) foram registrados, somente em território mineiro, 11.872 focos de incêndio florestal, um aumento de 135% em relação aos 5.042 casos de 2011. Em todos os outros três Estados da região também houve crescimento, a exemplo do que ocorreu em quase todo o País. Apenas Alagoas, Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Sergipe tiveram leve queda no período, de 1%, 7%, 26% e 49%.

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O Rio de Janeiro teve proporcionalmente o maior crescimento no número de casos: foram 1.372 focos do início do ano até o começo de novembro, índice 275% superior aos 365 do ano passado. Com uma área muito maior do que a do Estado vizinho – 248.209 km² ante 43.696 km² –, São Paulo, no entanto, supera o território fluminense em número de queimadas. Foram 4.606 focos de janeiro a novembro, aumento de 150% em relação aos 1.836 do período em 2013.

TV Globo/Reprodução
Incêndio de enormes proporções no Parque Estadual da Cantareira (SP), no mês passado

"A estiagem parece ser o principal culpado para esses números, pois quando não chove a probabilidade de uma área pegar fogo é muito maior, porque está seca", explica ao iG Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Universidade de Campinas (Unicamp). "Floresta tropical como a que temos só pega fogo quando está seca. Além disso, a falta de chuvas aumenta o material combustível na área – aquelas folhas secas que caem das árvores. Assim, a gravidade do incêndio cresce, bem como a possibilidade de ele se alastrar por áreas maiores."

Ação humana

O Ibama corrobora a informação, creditando à estiagem a responsabilidade pelo aumento de casos. No entanto, assim como outros institutos de monitoramento de queimadas e especialistas no assunto, cita o homem como diretamente responsável pelas queimadas – seja por descuido seja intencionalmente, para transformar terrenos de mata fechada em locais de plantio e criação de animais.

"Normalmente, o incêndio tem total relação com bitucas de cigarro, práticas agrícolas inadequadas, que não sejam autorizadas pelo governo, atos religiosos, soltura de balões", diz Ricardo Viegas, coordenador de monitoramento de Fiscalização Ambiental da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. 

"Nas estradas, por exemplo, acontece muito de o motorista jogar o cigarro ainda aceso pela janela. Em um caso recente, um caminhão-cegonha pegou fogo por causa disso e o incêndio acabou se espalhando para a floresta. Em outro, no mês passado, o Parque Estadual da Cantareira teve uma queimada de mais de dois dias só por causa de um balão que caiu por ali."

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Parque Estadual da Pedra Branca, no Rio, em fevereiro: solo seco ajuda fogo a se espalhar

Instalado sobre a cidade de Cuiabá (MT), o satélite do Inpe tem capacidade de localizar qualquer queimada com mais de 30 metros de extensão. Ou seja, casos controlados antes de atingirem a medida não são incluídos na lista de focos de incêndio – caso contrário, os números poderiam ser bem maiores. Em São Paulo, por exemplo, as chamadas de ocorrências de incêndios chegaram a 18.700 em 2014, índice muito superior ao total de 4.606 casos registrados como queimadas pelo Inpe. Em outubro passado, mês mais seco dos últimos 20 anos, a falta de chuvas elevou em 500% o número de casos, segundo a Secretaria do Meio Ambiente.

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Devido aos terrenos irregulares e à mata fechada, o combate ao fogo precisa ser feito, na maioria das vezes, pelo ar, com helicópteros. Foi o que ocorreu no último dia 14, quando a medida precisou ser aplicada no Cantareira para evitar que mais área verde fosse destruída. Em dois dias, o fogo consumiu 30 hectares do parque nacional, o equivalente a 30 mil metros quadrados. O problema é que, uma vez queimadas, as áreas têm difícil recuperação.

"As derrubadas seguidas das queimadas deixam todo o perímetro seco, a área é completamente afetada", afirma João Andrade de Carvalho Júnior, professor-titular do Departamento de Energia da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Campus Guaratinguetá, no interior paulista. Ele faz parte de um grupo de pesquisa responsável por analisar o impacto das queimadas nas florestas brasileiras. "Mais: além de demorar muito tempo para se recompor, quando o verde volta não é aquele que havia antes. Infelizmente."

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