Água de poços domésticos em SP tem alto risco de contaminação por esgoto

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo

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Além de ser imprópria para consumo humano, retirar água do lençol freático pode culminar na contaminação do aquífero

Moradores da zona sul de SP reativam poços desativados há décadas
Maria Fernanda Ziegler/iG
Moradores da zona sul de SP reativam poços desativados há décadas

Todos os dias, a cada novo boletim que mostra a progressiva queda no índice dos reservatórios que abastecem o Estado de São Paulo, a preocupação da população com a iminente falta de água só cresce. Diante da perspectiva nada otimista de uma temporada de chuvas que resolva a situação, muita gente tem optado por reativar poços desativados ou perfurar novos poços no quintal de casa.

A solução, alertam os especialistas, é perigosa. No caso de perfurações deste tipo em áreas urbanas, a probabilidade de água contaminada e imprópria para consumo humano é altíssima. Há um risco de alto de retirar água contaminada por esgoto. “Fora a proximidade com a rede de esgoto, um poço pode interferir no outro e deixar a água contaminada. Outro problema é que esta água de alguma forma contamine a água mais profunda, do aquífero”, afirma o engenheiro hídrico e professor da Universidade Mackenzie, Antonio Eduardo Giansante.

São Paulo: Sem água, população da zona sul recorre a poços desativados

De acordo com o geólogo Reginaldo Bertolo, diretor do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da Universidade de São Paulo (Cepas-USP), a corrida para a construção de poços escavados rasos parece ser um fenômeno mais comum nas áreas periféricas e pobres da Região Metropolitana de São Paulo, onde a água já faltava nas torneiras.

“O usuário de um poço ilegal e mais barato vai ver que a água é aparentemente potável e vai estar se expondo à contaminação. Mesmo assim, está havendo uma corrida maluca até mesmo por empresas de fundo de quintal”, disse.

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Menos profundo, esses poços – conhecidos como cacimba ou caipira –  retiram água do lençol freático, formado pela infiltração da água das chuvas no solo. Geralmente, é mais usado em áreas rurais e não precisam de autorização para perfuração. Com a crise, o que se vê é gente reativando poços usados antes da implantação da rede de esgoto.

"Tem sido comum até mesmo empresas e supermercados optarem por esse tipo de solução que não é segura", afirma o engenheiro Giansante.

E o fato de contratar uma empresa de perfuração não significa que o usuário esteja protegido. Muitas delas também perfuram somente até a altura do lençol freático – chegar até o aquífero exigiria uma obra muito mais complexa e a exigência de autorização do departamente de água do Estado.

Retrocesso civilizatório

Giansante destaca também o risco para a saúde pública caso haja um montante da população que deixe de usar água encanada para usar as águas sem tratamento e proveniente do lençol freático. “A água encanada é historicamente um dos indicativos principais de uma civilização, né? Na redução de mortalidade infantil em São Paulo quando a água passou a ser encanada”, afirma.

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De fato, dados históricos obtidos na Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE) mostram que entre 1970 e 1973, a proporção de domicílios na cidade de São Paulo supridos por água encanada era de 50 a 60%, enquanto os níveis de mortalidade infantil era de 80 a 90 por mil nascidos vivos.

Após uma ampliação do sistema de água encanada o quadro mudou. Em 1985, a cobertura passou a ser de 90% e não coincidentemente a mortalidade infantil cairia para 30 a 40 por mil nascidos vivos. Atualmente, a taxa de mortalidade infantil na cidade é de 11,48 óbitos por mil nascidos vivos.

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