Enquanto cresce número de carteiros em licença devido a traumas, taxistas se recusam cada vez mais a ir à periferia

Não importa se você está vestindo bermuda ou smoking, se fizer sinal com o braço no final da tarde e pedir para ir a alguma área periférica da cidade, ele não vai te levar. Essa foi a regra que Ranael Oliveira Bastos, 39 anos, se impôs para evitar assaltos em São Paulo, onde há sete anos trabalha como taxista nos períodos da manhã e da tarde, ouvindo diariamente histórias de colegas que passaram o terror nas mãos de bandidos por estarem no lugar errado, na hora errada. "A gente tem que falar para o passageiro de uma forma bem esclarecida e muitos acabam entendendo, porque sabem a situação dos bairros onde vivem", explica ao iG . "Somos muito visados porque os bandidos sempre acham que temos dinheiro, celular, GPS, o que não deixa de ser verdade. Então acabamos sendo presas fáceis e o cara fica com a certeza de que sempre que nos abordar vai levar alguma coisa."

Táxis em São Paulo: violência tem levado muitos motoristas a abandonarem trabalho noturno
Luiz Claudio Barbosa/Futura Press
Táxis em São Paulo: violência tem levado muitos motoristas a abandonarem trabalho noturno

Assim como Ranael, profissionais da sua e de outras categorias que têm como função se deslocar ao longo do dia por diversos pontos da Grande São Paulo passam cada vez mais a se recusar a ir a áreas com altos índices de violência, mudando suas rotinas e, muitas vezes, até largando seus empregos por temor de voltarem a sofrer nas mãos de criminosos. É o caso de Ruy (o nome foi mudado a pedido do entrevistado), carteiro dos Correios atualmente em licença médica de seis meses após ter sido vítima de quase duas dezenas de assaltos no período de 14 anos como funcionário da empresa.

"Não me sinto apto a voltar ao trabalho de jeito nenhum, pelo contrário: a sensação é de total insegurança, até porque a situação nas ruas está a cada dia pior, os assaltos estão cada vez mais violentos", desabafa ele, casado e pai de dois filhos, enumerando uma série de histórias que ouviu dos colegas nos últimos meses. "Passo medo todo dia, até para sair de casa. Imagina um sujeito rindo com uma arma na sua cara e dizendo que vai matar o carteiro. Dá vontade de chorar, implorar para o cara não fazer besteira. É muito medo... E o pior é que no outro dia você tem que estar lá de novo, no mesmo lugar."

A primeira ação de bandidos contra Ruy ocorreu em 2004, quando ainda trabalhava como carteiro pedestre. De lá para cá, subiu de cargo, passou a fazer o serviço como motociclista, posteriormente como motorista, ganhou bons aumentos salariais e foi assaltado outras 17 vezes. Todos os casos ocorreram nos bairros Jardim Miriam e Vila Joaniza, ambos no extremo Sul paulistano, região apontada por profissionais como das mais perigosas para se trabalhar no dia a dia.

"Os assaltos ocorreram à tarde mesmo, na frente de todo mundo. E de 2010 para cá eles cresceram muito", conta Ruy, afastado temporariamente dos Correios por estresse pós-traumático, após não ter conseguido superar o último caso em que foi vítima. "Dois moleques me abordaram armados e, quando fui digitar a senha para abrir o baú do carro para eles, ela simplesmente não funcionou. Aí o cara me agrediu, começou a me dar murro na cara, apontou a arma na minha cabeça e falou que ia estourá-la", recorda. "Graças a Deus, por algum motivo, ele desistiu. Virou para mim, deu uma risadinha e disse que eu tinha dado sorte, que ele não me mataria naquele dia. Ele pegou a chave do carro e foi embora, me deixando no chão da rua, largado. Fiquei apavorado."

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De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores da Empresa Brasileira de Correios Telégrafos e Similares de São Paulo, Grande São Paulo e zona postal de Sorocaba (Sintect-SP), nos últimos anos cresceu o número de carteiros que, assim como Ruy, pediram afastamento do serviço devido à questão da violência. Os Correios não fornecem um balanço dos casos sob a alegação de ser uma "medida de segurança", mas a associação dos trabalhadores calcula uma média de 20 assaltos diários a esses profissionais somente na capital paulista.

Carteiros aprovam estado de greve em assembleia na semana passada: eles pedem mais segurança
Sintect-SP/Divulgação
Carteiros aprovam estado de greve em assembleia na semana passada: eles pedem mais segurança

"As pessoas ficaram com maior poder aquisitivo, passaram a comprar muito pela internet e os Correios acabaram absorvendo muitas dessas entregas. Mas os bandidos perceberam que era vantajoso roubá-las pela própria vulnerabilidade dos carteiros", afirma Anderson Pacheco, secretário de anistia do sindicato. Ele cita como locais de maior perigo os extremos Sul (Capão Redondo, Jardim Ângela, Parelheiros, Grajaú e Vila Joaniza) e Leste da capial (Parque São Rafael, Itaquera e Guaianazes), além de parte da região metropolitana com histórico de altos índices de roubos e homicídios. Em cidades de outros Estados, como Rio de Janeiro e Salvador, os crimes também são comuns.

Em nota, os Correios afirmam que "o número de carteiros assaltados é pequeno dentro do total de empregados no cargo, que é de mais de 60 mil". A empresa também disse que tem "adotado medidas de segurança, como o monitoramento e o rastreamento de veículos usados nas entregas e parcerias com órgãos municipais e estaduais de segurança pública, além da criação de um setor para monitoramento de riscos e planejamento de estratégias de segurança em todo o País". Procurada, a Polícia Federal, instituição responsável pela segurança da categoria, não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

Já a Secretária de Segurança Pública do Estado de São Paulo afirmou que "a PM orienta seus policiais a concentrar a atenção e o esforço para combater crimes em ônibus, táxis, carros do correio e entorno de bancos". Também ressaltou que "a Polícia Civil tem investido no setor de inteligência para reduzir a criminalidade, assim como a Polícia Militar tem feito análise de dados criminais para distribuir seu efetivo nos horários e locais de maior incidência criminal".

Muito além do roubo
Os casos não se limitam somente aos assaltos. Relatos de sequestros-relâmpago, nos quais carteiros são colocados nos baús de seus veículos enquanto os bandidos levam a carga para seu destino, também ocorrem com regularidade, de acordo com os profissionais. É o que conta Francisco (o nome foi mudado a pedido do entrevistado), há dez anos motorista dos Correios na região de Cidade Ademar e Americanópolis, na zona Sul. "Enquanto um dirige, o outro fica atrás no baú com você, fazendo ameaças, falando da sua família, te xingando", diz ele. "Por incrível que pareça, a gente começa a achar normal tudo isso, porque vira rotina essa violência. Quando não assaltam ou sequestram, intimidam. Tem algumas ruas que de antemão já sabemos que, se entrarmos, vai acontecer alguma coisa. Mas temos de fazer as entregas."

Assim como Ruy, Francisco, 37 anos, nunca havia sido vítima de violência até se iniciar como carteiro. E, da mesma forma que o colega, desde que começou a trabalhar na função foi assaltado quase duas dezenas de vezes, uma mais traumática do que a outra. Tudo isso acabou levando-o a ser afastado do trabalho pelo mesmo motivo: estresse pós-traumático. "Minha vida ficou insustentável. Fiquei desmotivado, começou a interferir na minha vida pessoal, no relacionamento com a minha esposa. Passei a estourar com qualquer coisa, brigar com os mais próximos. Procurei tratamento porque percebi que as pessoas à minha volta não me viam mais como a mesma pessoa", afirma ele, que toma dois medicamentos por dia para tratar o estresse e a ansiedade. "Cheguei ao meu limite. Particularmente, penso em ir embora para o interior. Só não faço isso ainda porque tenho dois filhos para sustentar e não encontrei uma segunda opção para me dedicar."

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O carteiro confirma que existe, sim, escolta armada fazendo segurança aos profissionais em algumas regiões mais problemáticas, como ressalta os Correios em nota. Mas alega que ela é insuficiente para suprir a demanda. "Um bairro com dez linhas de área de risco tem, digamos, quatro escoltas. Desta forma, as outras seis ficam desguarnecidas. Aí o meliante já sabe onde praticar o crime", explica ele.

Noite pelo dia
Quem também chegou ao limite foi André Xavier de Oliveira, 35 anos. Filho de taxista, o ex-mecânico abraçou a profissão há cerca de dois anos com o intuito de fazer o turno da noite enquanto o pai, proprietário do veículo e dono do alvará, dirigia durante o dia. Mas os três assaltos que sofreu em um período de 15 dias no bairro da Vila Nova Cachoeirinha, zona Norte da cidade, fez com que ele mudasse de planos. Mesmo que signifique gastos extras com diárias e estresse no trânsito, de seis meses para cá André só anda de carro alugado, de frota, e se recusa a voltar para casa depois das 21h, bem mais cedo do que as 3h, 4h da madrugada com que estava acostumado a encerrar o expediente anteriormente.

"Fiquei com muito medo, em choque mesmo. Minha esposa chegou a me aconselhar a largar o táxi, voltar à oficina, até porque eu nunca tinha sido assaltado antes de começar no táxi. Mas eu gosto da profissão, é gostoso dirigir, o tempo passa rápido", conta ele. "Lembro que na época dos assaltos fiquei uma semana sem conseguir trabalhar. Saía de casa e voltava. Era só chegar perto de qualquer passageiro que as pernas começavam a tremer. A mudança de horário ajudou, mas ainda assim dirijo sempre preocupado. Quando vejo moto, o veículo que usaram em todos os assaltos que sofri, ainda mais com garupa, já me bate um desespero."

Presidente do Sindicato dos Taxistas do Estado de São Paulo, Natalício Bezerra afirma que pelo fato de muitos motoristas não poderem recusar corrida – por questões financeiras como pagamento de diárias ou pela possibilidade de serem penalizados com gancho de um ou dois dias por empresas de rádio-táxi – tem sido cada vez mais comum a migração de motoristas noturnos para a parte do dia. "Existe um clima de medo generalizado na categoria", afirma ele. "Temos tido reuniões com as empresas de rádio-táxi para que tentem entender melhor a situação e parem de penalizar aqueles que priorizam a vida em detrimento ao dinheiro dinheiro."

Sem amarras com cooperativas, empresas ou proprietários de táxis, Ranael, por sua vez, não se importa em dizer não a potenciais clientes. Tampouco liga para a possibilidade de sua atitude prejudicar seu faturamento ou mesmo de passar a ser visto como preconceituoso por algumas pessoas. Para ele, a garantia de segurança e o sustento da família com o mínimo possível bastam para seguir cumprindo à risca as regras que impôs. "Estou há sete anos nesta profissão e ela sempre foi de risco. Por qual motivo, então, eu facilitaria agora para os bandidos e aumentaria minhas chances de me dar mal?"

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