Mesmo com investimento de quase R$ 1 bi, SP não melhora índices de perda de água

Por Bruna Talarico - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Estudo produzido pelo Instituto Trata Brasil e divulgado nesta quarta-feira (27) mostra que capital paulista perdeu 36% do que conseguiu faturar com a distribuição em desperdício de água

A crise de abastecimento de água que castiga São Paulo pode até ter como ingrediente principal um agente natural sobre o qual não é possível manter controle: a falta de chuva. De fato, há pelo menos 11 meses consecutivos, a quantidade de água de precipitações que chega às Bacias do rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) é menor que a média mensal histórica. Ao clima desfavorável, no entanto, se soma um fator bastante prático -- e matemático.

Com uma malha hídrica de milhares de quilômetros de extensão e idade média que ultrapassa os 40 anos, a capital paulista apresenta um quadro tecnicamente defasado em relação ao investimento anual no setor. Os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) que foram usados para embasar a pesquisa do Instituto Trata Brasil divulgado nesta quarta-feira (27) são emblemáticos.

Leia mais:

Receio de volume morto faz paulistas evitarem água da Sabesp: 'nem com filtro'

Ministério Público vai investigar crise no Sistema Cantareira

Vereadores paulistanos instalam CPI para investigar contratos da Sabesp

Sabesp tenta ampliar retirada de água da reserva técnica do Sistema Cantareira

Sabesp aposta em clima, mas especialista alerta que água pode acabar em 100 dias

Eles mostram que, apesar do investimento de mais de R$ 970 milhões de reais por ano, a Sabesp, concessionária de serviços de saneamento básico que atende o Estado de São Paulo, apresentou nenhuma evolução na contenção de perdas de água. Cenário igualmente estático é observado nos municípios fluminenses de Nova Iguaçu, São João de Meriti e Duque de Caxias, além da capital Rio de Janeiro.

A diferença é que São Paulo, com 11.376.685 moradores, registra, através da Sabesp, o maior investimento em saneamento do país. Ele é 3,5 vezes maior que o investido pela COMPESA, operadora que abastece Recife, capital com 1.555.039 habitantes e a segunda que mais investe no setor do país: são R$ 276,72 milhões anuais. O Rio de Janeiro, com 6.390.290 habitantes e em terceiro lugar neste ranking paralelo, tem R$ 253,20 milhões aplicados anualmente pela CEDAE.  

a perda de água em sp | Create Infographics

Em 2011 e 2012, a perda da Sabesp foi de 36% em relação ao que conseguiu faturar com os serviços prestados. Isso quer dizer que, a cada R$ 100 arrecadados, R$ 36 foram literalmente para o ralo, usados para cobrir gastos internos com o desperdício. Aqui, cabe uma importante consideração: não se trata do uso de água praticado de forma inconsciente, mas sim de perdas de água que acontecem desde o momento em que o líquido sai da estação de tratamento até a hora em que chega na casa do consumidor.

As causas são tão ordinárias quanto o roubo de água em ligações clandestinas; a falta de hidrômetros em áreas irregulares, como favelas e ocupações, por exemplo; e mesmo vazamentos na tubulação. 

"São Paulo tem milhares de quilômetros de tubulação de água, e grande extensão dela tem mais de 40 anos de vida. Esses canos eram feitos de material metálico, que hoje se encontra em processo acelerado de oxidação. No curto prazo, a solução é resolver o vazamento, mas o longo prazo deveria contemplar a renovação da rede. Do contrário, é apenas enxugar gelo", avalia Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil.

Procurada desde o início da manhã desta quarta-feira (27), a Sabesp ainda não havia fornecido, até o fechamento desta matéria, as informações solicitadas pelo iG. A concessionária tampouco se manifestou quanto às informações divulgadas pelo Trata Brasil.

Sistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia Stavis

Saneamento ainda não é universal

O estudo avaliou a situação do saneamento básico das 100 maiores cidades brasileiras. O critério para este corte foi a população mínima de 250 mil habitantes. A título de contextualização, é nesta centena de municípios que habita 40% da população do Brasil. 

Publicado anualmente desde 2009, o material de 2014 usa informações fornecidas pelas próprias concessionárias ao Governo Federal através do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), vinculado à Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (SNSA), do Ministério das Cidades. O ano base é 2012. 

Um dos resultados mais emblemáticos desta edição, que acontece menos de nove meses após a aprovação do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), é o avanço lento nas questões que envolvolvem a universalização: o pleno acesso a abastecimento de água e a coleta e tratamento de esgoto.

"As cidades estudadas são as 100 maiores do Brasil, e por isso mesmo deveriam puxar o desenvolvimento do país. Mas fizemos uma simulação do que aconteceria com elas no prazo de 20 anos determinado pelo Plansab para a universalização, e das 20 piores no ranking, 19 não conseguirão atingir a universalização", alertou Carlos.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas