Caso Abdelmassih: "Nunca vimos no País um caso como este, com tantas vítimas"

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo |

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De acordo com a delegada Celi Carlota, da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, são quase cem denúncias; só nos últimos dois dias, após a prisão, quatro mulheres procuraram a polícia

Desde que o ex-médico Roger Abdelmassih foi preso novamente, nesta quarta-feira (20), mais uma mulher foi denunciá-lo e outras três ligaram para a polícia. De acordo com a delegada Celi Paulino Carlota, titular da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São Paulo, ao todo são quase 100 denúncias. Se incluir aquelas que apenas ligaram, dá mais de cem. "É inédito. Nunca vimos no País um caso como este, com tantas vítimas”, afirma.

Maria Fernanda Ziegler/iG
Celi Carlota, titular da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, diz que a quase 100 denúncias contra ele

Até agora, o ex- médico responde pelo estupro de 26 vítimas, mas desde que foi preso, em 2011, novas denúncias começaram a aparecer na delegacia que concentra o caso. Por isso, Ceni abriu um segundo inquérito, que deve ser finalizado no próximo mês. Para as novas denúncias que aparecerem agora que o ex-médico voltou para a cadeia, a delegada abrirá um terceiro inquérito.

Ceni acredita que ainda há vítimas que não se manifestaram e elogia a atitude de algumas vítimas que foram ao aeroporto e apareceram na televisão dando nome e sobrenome. “Isso foi muito corajoso, um divisor de águas e inibe novos casos de estupro”, disse. 

Confira entrevista:

iG: As denúncias aumentaram desde que ele foi encontrado, na terça-feira?
Celi Celi Paulino Carlota: Até agora uma mulher veio à delegacia e outras quatro ligaram. Não adianta só telefonar, precisa vir aqui. Acho que há casos que ainda não foram denunciados. Pelo que percebo, a maioria das mulheres ficou com depressão. E a depressão não é tão fácil assim. Muitas mulheres que foram abusadas não comentaram com os esposos. Algumas, quando falaram, tiveram o casamento encerrado. Outras continuaram o tratamento por causa do sonho de ser mãe e por conta de todo o dinheiro gasto. Teve uma que relatou ter gastado R$ 350 mil. Você há de convir que para a mulher vir à delegacia é dificil. A que veio aqui ontem disse: 'depois que relatei, estou aliviada, tenho certeza que vou começar uma nova etapa da minha vida'.

Veja fotos da prisão e transferência de Roger Abdelmassih:

Ex-médico Roger Abdelmassih desembarca no Aeroporto de Congonhas. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura PressTitular da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher diz chegam a quase 100 denúncias contra Roger Abdelmassih. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGO ex-médico Roger Abdelmassih chegou no final da tarde desta quarta-feira (20)em Congonhas. Foto: Divulgação Polícia Federal Policiais vigiaram rotina de Abdelmassih no Paraguai . Foto: Divulgação/Secretaria Nacional Antidrogas do ParaguaiDocumento usado por Roger Abdelmassih no Paraguai . Foto: Reprodução Policiais vigiaram rotina de Abdelmassih no Paraguai . Foto: Divulgação/Secretaria Nacional Antidrogas do ParaguaiPoliciais vigiaram rotina de Abdelmassih no Paraguai. Foto: Divulgação/Secretaria Nacional Antidrogas do ParaguaiRoger Abdelmassih é transferido para o Presídio Tremembé 2. Foto: ReproduçãoEx-médico Roger Abdelmassih deixa o  Aeroporto de Congonhas
. Foto: ReproduçãoAbdelmassih. Foto: ReproduçãoEx-médico Roger Abdelmassih desembarca no Aeroporto de Congonhas. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura PressEx-médico Roger Abdelmassih desembarca no Aeroporto de Congonhas. Foto: ReproduçãoA Polícia Federal projetou possíveis disfarces de Roger Abdelmassih. Foto: Divulgação/ Polícia FederalRoger Abdelmassih, 70 anos, procurado por estupro e abuso sexual. Foto: Reprodução/InterpolRoger Abdelmassih, condenado a 278 anos de prisão. Informações serão recompensadas com R$ 10 mil. Foto: ReproduçãoNa página 'Vítimas de Roger Abdelmassih e Clínica', mulheres compartilham com alegria a prisão do ex-médico (20.08). Foto: Reprodução/FacebookRoger Abdelmassih estava na lista dos procurados da Interpol. Foto: ReproduçãoMédico Roger Abdelmassih lidera lista de foragidos pela polícia de São Paulo. Foto: Futura PressRoger Abdelmassih é preso no Paraguai. Foto: DivulgaçãoRoger Abdelmassih é preso no Paraguai. Foto: Adriano Lima/Futura Press Roger Abdelmassih é preso no Paraguai. Foto: Divulgação Roger Abdelmassih é preso no Paraguai. Foto: ReproduçãoRoger Abdelmassih é preso no Paraguai. Ex-médico era um dos mais procurados do Brasil. Foto: Fotos PúblicasRoger Abdelmassih preso no Paraguai. O ex-médico era um dos mais procurados do Brasil
. Foto: Fotos Públicas  Roger Abdelmassih preso no Paraguai. O ex-médico era um dos mais procurados do Brasil
. Foto: Fotos PúblicasRoger Abdelmassih preso no Paraguai. O ex-médico era um dos mais procurados do Brasil. Foto: Fotos Públicas

iG: Além dos abusos, Abdelmassih também deve ser interrogado por casos de manipulaçao genética. Quais casos são esses?
Celi: Há mulheres que afirmam que o feto morreu e que, mesmo assim, ficaram dois meses com o feto morto dentro da barriga porque ele queria que o aborto fosse espontâneo. Tem mulher que a criança nasceu com Sindrome de Edward [síndrome genética que causa atraso mental, atraso do crescimento e, por vezes, malformação grave do coração] e morreu. Tem mulher que teve gêmeos e a idade gestacional é diferente, o que significa que quando o procedimento foi feito ela já estava grávida. São os tipos de relato que temos.

iG: Quem vai investigar e julgar estes casos?
Celi: 
Existe uma lei de biosseguraça que fala de manipulação genética. O problema aí é que vai ter de analisar caso a caso. Por exemplo, tem denúncia que fala que ele manipulou os óvulos com células de mulheres mais jovens, o que não pode. Há testemunha que falava que trabalhava na clínica e diz que o Abdelmassih fazia experiências. Mas aí são relatos. O indiciamento foi apenas sobre o abuso. Porém, a maioria das mulheres que eu ouvi afirmava que ele fazia o chamado turbinamento com óvulos de mulheres mais jovens.

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iG: Por isso o êxito do trabalho dele? (O médico dizia que a clínica tinha 70% de sucesso nos casos de fertilização)?
Celi:
Sim, talvez por isso ele tenha conseguido tantos casos de sucesso de mulheres que engravidaram.

iG: O fato de ele voltar aos noticiários incentiva que mais denúncias sejam feitas?
Celi:
Sim. Toda vez que este caso volta a ser notícia, as mulheres ligam. O problema é que muitas ligam, mas não vem fazer a denúncia e aí não se concretiza.

iG: Você pretende ouvi-lo novamente?
Celi: Indiciado ele já foi, mas não temos ainda a oitiva [interrogatório] porque ele estava foragido. Agora que ele está preso novamente, a gente vai tentar ouvi-lo sobre estes casos que surgiram depois de ele ser preso. O inquérito não está aqui, está no Fórum, e deve ser encerrado no mês que vem. Se outras mulheres me procurarem agora, vou fazer um novo inquérito, um terceiro. O primeiro inquérito foi relatado em julho de 2009. Foram 61 relatos e 30 e poucas denuncias. Mas após o texto ter seguido para o Fórum, muitas mulheres continuaram relatando e fazendo denúncia. Então é uma continuidade das denúncias. No total são 26 casos.

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iG:Tudo confirmado?
Celi: 
Geralmente eu peço a comprovação de que a mulher fez o tratamento. A prova é que são relatos iguais, de mulheres que fizeram tratamento com ele em diferentes épocas, desde quando ele era residente em Campinas até 2009, quando ele foi caçado. São décadas. Tem mulher que mora na Suíça, na Itália, nos Estados Unidos, no Rio Grande do Sul, no Norte e no Nordeste do País. E ainda por cima, é importante salientar que elas, enquanto estavam na clínica, não conversavam entre si porque ele não deixava. Ele dizia que isso atrapalharia o tratamento, pois relatos de insucesso poderiam desestimular, causar estresse nas outras pacientes. Qual a possibilidade de tantas mulheres falarem a mesma coisa? Os relatos são muito iguaizinhos. O modus operandi, a forma de abordagem, é tudo igual. São quase cem, fora as que não vieram fazer denúncia.

iG: O que você achou das mulheres que foram até o aeroporto na quarta-feira?Celi: Acho importante. Foi um avanço. Elas foram corajosas. Acho um divisor de águas. Inibe novos casos. É a mesma coisa que a Lei Maria da Penha. A Maria da Penha quando denunciou as agressões que sofria, e por ter um nível universitário, e por contar que o marido tentou matá-la por duas vezes, até virou nome de lei. É lógico que uma lei não muda a mentalidade, a gente tem que investir em educação, mas é importante. A partir do momento em que aquelas mulheres foram para a TV denunciar esse médico, acredito que mais mulheres venham. É inédito.

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