Brasil precisa aprender a caçar serial killers, afirma criminologista

Por Beatriz Atihe - iG São Paulo |

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Segundo especialista, é preciso investigação multidisciplinar; no caso de Goiânia, só policiais atuam na elucidação de mortes

A polícia criou uma megaoperação para tentar resolver a série de crimes que assombra a cidade de Goiânia. Até agora, 15 mulheres e um rapaz já foram mortos por motociclistas. O iG entrevistou a criminologista Ilana Casoy, autora dos livros Serial Killer – Louco ou Cruel ? e Serial Killers – Made in Brasil, para tentar entender o que passa na cabeça de um possível serial killer.

Segundo a especialista em criminologia, crimes que envolvem a atuação de um serial killer exigem uma investigação muito mais complexa. "Para uma apuração eficiente, o ideal é que seja criada uma força-tarefa multidisciplinar, em que cada profissional analise os crimes de acordo com a sua perspectiva, na sua área.” No caso de Goiânia apenas políciais estão trabalhando nas investigações.

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As investigações são complexas e a polícia pode utilizar diversos instrumentos para analisar os casos. "Tem episódios que podem ser resolvidos em semanas, outros podem levar meses e outros, às vezes, não são nem solucionados".

A especialista diz que a criação de um banco de dados central ajudaria na solução dos casos, mas esse tipo de ferramenta não é utilizada no Brasil. "A polícia americana é extremamente preparada para fazer esse tipo de conexões. Esse banco central emite um alerta quando existem casos com características muito semelhantes e isso permite que a apuração seja mais eficiente", relata a especialista.

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Divulgação
Ilana Casoy, especialista em criminologia e autora de livros sobre serial killers

Não existe padrão único

Sobre o perfil de quem comete esses crimes, Ilana explica que serial killer é um comportamento criminoso. "Assim como um estelionatário tem de saber enganar e persuadir para agir, um serial killer tem de ter frieza suficiente para cometer assassinatos".

A criminologista conta que cada criminoso tem seu próprio padrão de ação e que nem todos apresentam algum desvio de personalidade. "A maioria dos serial killers com quem eu tive contato não tinham problemas de personalidade ou alguma doença mental. A pessoa, às vezes, pode ser 'só' ruim, não é preciso ser doente para resolver as coisas de forma errada. O comportamento criminoso não define a condição psiquiátrica", explica.

A característica de ser mais inteligente também é um mito quando se fala em serial killers. "Assim como qualquer pessoa, esse tipo de criminoso fica mais experiente à medida em que comete mais crimes, por isso, geralmente, eles deixam mais rastros nos primeiros crimes, mas também não podemos dizer que isso é um padrão", diz Ilana.

Sobre a possível atuação de um serial killer em Goiânia, onde 15 mulheres já foram assassinadas por motociclistas desde janeiro deste ano, Ilana diz que não se pode traçar um perfil sem ter conhecimento de todas as características dos casos, mas uma das hipóteses que pode ser levantada em episódios como esse é a atuação de um spree killer – matador impulsivo (em tradução livre). "As vítimas desse criminoso estão no lugar errado, na hora errada. Ele mata várias pessoas num período de horas, dias ou semanas, e se acalma até precisar matar novamente. Ele pode parar de matar tão rápido quanto começou".

Atualmente, Ilana Casoy é membro efetivo do Núcleo de Antropologia do Direito da Universidade de São Paulo (NADIR) e do  Consultivo da Comissão de Política Criminal e Penitenciária da OAB SP. 

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