Polícia muda estratégia para intimidar e evitar nova onda de protestos

Por David Shalom , iG São Paulo |

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Práticas de cercar manifestantes para impedir passeatas, revistar militantes e tirar fotos têm sido intensificadas pela PM

Contingente desproporcional, câmeras fotográficas escancaradas, militantes cercados, revistas arbitrárias, prisões sem explicação. Nas últimas semanas, ficou clara a mudança na estratégia de agir da Polícia Militar em manifestações, principalmente após o início da Copa do Mundo no País. Antes violentas e desorganizadas com vistas a dirimir os atos de rua, as ações da PM se tornaram calculadas no intuito de intimidar manifestantes mesmo antes de os protestos começarem e evitar que simpatizantes se juntem a eles.

A análise do iG conta com embasamento de especialistas, militantes de movimentos sociais e advogados, todos presentes nos recentes protestos na capital paulista, que, apesar de pouco expressivos em número de pessoas, têm escancarado uma tensão crescente entre os profissionais do Estado e os civis que contestam seu poder. Tal característica pôde ser constatada em cidades como Belo Horizonte e São Paulo já no início do Mundial - e só tem ganhado força nas duas últimas semanas. 

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“Antes a PM tinha uma atuação mais agressiva. Agora, o policiamento é mais ostensivo, mais rígido, mais bem treinado e feito por intimidação”, analisa a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Esther Solano Galego, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madrid. “Isso tem gerado um momento de risco, porque o ambiente ficou mais tenso, as manifestações se tornaram estranhas. O diálogo que antes existia praticamente não existe mais. O clima mudou muito, tornando os protestos menos toleráveis e mais propícios à violência.”

Desde o último dia 19 de junho, quando uma manifestação do Movimento Passe Livre sem a presença da Polícia Militar terminou em quebradeira de concessionárias de veículos na zona sul paulistana, a estratégia apenas se intensificou. Em um protesto pacífico na Avenida Paulista, no dia 23 de junho, a PM levou centenas de homens de tropas de elite, incluindo muitos trajados com modernas armaduras apelidadas de trajes Robocop, para cercar totalmente os manifestantes em uma pequena área da via, onde os revistaram, filmaram e fotografaram. 

Veja imagens do protesto do MTST, em maio, que reuniu 15 mil pessoas em SP:

Manifestantes caminham à Marginal Pinheiros em protesto convocado pelo MTST, na quinta-feira (22). Foto: Futura PressCerca de 15 mil pessoas participaram da manifestação, segundo a PM. Foto: Futura PressManifestantes avistando a Ponte Estaiada Octávio Frias Filho, na Marginal Pinheiros. Foto: Facebook/ReproduçãoManifestantes se aproximam da Ponte Estaiada Octávio Frias Filho, na Marginal Pinheiros. Foto: Facebook/ReproduçãoManifestantes atravessam a Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, na noite desta quinta-feira (22). Foto: Facebook/ReproduçãoProtesto teve início no Largo da Batata, na zona oeste da capital paulista. Foto: Facebook/ReproduçãoDe lá, os manifestantes partiram em direção à Marginal Pinheiros. Foto: Facebook/ReproduçãoO objetivo do grupo era chegar à Ponte Octávio Frias Filho, símbolo de um dos pólos financeiros da capital. Foto: Facebook/ReproduçãoFoi terceiro ato contra o Mundial às vésperas da Copa do Mundo. Foto: Manifestação MTST - 22-05-2014Manifestantes fecham pista da Faria Lima em caminhada rumo à zona sul de SP. Foto: Facebook/ReproduçãoNúmero de participantes aumentou ao longo do protesto; estimativa inicial de 2 mil subiu para 15 mil ao fim da manifestação. Foto: Facebook/Reprodução

Após horas, os militantes foram liberados para uma curta passeata, cuja paz foi encerrada na dispersão do ato, com a prisão de dois jovens em suposto flagrante por organização criminosa e incitação à prática de crime. A ação foi exaltada pelo secretário de segurança pública, Fernando Grella, como a primeira prisão no Estado de black blocs (tática segundo a qual militantes agem na linha de frente dos protestos, confrontam a polícia e quebram símbolos do capitalismo), apesar de no ano passado outros militantes terem sido presos em São Paulo sob a mesma acusação.

“É a resposta da lei a esses indivíduos [...] Eles estavam organizando atos de violência, por isso foram autuados em flagrante”, disse Grella pouco depois de Fábio Hideki Harano, 26 anos, e Rafael Marques Lusvarghi, 29, serem presos. Reforçando a intimidação a outros militantes, dois dias depois o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) converteu as prisões em flagrante em prisões preventivas, rejeitando os pedidos de liberdade provisória das defesas. Lusvarghi aguarda julgamento no 8º Distrito Policial da cidade, na zona leste da capital, enquanto, a pedido da Secretaria de Segurança Pública, Harano foi transferido no início da semana retrasada à penitenciária do Tremembé, a 147 km da cidade.

“Meu irmão sempre dialoga e nunca utilizou a tática black bloc”, contesta Alexandre Y. Harano, irmão de Fábio, preso na escadaria da Estação Consolação do Metrô por supostamente ter sido flagrado portando explosivos em sua mochila. “A mentalidade dele em relação a confrontos sempre foi a de resistir em campo, fazendo questão de ficar no local para simbolizar a resistência à ideia defendida. Mas ele nunca fez nenhum ato mais violento além de permanecer em pé.”

Líder da Pastoral da Rua da Arquidiocese de São Paulo, Padre Júlio Lancelotti foi uma das testemunhas que acompanharam o momento da prisão de Fábio – registrado em vídeos divulgados nas redes sociais. “Vimos os policiais revirando a mochila dele: tinha uma máscara de gás, uma garrafa de vinagre, objetos pessoais e um salgadinho sabor pimenta. Se tivesse um explosivo, um rojão, sem dúvida teríamos visto”, conta Lancelotti. “A estratégia de abafamento dos protestos está se tornando sufocante. É um claro trabalho que visa a colocar medo em outros manifestantes a fim de fazê-los evitarem as ruas."

Com apoio de professores da Universidade de São Paulo (USP), movimentos sociais e ativistas, foi iniciada há algumas semanas uma campanha pedindo a soltura dos acusados. Entidades internacionais como a Human Rights, de defesa aos direitos humanos, e até o Greenpeace, se juntaram aos críticos. É defendida a tese de que as prisões foram forjadas. “Meu irmão está sendo utilizado como bode expiatório para intimidar novas manifestações”, diz Alexandre. “Os dois foram pegos para a polícia mostrar a uma parcela da sociedade que está atuando, reprimindo os supostos vândalos, que aparentemente nada fizeram de criminoso”, concorda Esther.

Na terça-feira (2), foi organizado um amplo debate sobre o tema na Praça Roosevelt, na região central da capital paulista. Apesar de não ter característica de manifestação e novamente contar com a presença de poucas centenas de pessoas, mais uma vez a PM se posicionou de forma a cercar os manifestantes e intimidá-los na prática de protestar, com fotografias, revistas e ao menos seis detenções de curta duração, duas delas de advogados ligados ao grupo Advogados Ativistas – grupo de profissionais que defende pessoas presas em protestos e treina Observadores Legais para fazerem relatórios sobre as arbitrariedades cometidas pela PM nos atos.

“A ação da polícia tem sido brutal”, diz o advogado ativista Igor Leone. “Os policiais não têm reprimido as manifestações, eles simplesmente não as deixam acontecer. Fazem o que chamamos de ratoeira, que é basicamente um cordão de homens fortemente armados para impedir a aproximação das pessoas. Isso mesmo que o próprio manual da PM proíba esse cerco.”

Ana Flávia Oliveira/ iG São Paulo
Integrantes do MTST se reúnem em frente à Câmara Municipal de São Paulo, na terça, 24/6

Mariana Toledo, militante do MPL, continua: “As práticas se tornaram realmente mais ostensivas, com caminhões do Choque, cavalaria. Na terça, organizamos o que visivelmente era um debate e os policiais revistaram todo mundo, pegaram os nomes, filmaram. É uma repressão que visa a acabar com qualquer tentativa de se organizar e debater.” Ela exemplifica a mudança de ações citando uma estratégia usada três dias após a prisão dos militantes, no dia 22, na Avenida Paulista. “Naquele dia, a polícia não queria sequer liberar a passeata caso não apresentássemos uma liderança. Isso não costumava acontecer, até porque manifestação não tem de ter liderança e muitas vezes realmente não tem.”

Se o intuito é esvaziar os protestos, aparentemente o objetivo está sendo atingido. Antes bastante exaltadas, as manifestações de rua voltaram a ser nos últimos meses nichos específicos para militantes de longa data, a maior parte deles envolvida com movimentos sociais. Para os entrevistados, as ações repressivas e intimidatórias foram e continuam sendo as principais responsáveis por afastar pessoas sem grande engajamento político das ruas. Como define Toledo, “quanto maior o risco, maior a chance de a pessoa ficar em casa”.

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“E isso só tem se intensificado, principalmente depois das depredações do dia 19. Existe um desequilíbrio total entre o número pequeno de manifestantes e a presença maciça da polícia", diz Esther.

“Mesmo dentro do MPL ou de outros movimentos, onde as pessoas são bem decididas em relação a ir às manifestações, várias pessoas ficam apreensivas, se sentem intimidadas. Até porque, da próxima vez, o preso pode ser um de nós", conta Toledo, que viu um de seus colegas detido no debate de terça-feira, além de conviver com o fato de que 22 deles estão atualmente sob investigação da Polícia Civil. 

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública não se pronunciou sobre o assunto.

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