Após atuar em 300 pornôs, ator vira pastor: 'Nunca me senti bem nos filmes'

Por David Shalom , iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Giuliano Ferreira chegou a receber até R$ 15 mil por mês para atuar; hoje, garante se sustentar com 10% do que ganhava

Giuliano Ferreira ganhou prêmios, fama e dinheiro. Dez anos atrás, era considerado o mais bem sucedido ator brasileiro em filmes pornográficos dentro da milionária indústria de sexo explícito mundial. Viveu na Europa, conheceu mulheres, usou drogas. Hoje, é pastor e tem daquela época apenas lembranças. Reminiscências que o levaram a lançar, em abril, a autobiografia Luz, Câmera e Transformação, na qual conta histórias sobre os sete anos de exposição frente às câmeras, período em que atuou em cerca de 300 filmes.

Facebook/Reprodução
Com 35 anos e alguns quilos a mais, Giuliano Ferreira congrega em igreja no interior paulista

“Foi meio difícil no começo aceitar o que eu estava fazendo, até porque fui criado na ideologia cristã”, conta ao iG o paulistano de 35 anos que atualmente vive na pacata São Carlos, no interior do Estado, com a mulher, o filho de 18 anos e o enteado de 19. “Segundo a igreja, o que eu fazia era uma espécie de prostituição. E, por incrível que pareça, convivi naqueles anos todos com o desconforto, vivendo um personagem. Não cheguei a me acostumar com a situação. No meu interior, nunca me senti bem atuando.”

A entrada no fechado mercado pornográfico se deu por acaso, quando Ferreira deixava a adolescência. Com a namorada, na época com 15 anos, o hoje pastor acabou se tornando pai precocemente, aos 17. Como a companheira era muito nova, repentinamente se viu na urgência de precisar trabalhar para sustentar o filho. Homem de grande porte, acabou conseguindo um emprego como stripper de boates na noite paulistana.

“Eu estava fazendo um show em uma casa e uma equipe foi fazer filmagens ali. Do nada, um produtor me viu e fez um convite para eu participar da gravação. O cachê era pequeno, cerca de R$ 200 na ocasião, mas topei e acabei me sobressaindo entre os outros atores. Naquele dia entrei no mercado”, recorda.

Divulgação
Montagem mostra período atual e época em que Ferreira atuava no mercado pornográfico

As coisas não foram tão simples no início. Os filmes brasileiros pagavam mal. Devido aos cachês cerca de 15 vezes superiores aos de trabalhos com mulheres, Ferreira chegou a atuar em filmes voltados para o público GLS, malvistos entre profissionais da indústria para heterossexuais. Foram nove produções ao lado de homens ao longo de quatro meses, todas até hoje vistas com incômodo por ele, que nunca falou a respeito do assunto com a família.

Com o tempo, no entanto, o então ator em início de carreira foi ganhando projeção. Os lucros, antes minguados, logo pularam para R$ 1.500, R$ 2.000 por cena, com um ritmo de até quatro gravações semanais, a maioria na Europa. Filmou em 12 países nos sete anos de mercado; passou temporadas de até meio ano na Espanha, Rússia, Hungria e República Tcheca. Foi indicado na categoria melhor ator do AVN Awards, o Oscar da indústria pornográfica, e premiado como principal nome do gênero na América Latina. A ascensão meteórica, porém, não o satisfazia. Giuliano se envolveu com álcool e toda sorte de drogas – maconha, cocaína, ecstasy – para, como diz, "fugir da realidade".

Mesmo insatisfeito com o cotidiano e já casado com a mulher com quem vive há 12 anos, foi apenas após um problema de saúde que Ferreira repensou sua trajetória. Uma década atrás, teve uma infecção em um dente que acabou se espalhando pelo corpo, atacando rins e pulmões. Para os médicos, conta, eram grandes as chances de aquilo ser o fim. “Minha mãe e minha mulher rezaram, acharam que a fé poderia resolver. E, naquela noite, tive uma experiência sobrenatural. Deus literalmente falou comigo, dizendo: ‘Filho, chegou a hora de você fazer a minha vontade’. Repentinamente, para surpresa dos médicos, despertei do coma induzido em que me encontrava havia cinco dias. E decidi parar com tudo”, conta.

Divulgação
O hoje pastor na época em que atuava em filmes pornográficos, uma década atrás

“As pessoas com quem eu convivia, daquele meio, acharam que era uma loucura a minha decisão. Eu tinha contrato, atuava na Europa, dirigia filmes para uma empresa no Brasil, estava realmente no auge. Poderia atuar tranquilamente até os 40, 43 anos, construir um legado, garantir uma aposentadoria confortável. Mas eu não queria mais saber, tinha de mudar de vida. Vendi uma casa e um carro para pagar as multas rescisórias e, como sustento, arrumei emprego na recepção de um hotel. Estava finalmente livre daquilo que me fazia tão mal.”

Do cotidiano repleto de luxos e mulheres, Ferreira passou a levar uma vida simples. Hoje, diz que seu sustento vem todo da venda dos DVDs na loja mantida em seu site oficial. É na página também que o livro com os detalhes sobre a carreira na indústria pornográfica, lançado de forma totalmente independente em abril, é vendido, por R$ 19,90. Por enquanto, apenas 400 exemplares foram comercializados. Ainda assim, garante não receber “nenhum centavo” da igreja onde congrega desde 2009 – a Assembleia de Deus. Segundo ele, seu salário atual é cerca de 90% menor do que o de dez anos atrás.

Ferreira afirma não se incomodar com suas decisões. Isso inclui aquela que sacramentou seu fim como astro pornô, mas também a outra tomada anos antes, quando resolveu expor sua intimidade a um público ávido por sexo em três centenas de produções.

“Claro que me arrependo de algumas situações. Hoje, mais de 15 anos mais velho, talvez agisse de forma diferente. Mas não é algo que fico remoendo de maneira alguma, até porque fez parte da minha vida, da minha história, de uma forma muito natural”, diz. “No final, tudo o que fiz serviu de bagagem e experiência para chegar onde estou.”

Leia tudo sobre: ator pornôgiuliano ferreirapastor

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas