Fim da Copa do Mundo pode abalar poder de negociação do MTST

Por David Shalom , iG São Paulo |

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Sem visibilidade do Mundial, autoridades tendem a ver de forma menos urgente reivindicações do movimento, diz pesquisadora

Principal protagonista das manifestações de 2014, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) não deve mudar sua forma de organização e atuação no País, mas as negociações com as autoridades governamentais devem sofrer abalos após o término da Copa do Mundo. Quem faz a avaliação é dra. Débora Cristina Goulart, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) cuja tese de doutorado aborda o movimento com quase duas décadas de atuação em grandes centros urbanos brasileiros.

Bairro nobre de SP: Integrantes do MTST ocupam terreno no Portal do Morumbi

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Manifestantes caminham em São Paulo em protesto convocado pelo MTST no dia 22 de maio

“É bastante possível que haja mais dificuldades em relação a isso, que exista a tendência de a rapidez e o atendimento às reivindicações do movimento diminuírem e serem mais arrastadas sem a visibilidade midiática trazida pelo Mundial no Brasil”, afirmou Goulart em entrevista ao iG. “Tudo vai depender do grau de apoio que eles vão manter junto à população e da habilidade para negociar suas pautas.”

Se no ápice das chamadas jornadas de junho se tornou comum a presença de milhares de manifestantes em passeatas reivindicando suas demandas, em 2014, o ano do Mundial, isso mudou. Protestos pipocaram por todos os lados, mas atraindo poucas centenas, por vezes dezenas, de pessoas a atos com bandeiras difusas. Foi nessa conjuntura que o MTST, com demandas claras, acabou se destacando como o único movimento que não só se manteve forte, como conseguiu crescer ainda mais no período.

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Nas semanas que antecederam a abertura do Mundial, manifestações do movimento assustaram autoridades por sua dimensão ao levar às ruas entre 10 mil e 20 mil pessoas, número crescente a cada ato. Exatamente sete dias antes do início do torneio, militantes sem-teto guiados pelo poder da retórica de Guilherme Boulos, um de seus principais coordenadores e principal porta-voz, bloquearam totalmente a Radial Leste, principal meio de ligação da região central à zona leste paulistana, e caminharam até a Arena Corinthians com o discurso de que os protestos se tornariam ainda mais radicais caso suas demandas não fossem atendidas. Temerosa com a ação do movimento durante a principal vitrine de seu mandato, a presidente Dilma Rousseff resolveu fazer um acordo com o grupo em troca da suspensão das grandes manifestações ao longo da Copa do Mundo. O que só funcionou por um breve um breve período.

Boulos: Coordenador do MTST afirma que protestos serão intensificados durante a Copa

“O MTST se organiza como um movimento nacional, atualmente presente em sete Estados do Brasil com a mesma linha de atuação, de luta por moradia digna, reforma urbana, organizando, sempre que necessário, ocupações de terras e fazendo pressão sobre o poder público para garantir os direitos sociais”, disse ao iG Boulos. “O que está claro para nós é que não existe conquista sem luta. Se as pessoas não se mobilizam, se não vão às ruas para exigir os seus direitos, esses direitos não vêm magicamente.”

“A grande diferença do MTST em relação a outros movimentos é que sua pressão permanece, ela é constante. Dura uma semana, um mês, um ano, porque existe uma base muito organizada para isso”, continuou Goulart. “Por exemplo, o que saiu de concreto em relação a junho? Nada. E as manifestações arrefeceram, se tornaram pontuais e esvaziadas. Só permaneceu organizado quem já estava organizado. E é justamente o grupo com essa característica que consegue conquistar as demandas exigidas.”

Prova disso foi o retorno do movimento às ruas após uma pequena pausa de poucas semanas. Enquanto, na última terça-feira (27), boa parte da população trabalhava ou estudava com um olho nos lances das partidas que definiram as eliminações de Itália e Inglaterra da Copa do Mundo 2014, integrantes do movimento se aglomeravam alheios aos jogos em frente à Câmara Municipal para pressionar os vereadores paulistanos a aprovar o Plano Diretor da cidade – projeto que estabelece diretrizes urbanísticas para o planejamento do município nos próximos 16 anos, de enorme interesse para o movimento.

Ao longo dos últimos seis dias, centenas acamparam em frente à Casa, pressão feita concomitantemente a encontros de coordenadores do MTST com lideranças políticas e até com o governador do Estado, para apresentar demandas e reivindicações. A pressão surtiu efeito, com os vereadores retomando os debates acerca do tema, no qual estão inseridos pontos sobre uso de terrenos para construção de moradias populares, principal bandeira dos Sem-Teto. O plano é previsto para ser aprovado nesta segunda-feira (30).

“Se o MTST não fizesse ações como estas, suas demandas jamais iriam para frente”, analisou Goulart. “Junte todas as conquistas do MTST e você verá que elas aconteceram sempre depois de grandes mobilizações, de grandes ocupações. Desde que se fortaleceu enquanto movimento, em 2001, não houve sequer um ano em que eles não organizaram ocupações. Eles se organizam para fazê-las num primeiro momento e depois, quando as pessoas são retiradas dos terrenos, seguem se organizando para novas ações por novas demandas.”

Integrantes do MTST se reúnem para protesto em frente à Câmara Municipal de São Paulo, nesta terça-feira (24). Foto: Ana Flávia Oliveira/ iG São PauloIntegrantes do MTST no segundo ato para pressionar pela aprovação do Plano Diretor em menos de uma semana. Foto: Facebook/ReproduçãoIntegrantes do MTST erguem barracas na frente da Câmara Municipal de São Paulo, nesta terça-feira (24). Foto: Facebook/ReproduçãoGrupo ameaça ficar acampado no local até que o Plano Diretor seja aprovado. Foto: Facebook/ReproduçãoIntenção do protesto é pressionar vereadores a votar o Plano Diretor da cidade. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloManifestantes montaram barracas de lona em frente à Casa. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloNúmero de manifestantes foi crescendo ao longo da tarde. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloMovimento quer que área da ocupação Copa do Povo, na zona leste, seja incluída como terreno para construção de moradias populares. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloProtesto tenta acelerar votação do Plano Diretor, que estabelece diretrizes para planejamento da cidade. Foto: Facebook/ReproduçãoSem-teto chegam ao Viaduto Jacareí, onde fica a Câmara Municipal de São Paulo, nesta terça-feira (24). Foto: Facebook/ReproduçãoBarracas de lona que caracterizam ocupações do MTST são erguidas em frente à Câmara Municipal de SP, nesta terça (24). Foto: Facebook/ReproduçãoÉ o segundo protesto do movimento na cidade em apenas uma semana. Foto: Facebook/ReproduçãoManifestantes do MTST se reúnem antes do ato na Praça da República, próxima à Câmara. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo

Origens

Apesar de ter ganhado relevância nacional principalmente nos últimos meses, o MTST é um movimento antigo. Nascido como um braço do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, o grupo realizou sua primeira ocupação em Campinas, no interior paulista, em 1997. Mas foi desde 2001, com uma ocupação em Guarulhos, na Grande São Paulo, que o movimento passou a reivindicar sua autonomia, sem filiação com partidos – o MST é historicamente ligado ao PT - e com estratégias próprias, voltadas para os grandes centros urbanos.

“Uma ocupação urbana tem características muito particulares. Não dá para você pegar o know-how da ocupação rural e transferi-lo para a cidade. Não funciona”, explicou Boulos. “Dessa forma, o MTST aprendeu a realizar ocupações e a promover suas lutas fazendo, como outros tantos movimentos.”

O primeiro grande boom do grupo, no entanto, veio após a eleição de Luís Inácio Lula da Silva para presidente, quando o MTST subitamente se afastou dos parceiros Sem-Terra por causa de discordâncias relacionadas ao governo petista e passou a ganhar apoio de dissidentes insatisfeitos com o partido, àquela altura pela primeira vez na situação de governo federal. De lá para cá, passou a se organizar não só para realizar ocupações, mas para tornar seus militantes, muito além de pessoas sem uma casa própria para morar, em figuras com conhecimento político e embasamento para se engajar nas lutas propostas.

Militante dos Sem-Teto praticamente desde a formação do grupo, Boulos, por exemplo, está longe do perfil da maioria da coordenação do movimento. Segundo Goulart, além dele, psicanalista com formação em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), apenas “duas ou três pessoas das coordenações estaduais possuem graduação em ensino superior”. “A coordenadoria é formada na maioria por mulheres humildes, mães de família e trabalhadoras. Mulheres que já haviam atuado anteriormente em igrejas ou sindicatos e acabaram se destacando nas organizações dos acampamentos, ganhando respeito dos acampados e topando se dedicar a essas funções”, disse Goulart.

“O Guilherme tem importância por ser uma pessoa articulada, mas nas reuniões do movimento há pessoas com formação política tão importante quanto a dele, mas sem a mesma visibilidade. O que ele possui é um discurso e uma escrita com grande poder de retórica, o que lhe dá respeito interna e externamente. Mas, do movimento para dentro, ele não é nem de longe a pessoa mais importante, pois, se não fossem esses diversos coordenadores estaduais e de acampamentos, o Guilherme não teria sequer o que falar em seus discursos.”

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Mais de 20 mil famílias

A organização do movimento passa por diversos aspectos. Em uma fase preliminar, ela planeja qual terreno ocupar e como fazê-lo, sempre baseada em estudos preliminares que indicam áreas irregulares não utilizadas da forma apropriada – caso da Copa do Povo, no extremo leste de São Paulo, terreno teoricamente voltado para fins industriais, mas não utilizado para isso. Passada a ocupação, articulada por coordenadores do grupo, é feita a organização dentro da própria, na qual são divididas tarefas de limpeza, cozinha e segurança, além de serem impostas regras para evitar problemas internos, como a proibição de violência doméstica e o uso de entorpecentes. Em caso de reincidência, a coordenadoria pode até expulsar aqueles que cometerem tais irregularidades.

Atualmente, segundo Boulos, há um total de mais de 20 mil famílias instaladas nas “entre 15 e 20 ocupações” do movimento só na Grande São Paulo, boa parte delas oficialmente vivendo em residências nas quais não conseguem pagar o aluguel. Pessoas que normalmente passam os dias da semana sob as precárias barracas de lona montadas nos terrenos e que aos fins de semana retornam às suas casas ou de seus familiares na esperança de algum dia conseguir o lar próprio, sempre deixando alguém na ocupação para garantir seu espaço. E, com o aumento dos preços imobiliários como consequência do anúncio da Copa do Mundo no Brasil, tal situação se agravou.

Dessa forma, além da consciência popular de que é possível ter ganhos com protestos - fruto principalmente da vitória do Movimento Passe Livre de conseguir abaixar a tarifa dos transportes públicos no ano passado -, o MTST acabou crescendo lado a lado com os problemas financeiros de famílias carentes, consequência da especulação imobiliária especialmente em regiões próximas a estádios de cidades-sede. “Um exemplo disso é que quase todos os ocupantes da Copa do Povo já viviam na região de Itaquera antes de a ocupação ser instalada”, diz Boulos. “Desde o anúncio de que a abertura da Copa seria lá, o aumento do aluguel foi de mais de 150%, e o salário não aumentou nessa proporção. Então, você tem pessoas que antes ganhavam salário mínimo e pagavam R$ 250 mensais que hoje ganham a mesma coisa e pagam R$ 600. Isso é insustentável. Para essas milhares de pessoas, a ocupação se tornou a única alternativa.“

É a bandeira da luta por moradia aos mais pobres que tem atraído tantos ao movimento, de intelectuais a jovens estudantes, de sindicatos a outros movimentos sociais, sedentos por apoiar uma causa com objetivos claros. E são essas pessoas que ajudam o MTST a arrecadar o dinheiro necessário para manter o funcionamento de suas ocupações, onde todas as refeições são divididas, e, naturalmente, para sustentar as mobilizações. “Como o movimento não cobra dos ocupantes, são necessárias doações, não só financeiras, como de materiais. É um trabalho também feito nos bairros do entorno dos terrenos, o que leva um tempo, já que num primeiro momento a vizinhança não gosta muito das ocupações, mas depois acaba estabelecendo uma ligação com as pessoas presentes nelas, pois é convidada para uma série de eventos, ações culturais e atos para esclarecer causas políticas”, explicou Goulart.

E é justamente esse apoio popular que evita o MTST de cair na armadilha de outros movimentos sociais menores, frequentemente alvos de truculência por parte das forças de segurança pública durante manifestações de rua. “Com eles não acontece o enfrentamento porque bater em jovem gritando para não ter Copa é visto de uma forma; agora, bater em movimento organizado lutando por moradia complica um pouco mais, porque é uma necessidade que boa parte das pessoas percebe e os governos não querem correr o risco de ver uma reviravolta na opinião pública”, afirmou a pesquisadora.

A dúvida que fica é se essa realidade se manterá ao fim do Mundial e, principalmente, passadas as eleições deste ano, que podem colocar o movimento novamente no obscurantismo de tempos atrás.

“Não acho que até as eleições exista um clima favorável para se reprimir um movimento organizado", disse Goulart. "Mas, na atual conjuntura, passado esse período, me parece concreta a possibilidade de uma situação de confronto com a polícia. Basta observar o que ocorre em outros protestos menores. Só não aconteceu ainda  com o MTST devido à sua visibilidade, ao tamanho do movimento. O que pode mudar.”

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