Com a bola rolando, protestos mudam de foco e pedem libertação de presos em atos

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo | - Atualizada às

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Dois manifestantes foram presos em último ato contra a Copa do Mundo realizado em São Paulo, no dia 23 de junho

Desde o começo do ano, muitas cidades brasileiras foram sacudidas por manifestações contra a realização da Copa do Mundo de futebol no País. No entanto, com a bola rolando e o evento sendo elogiado, os manifestantes que até há pouco tempo gritavam a plenos pulmões “Não vai ter Copa” mudaram o foco e agora lutam pela libertação de dois ativistas presos em atos.

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Os primeiros protestos contra a Copa chegaram a atrair milhares de pessoas e prometiam ser uma releitura dos atos realizados em junho do ano passado contra o aumento das tarifas dos transportes públicos. Hoje, no entanto, mobilizam poucas centenas de pessoas e têm históricos de depredações e repressão policial, o que segundo as lideranças, afastou os manifestantes.

Fernando Nascimento/Futura Press
Concentração do Vão Livre do Masp. Agentes da Tropa de Choque cercaram manifestantes no sentido Consolação

De acordo com o coletivo Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa - que esteve à frente dos 11 atos realizados em São Paulo desde 25 de janeiro deste ano -, as manifestações continuam mesmo após a “derrota” com realização da Copa.

“O coletivo nasceu nas ruas e nunca sairá das ruas. A pauta que estamos focados agora é a libertação dos presos políticos, presos com flagrantes descaradamente forjados em um ato que terminava pacificamente”, disse um porta-voz do coletivo que não se identificou ao responder às questões da reportagem por meio da rede social Facebook.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o professor de inglês Rafael Marques Lusvarch, de 29 anos, e o técnico em laboratório da USP Fábio Hideki Harano, de 26 anos, foram presos em ato contra a Copa realizado no dia 23 de junho, na avenida Paulista, região central de São Paulo. Eles foram indiciados por incitação ao crime, associação criminosa, resistência, desobediência e posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, e permanecem detidos.

O primeiro ato pela libertação dos ativistas aconteceu na última quinta-feira (26) em frente ao Masp, na avenida Paulista. Os manifestantes foram cercados por homens da Tropa de Choque da PM, que impediu que o protesto se deslocasse. O próximo está marcado para acontecer nesta terça-feira (1º), às 18h, na praça Roosevelt, região central de São Paulo.

Derrota?

Responsáveis pelos adesivos vermelhos com a frase “Não Vai Ter Copa”, os membros do Território Livre, grupo de extrema esquerda formado nos corredores da Universidade de São Paulo (USP), dizem que a realização dos jogos é considerada uma derrota.

“A gente se colocou na tarefa de barrar a Copa. O objetivo era dar vazão a uma revolta que tinha na sociedade. Queríamos manter as ruas quentes para dar entrada para classe trabalhadora, a única capaz de barrar a Copa. É evidente do que era nosso interesse e não fomos vitoriosos. Mas certamente as greves dos garis (em março, no Rio de Janeiro), dos trabalhabores de ônibus (em maio, em São Paulo), dos metroviários (no começo de junho, em São Paulo) mostraram que estávamos no caminho certo. Mesmo que não tenha atingido nosso objetivo, a gente acertou e saiu desse processo fortalecido para as lutas, porque os problemas do Brasil não são só os relacionados à Copa” diz o pesquisador em filosófia e membro de Território Livre Rafael Padial, de 26 anos.

Para o porta-voz do coletivo Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa, os atos fortaleceram o movimento. “A luta, sem dúvida não terminaria na Copa, assim como não começou nela. Não nos sentimos derrotados porque articulamos um grupo grande de lutadores e de pessoas que mostraram nas ruas que são de confiança. Saímos mais fortes do que entramos”.

Já o ativista Paulo Spina, 34 anos, do Fórum Popular da Saúde, organização que também atuou massivamente na realização dos protestos, as palavras de ordem se resumiram apenas ao “não vai ter Copa” e deixaram para trás o “se não tiver direitos”.

“Os protestos são uma crítica aos gastos da Copa. Mas, por outra lado, tem a questão dos direitos sociais. E nesse ponto, de chamar a atenção para uma Copa que não foi consentida por parte da população, os atos cumpriram bem o seu papel.”

Pautas específicas

O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, que pegou carona na insatisfação pela realização da Copa do Mundo para reinvidicar pautas específicas na área de moradia, avisa que os protestos, ocupações e mobilizações continuarão. O movimento é responsável pela ocupação Copa do Povo, que abriga cerca de 5 mil pessoas na região de Itaquera (zona leste), próximo à Arena Corinthians, onde são realizadas as partidas em São Paulo.

“A Copa da Mundo é um sucesso para quem? O fato de aeroportos e obras de infraestrutura estarem funcionando era esperado. Criou-se um mito de fracasso e caos em torno na Copa, mas isso nunca esteve colocado de fato. A Copa representou e continua representando um foco de especulação imobiliária e trouxe um legado de militarização e captura de recursos públicos pelas empreiteiras”, diz Guilherme Boulos, membro da coordenação do MTST.

Veja imagens do protesto do MTST, em maio, que reuniu 15 mil pessoas em São Paulo:

Manifestantes caminham à Marginal Pinheiros em protesto convocado pelo MTST, na quinta-feira (22). Foto: Futura PressCerca de 15 mil pessoas participaram da manifestação, segundo a PM. Foto: Futura PressManifestantes avistando a Ponte Estaiada Octávio Frias Filho, na Marginal Pinheiros. Foto: Facebook/ReproduçãoManifestantes se aproximam da Ponte Estaiada Octávio Frias Filho, na Marginal Pinheiros. Foto: Facebook/ReproduçãoManifestantes atravessam a Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, na noite desta quinta-feira (22). Foto: Facebook/ReproduçãoProtesto teve início no Largo da Batata, na zona oeste da capital paulista. Foto: Facebook/ReproduçãoDe lá, os manifestantes partiram em direção à Marginal Pinheiros. Foto: Facebook/ReproduçãoO objetivo do grupo era chegar à Ponte Octávio Frias Filho, símbolo de um dos pólos financeiros da capital. Foto: Facebook/ReproduçãoFoi terceiro ato contra o Mundial às vésperas da Copa do Mundo. Foto: Manifestação MTST - 22-05-2014Manifestantes fecham pista da Faria Lima em caminhada rumo à zona sul de SP. Foto: Facebook/ReproduçãoNúmero de participantes aumentou ao longo do protesto; estimativa inicial de 2 mil subiu para 15 mil ao fim da manifestação. Foto: Facebook/Reprodução

Em atos realizados entre maio e junho, o grupo chegou a atrair entre 10 mil e 20 mil pessoas. Com as manifestações, o movimento deu um recado claro para o Planalto e prometeu radicalizar as ações caso não tivesse suas reinvidações atendidas. O grupo conseguiu um acordo com a presidente Dilma Rousseff (PT) e suspendeu as grandes manifestações que pudessem atrapalhar os jogos nas cidades-sede.

Atualmente, o MTST está mobilizado em torno da votação do Plano Diretor em São Paulo, que dará as diretrizes de crescimento da cidade nos próximos 16 anos. Um grupo de cerca de 200 integrantes acampam na frente ao prédio da Câmara, na região central, desde a última terça-feira (24) e promete permanecer lá até que o projeto seja aprovado. A expectativa é que os vereadores votem o projeto nesta segunda-feira (30). 

Longe dos grandes protestos e das ruas centrais, o Movimento Passe Livre (MPL), protagonista das manifestações de junho do ano passado, só realizou um grande ato neste ano, no dia 19 de junho, para comemorar um ano da revogação do aumento das tarifas do transporte público em São Paulo.

Segundo a estudante Letícia Cardoso, 18 anos, membro do movimento, o MPL tem optado por uma atuação mais discreta nas periferias, mas não descarta chamamentos de grandes atos pela tarifa zero no transporte público. “Nosso trabalho se foca nos bairros, a gente quer fomentar a auto-organização da sociedade civil nas periferias, mas a gente nunca saiu das ruas. O movimento tem a pauta da tarifa zero, o que pode desencadear atos estratégicos na região central, mas ainda não da para adiantar uma ação específica”.

Questionados sobre possíveis atuações em relação às eleições estaduais e federal, que acontecem em outubro deste ano, os representantes dos movimentos se esquivaram e citaram reuniões para definir as próximas diretrizes. 

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