Jovem adepto da tática de enfrentamento da polícia defende o direito de protestar e comenta o que espera do Mundial: 'Desde criança meu sonho era ver uma Copa do Mundo no Brasil'

A frase é curta e simples: “Não somos uma ameaça para a população”. Com ela, um jovem adepto da tática que ficou conhecida nos últimos meses como black bloc busca aplacar as críticas recebidas e acabar com qualquer tentativa de alastrar pânico sobre manifestações nas grandes capitais durante a Copa do Mundo. “Pelo contrário, sempre lutamos pelos interesses das massas, de defender o oprimido do Estado. Se em algum momento praticamos violência, ela é direcionada ao opressor, não ao oprimido.”, defende-se.

Infográfico: 1 ano das manifestações de junho

Veja abaixo as melhores imagens das manifestações de junho de 2013:

Enquanto, no estádio do Morumbi, o Brasil enfrentava a Sérvia no último amistoso antes da estreia na Copa do Mundo, na sexta-feira (6), o iG se encontrava com o jovem José Francisco* [nome fictício, a pedido dele], há mais de uma década presente em manifestações e confrontos contra a polícia na capital e em outras cidades do País. “Tem coisa mais simbólica do que fazermos essa entrevista durante o jogo?”, indagou, confiante e sorridente, ao chegar ao local do encontro o jovem de classe média, com não mais de 30 anos, emprego fixo e curso superior na melhor instituição de ensino do País. Atualmente, faz pós-graduação.

Black bloc em protesto em São Paulo, no ano passado
Alex Falcão/Futura Press
Black bloc em protesto em São Paulo, no ano passado

“Desde criança meu sonho era ver uma Copa do Mundo no Brasil. Desde criança!”, exclama, com um olho no repórter e outro na televisão, Francisco, se declara um amante de futebol. “As pessoas ficam perguntando ‘por que demorou tanto para começarem a se manifestar?’ E eu respondo: demorou porque a população esperou até o último momento que pôde por esse tal desenvolvimento que ia vir, essa tal mobilidade urbana que ia melhorar, as infraestruturas, as condições. É um povo apaixonado por futebol que subitamente se sentiu traído pelas promessas não cumpridas.”

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O interesse de Francisco pela militância começou cedo, antes mesmo da adolescência. Na quinta série do ensino fundamental, fazia parte do conselho de classe de sua escola. No primeiro ano do ensino médio, já estava nas ruas protestando. A primeira vez que apanhou em um ato foi no ano 2000, em uma manifestação de professores, quando um golpe na cabeça o obrigou a levar três pontos.

Ação de mascarados em protesto no Rio de Janeiro
AP
Ação de mascarados em protesto no Rio de Janeiro

“Sempre militei ao lado dos sem-teto, de grupos estudantis. Em 2002, antes de entrar na faculdade, estava em Brasília para me manifestar contra o plebiscito da Alca (Área de Livre Comércio das Américas)”, conta ele, presente na maior parte das manifestações ocorridas em São Paulo no ano passado. “É quase uma profissão isso para mim: profissão militante”, afirma. “Só que não recebo pela minha militância, ao contrário do que alguns dizem por aí. Se recebesse, podia até largar meu emprego.”

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Francisco diz que a tática é aplicada não para causar estragos, prejuízos ou simplesmente bater, mas sim para atuar como uma espécie de comissão de segurança dos manifestantes nos mais diferentes atos. Assim, um grupo de pessoas dispostas a se “sacrificar” pelos movimentos, como exemplifica, se propõe a ficar nos extremos das passeatas para, quando iniciada a repressão, poder entrar em confronto com a polícia tanto com o objetivo de retardar o enforcamento do protesto quanto para evitar feridos civis durante a realização do ato. 

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Protesto na avenida Paulista, no ano passado
Futura Press
Protesto na avenida Paulista, no ano passado

De acordo com levantamento da ONG Artigo 19, ao menos 837 se feriram durante os protetos no ano passado , a maioria cidadãos comuns, nos 696 atos do tipo realizados. “O foco é a proteção. Não existe orquestração de nada porque o que fazemos é uma reação, não uma ação. Ninguém tira a tarde para bater na polícia, tira a tarde para ir ao protesto. Só que, em determinado momento, a PM vai querer interferir, e aí você vai reagir, porque quer garantir seu direito de protesto”, explica Francisco.

Para o entrevistado, os atos violentos registrados principalmente em junho passado, por exemplo, ocorreram na maioria das vezes de forma espontânea, sem qualquer tipo de orquestração ou ligação com os movimentos sociais.

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“Se o black bloc tem alguma reunião, eu nunca fui. Parece que no Rio tem gente que gosta de se chamar de black bloc. Eu acho isso bizarro. Você não tem nem obrigação de ser black bloc em todas as manifestações, até porque tem ato em que não faz sentido, por exemplo, usar máscara, que é mais um artefato para não ser criminalizado do que qualquer outra coisa”, ressalta. “Existem várias organizações com pessoas adeptas da tática, além de existirem os punks, essas coisas caóticas. Talvez no exterior tenha uma organização um pouco maior, de fazer tudo em bloco, o que me parece até mais favorável do que o cada um por si. Mas aqui é sempre algo muito espontâneo. E, no final, você já sabe o que fazer quando precisa, que é reagir à polícia.”

Assim, no momento do enfrentamento, Francisco, como seus companheiros black blocs, assume a forma de manifestante anônimo: coloca a camiseta que está vestindo no rosto, segura o objeto que tiver ao alcance e parte para o confronto contra uma força que a maior parte das pessoas prefere não enfrentar.

Adeptos da tática black bloc quebram agência bancária em São Paulo
Futura Press
Adeptos da tática black bloc quebram agência bancária em São Paulo

A quebradeira a instituições bancárias, grandes multinacionais, entre outros grandes símbolos do mundo capitalista globalizado, também segue a mesma lógica. “Essa, digamos, ‘violência’, é muitas vezes para tirar o foco do ato, para que atraia a atenção da polícia em direção àquele pequeno grupo que se desloca do principal. Pode ser também um recado simbólico às instituições, cujo significado é: ‘não queremos isso para nós’. Nunca é uma tentativa de causar prejuízo a um banco, pois sabemos que essa perda é irrelevante”, diz ele. “Mas há também a revolta pura e simples, existe o imaginário popular. E garanto que ninguém vai se rebelar contra o sistema se não estiver altamente revoltado com ele.”

Foi esse tipo de ação que tornou os black blocs em símbolo de ataque das forças públicas, governos, mídia e cidadãos. “As pessoas dizem que se pode fazer manifestação, mas não se pode quebrar nada. Então me diz como fazer. Muito dificilmente, se você mandar uma carta com elogios para o governador pedindo para ele levar em consideração analisar a sua condição você será ouvido”, ironiza. “Não dá para acharmos que tudo bem o cara ser desalojado. ‘Ah, mas fazer o quê?’ Sei lá, faz qualquer coisa! Quebra um banco! O importante é fazer algo, sair dessa ideia de que o futuro está dado, de que o mundo é isso aí e que, se você quiser se revoltar, o faça sem quebrar o status quo. Essa tal pacificidade que as pessoas pensam é quase impossível. Se o seu irmão estiver apanhando, você não vai virar e pedir por favor para pararem de bater. Vai agir.”

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O histórico de manifestações e revoltas gera desconfianças no jovem. Apesar da quase onipresença dos atos na capital paulista em 2013, Francisco evita dar detalhes sobre suas ações particulares. Em diversos momentos da entrevista, quando questionado sobre atos comprometedores, mirou o gravador como um inimigo a ser evitado, fugindo das respostas. A respeito de manifestações em 2014, garante ter se afastado um pouco da tática de enfrentamento, principalmente por temor de sofrer algum tipo de retaliação. Não permite fotos, identificação, mesmo que disfarçado da forma como costuma marcar presença nos atos. Tem algum medo? - o iG lhe pergunta. Ele responde: “Claro que tenho. Medo de ser preso. Quem não tem?”

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