Vítima de bala de borracha, Sérgio Silva afirma ter dificuldades de se adaptar à nova vida: "Foi o pior dia da minha vida"

Um ano depois, Sérgio Silva ainda não conseguiu voltar às ruas como antes. No início da noite de 13 de junho de 2013, o fotógrafo, então com 31 anos, foi alvejado por uma bala de borracha no rosto que teve como consequência a perda de seu olho esquerdo, além do desenvolvimento de um medo antes impensável para ele, a cobertura de uma manifestação. “Não é um bom momento para mim. Ainda tenho um pouco de trauma. Principalmente por constatar que a violência não parou. Foi o pior dia da minha vida.”, diz Silva ao iG .

Um ano: conheça o destino de quem tomou a linha de frente nos protestos de junho

Infográfico: Veja a evolução dos protestos de junho pelo País

Sérgio Silva mostra a prótese ocular colocada no lugar do olho cego, em janeiro
Facebook/Reprodução
Sérgio Silva mostra a prótese ocular colocada no lugar do olho cego, em janeiro

Assim como tantos outros profissionais da imprensa, Silva estava na região da avenida Paulista naquele dia para trabalhar. Munido de uma câmera, o fotógrafo clicava imagens com o objetivo de enviá-las à agência Futura Press, na qual tentava emplacar trabalhos de freelancer. Também como ele, muitos outros colegas acabaram feridos. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) calcula em ao menos 24 o número de jornalistas e fotógrafos que sofreram algum tipo de violação de seu trabalho somente naquele protesto. Destes, 22 foram agredidos fisicamente pela polícia, seja com gás de pimenta, cassetetes ou balas de borracha – entre eles a repórter Giuliana Vallone, da TV Folha. O Movimento Passe Livre (MPL), organizador do protesto diz que, no total, as vítimas passaram de uma centena.

“Estava tudo muito pacífico, tranquilo. Mas, subitamente, a PM simplesmente tomou a iniciativa de reprimir o protesto”, recorda Silva. “Quando o movimento subia a rua da Consolação para ir ao Masp [localizado na avenida Paulista, coração financeiro e tradicional ponto de manifestações da cidade], foi feito o primeiro bloqueio. Na hora, os policiais começaram a usar a força, com a Tropa de Choque jogando bomba de efeito ‘imoral’, bala de borracha, gás lacrimogêneo. Nunca tinha visto tanta truculência em um ato do tipo.”

A ação da PM promoveu corre-corre entre os que estavam na região. Da maneira como podiam, ativistas e profissionais que cobriam o ato buscaram proteção. Silva optou por se postar atrás de uma banca de jornal. Na insistência de fotografar o que fosse possível da manifestação, vez ou outra deixava parte do corpo em situação de vulnerabilidade para fazer seus cliques. Foi no momento em que olhava rapidamente as imagens feitas no visor da câmera que sentiu o impacto da bala.

Sérgio em foto recente, com a prótese ocular
Facebook/Reprodução
Sérgio em foto recente, com a prótese ocular

“Lembro perfeitamente de quando fui atingido", afirma ele. "Era uma situação de caos generalizado, com muito barulho de bombas e enorme fumaceira. Naquela noite, a polícia não estava preocupada em quem iria atingir, de qual forma usaria seu armamento. Os policiais atiravam na direção do olhar das pessoas, no peito, na cabeça, mirando principalmente as regiões delicadas.”

O impacto da bala foi forte. Silva teve a retina do olho esquerdo deslocada para um lado, afundamento da cristalina e um corte com a perfuração que acarretou em cinco pontos internos, deixando a estrutura ocular totalmente danificada. Ainda assim, nutria a esperança de um dia não lembrar do episódio da pior forma possível. Os médicos, ele afirma, achavam que ocorreria uma recuperação natural da visão. Seguiram-se dois “torturantes” meses aguardando por uma evolução, vivendo uma mistura de esperança, apreensão e medo. Mas as sensações negativas prevaleceram.

“Foi muito traumático. É dolorido demais acordar no dia seguinte e se dar conta de que não se enxerga mais”, diz Silva. “Ficou também mais difícil de trabalhar. Meu campo de visão diminuiu 50%. Não foi fácil e continua não sendo. Entretanto, a fotografia é meu instrumento de trabalho e tenho muito gosto por ela. Isso me dá forças para não desistir.”

Por sua condição atual, Silva abraçou projetos pessoais. No dia 13 de junho, exatamente um ano depois de ter levado o tiro que o cegou do olho esquerdo, o fotógrafo inaugura, no Coletivo Digital, em Pinheiros, uma exposição com uma série de retratos de sua autoria de pessoas usando tapa-olho. Evento cultural com verve política, promovendo a luta contra a violência.

Leia mais
Conheça o destino de quem tomou a linha de frente nos protestos de junho
Confira a linha do tempo das manifestações de junho

Da fatídica manifestação onde se feriu, no entanto, Silva recorda pouco. O fotógrafo foi um dos primeiros presentes no ato a ser atingido, teve de ser rapidamente socorrido. Naquela semana, ainda não havia passado por nenhum outro protesto, mas optou por, de forma independente, rumar ao centro da capital paulista para ver como se desenvolveria a manifestação que prometia superar as anteriores em número e relevância. Silva conhecia os riscos aos quais estava exposto, afinal estaria no front de um protesto de pessoas contra aquela que classifica como "a pior polícia do Brasil". 

Na época, o comando da Polícia Militar atribuiu os confrontos no protesto do dia 13 a um suposto descumprimento de um acordo feito com os manifestantes . "Eu decidi que era necessário o emprego da Tropa de Choque", afirmou o comandante-geral da PM, coronel Benedito Meira. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que os "possíveis abusos" seriam investigados e afirmou que "é dever da polícia proteger a população, garantir o direito de ir e vir, [o direito do] comércio abrir, preservar o patrimônio público e o patrimônio privado". Nenhum policial foi punido .

Silva abriu processo contra o Governo do Estado de São Paulo para reivindicar seus direitos.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.