'Ainda tenho trauma de protestos', diz fotógrafo que perdeu olho um ano atrás

Por David Shalom , iG São Paulo | - Atualizada às

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Vítima de bala de borracha, Sérgio Silva afirma ter dificuldades de se adaptar à nova vida: "Foi o pior dia da minha vida"

Um ano depois, Sérgio Silva ainda não conseguiu voltar às ruas como antes. No início da noite de 13 de junho de 2013, o fotógrafo, então com 31 anos, foi alvejado por uma bala de borracha no rosto que teve como consequência a perda de seu olho esquerdo, além do desenvolvimento de um medo antes impensável para ele, a cobertura de uma manifestação. “Não é um bom momento para mim. Ainda tenho um pouco de trauma. Principalmente por constatar que a violência não parou. Foi o pior dia da minha vida.”, diz Silva ao iG.

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Infográfico: Veja a evolução dos protestos de junho pelo País

Facebook/Reprodução
Sérgio Silva mostra a prótese ocular colocada no lugar do olho cego, em janeiro

Assim como tantos outros profissionais da imprensa, Silva estava na região da avenida Paulista naquele dia para trabalhar. Munido de uma câmera, o fotógrafo clicava imagens com o objetivo de enviá-las à agência Futura Press, na qual tentava emplacar trabalhos de freelancer. Também como ele, muitos outros colegas acabaram feridos. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) calcula em ao menos 24 o número de jornalistas e fotógrafos que sofreram algum tipo de violação de seu trabalho somente naquele protesto. Destes, 22 foram agredidos fisicamente pela polícia, seja com gás de pimenta, cassetetes ou balas de borracha – entre eles a repórter Giuliana Vallone, da TV Folha. O Movimento Passe Livre (MPL), organizador do protesto diz que, no total, as vítimas passaram de uma centena.

03/06 - O ponto inicial das manifestações foi um protesto contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, na zona sul. Foto: Luiz Claudio Barbosa/Futura Press06/06 - O primeiro ato se estendeu para um protesto com mais manifestantes, no centro da capital paulista. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press06/06 - O confronto com a polícia em São Paulo acirrou os ânimos nas manifestações. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press06/06 - O protesto contra o aumento das passagens deixou em lados opostos os manifestantes e as forças policiais. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press06/06 - E foi a partir deste dia que as manifestações ganhariam força e apoio de cada vez mais gente. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press06/06 - São Paulo. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG07/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press10/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press11/06 - São Paulo. Foto: Futura Press11/06 - São Paulo. Foto: Futura Press11/06 - São Paulo. Foto: Futura Press11/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Luiz Claudio Barbosa/Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Euclides Oltramari Jr / Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Renan Tuffi/iG São Paulo13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Euclides Oltramari Jr / Futura Press14/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press15/06 - Brasília. Foto: Rodrigo Villalba/Futurapress15/06 - Brasília. Foto: William Volcov/Brazil Photo Press15/06 - Brasília. Foto: Raul Spinassé/A Tarde/Futura Press15/06 - Brasília. Foto: Reuters15/06 - Brasília. Foto: Raul Spinassé/A Tarde/Futura Press15/06 - Brasília. Foto: Raul Spinassé/A Tarde/Futura Press16/06 - São Paulo. Foto: Leo Pinheiro / Futura Press15/06 - Berlim. Foto: Reprodução16/06 - Berlim. Foto: Reprodução17/06 - São Paulo. Foto: Alex Falcão17/06 - São Paulo. Foto: Futura Press17/06 - São Paulo. Foto: Euclides Oltramari Jr17/06 - São Paulo. Foto: Susan Souza/iG17/06 - São Paulo. Foto: Susan Souza/iG17/06 - São Paulo. Foto: Susan Souza/iG17/06 - São Paulo. Foto: Futura Press17/06 - São Paulo. Foto: Futura Press17/06 - São Paulo. Foto: Rafael Mantega17/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Biló17/06 - São Paulo. Foto: Igor Frias Vieira17/06 - São Paulo. Foto: Susan Souza/iG17/06 - São Paulo. Foto: Igor Frias Vieira17/06 - Brasília. Foto: Nivaldo Souza/iG Brasília17/06 - Brasília. Foto: Nivaldo Souza/iG Brasília17/06 - Brasília. Foto: Nivaldo Souza/iG Brasília17/06 - Brasília. Foto: Reprodução17/06 - Brasília. Foto: Agência Brasil17/06 - Brasília. Foto: Agência Brasil17/06 - Brasília. Foto: AP17/06 - Brasília. Foto: Nivaldo Souza/iG Brasília17/06 - Porto Alegre. Foto: Futura Press17/06 - Salvador. Foto: Futura Press17/06 - Curitiba. Foto: Futura Press17/06 - Belo Horizonte. Foto: Futura Press17/06 - Belém. Foto: Futura Press17/06 - Rio de Janeiro. Foto: AP17/06 - Rio de Janeiro. Foto: AP17/06 - Rio de Janeiro. Foto: AP17/06 - Rio de Janeiro. Foto: AP18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Renan Truffi18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Futura Press18/06 - São Paulo. Foto: Renan Truffi/iG São Paulo18/06 - Londres . Foto: Reprodução Facebook19/06 - São Paulo. Foto: Futura Press19/06 - São Paulo. Foto: Futura PressRescaldo do protesto realizado nesta terça-feira (18), na região do centro de São Paulo, SP. . Foto: Futura Press19/06 - São Paulo. Foto: Futura Press19/06 - São Paulo. Foto: Futura Press19/06 - São Paulo. Foto: Daniel Sobral/Futura Press19/06 - São Paulo. Foto: Daniel Sobral/Futura Press19/06 - São Paulo. Foto: Agência Brasil19/06 - São Paulo. Foto: Agência Brasil19/06 - São Paulo. Foto: Agência Brasil19/06 - Belo Horizonte. Foto: Dudu Macedo/Futura Press19/06 - Belo Horizonte. Foto: Dudu Macedo/Futura Press20/06 - Belém. Foto: Igor Mota/Futura Press20/06 - Belém. Foto: Igor Mota/Futura Press20/06 - Belém. Foto: Igor Mota/Futura Press20/06 - Rio de Janeiro. Foto: Murilo Rezende/Futura Press20/06 - Salvador. Foto: Bahia Raul Golinelli/Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - Recife. Foto: Leia Já20/06 - Recife. Foto: Leia Já20/06 - Recife. Foto: Leia Já20/06 - Ribeirão Preto. Foto: Futura Press20/06 - Brasília. Foto: BSB Valter Campanato ABr20/06 - Brasília. Foto: BSB Valter Campanato ABr20/06 - Brasília. Foto: Agência Brasil20/06 - Brasília. Foto: BSB Valter Campanato ABr20/06 - Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr20/06 - Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr20/06 - Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr20/06 - Brasília. Foto: Reprodução20/06 - Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr20/06 - Porto Alegre. Foto: Futura Press20/06 - Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/ABr20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Rio de Janeiro. Foto: AP20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Curitiba. Foto: Daniel Castellano/GAZETA DO POVO/Futura Press20/06 - Curitiba. Foto: Daniel Castellano/GAZETA DO POVO/Futura Press21/06 - São Paulo . Foto: Iran Giusti21/06 - São Paulo. Foto: Renan Tuffi/iG 21/06 - São Paulo. Foto: Renan Truffi/iG São Paulo21/06 - São Paulo. Foto: Iran Giusti21/06 - São Paulo. Foto: Carol Martins21/06 - Ribeirão Preto. Foto: Piton/Futura Press23/06 - Brasília. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil24/06 - Porto Alegre. Foto: Luciano Leon/Futura Press26/06 - Brasília. Foto: Pedro França/Futura Press26/06 - Belo Horizonte. Foto: Lucas Prates/Hoje em Dia/Futura Press26/06 - Belo Horizonte. Foto: Marcus Vieira/O Tempo/Futura Press

“Estava tudo muito pacífico, tranquilo. Mas, subitamente, a PM simplesmente tomou a iniciativa de reprimir o protesto”, recorda Silva. “Quando o movimento subia a rua da Consolação para ir ao Masp [localizado na avenida Paulista, coração financeiro e tradicional ponto de manifestações da cidade], foi feito o primeiro bloqueio. Na hora, os policiais começaram a usar a força, com a Tropa de Choque jogando bomba de efeito ‘imoral’, bala de borracha, gás lacrimogêneo. Nunca tinha visto tanta truculência em um ato do tipo.”

A ação da PM promoveu corre-corre entre os que estavam na região. Da maneira como podiam, ativistas e profissionais que cobriam o ato buscaram proteção. Silva optou por se postar atrás de uma banca de jornal. Na insistência de fotografar o que fosse possível da manifestação, vez ou outra deixava parte do corpo em situação de vulnerabilidade para fazer seus cliques. Foi no momento em que olhava rapidamente as imagens feitas no visor da câmera que sentiu o impacto da bala.

Facebook/Reprodução
Sérgio em foto recente, com a prótese ocular

“Lembro perfeitamente de quando fui atingido", afirma ele. "Era uma situação de caos generalizado, com muito barulho de bombas e enorme fumaceira. Naquela noite, a polícia não estava preocupada em quem iria atingir, de qual forma usaria seu armamento. Os policiais atiravam na direção do olhar das pessoas, no peito, na cabeça, mirando principalmente as regiões delicadas.”

O impacto da bala foi forte. Silva teve a retina do olho esquerdo deslocada para um lado, afundamento da cristalina e um corte com a perfuração que acarretou em cinco pontos internos, deixando a estrutura ocular totalmente danificada. Ainda assim, nutria a esperança de um dia não lembrar do episódio da pior forma possível. Os médicos, ele afirma, achavam que ocorreria uma recuperação natural da visão. Seguiram-se dois “torturantes” meses aguardando por uma evolução, vivendo uma mistura de esperança, apreensão e medo. Mas as sensações negativas prevaleceram.

“Foi muito traumático. É dolorido demais acordar no dia seguinte e se dar conta de que não se enxerga mais”, diz Silva. “Ficou também mais difícil de trabalhar. Meu campo de visão diminuiu 50%. Não foi fácil e continua não sendo. Entretanto, a fotografia é meu instrumento de trabalho e tenho muito gosto por ela. Isso me dá forças para não desistir.”

Por sua condição atual, Silva abraçou projetos pessoais. No dia 13 de junho, exatamente um ano depois de ter levado o tiro que o cegou do olho esquerdo, o fotógrafo inaugura, no Coletivo Digital, em Pinheiros, uma exposição com uma série de retratos de sua autoria de pessoas usando tapa-olho. Evento cultural com verve política, promovendo a luta contra a violência.

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Da fatídica manifestação onde se feriu, no entanto, Silva recorda pouco. O fotógrafo foi um dos primeiros presentes no ato a ser atingido, teve de ser rapidamente socorrido. Naquela semana, ainda não havia passado por nenhum outro protesto, mas optou por, de forma independente, rumar ao centro da capital paulista para ver como se desenvolveria a manifestação que prometia superar as anteriores em número e relevância. Silva conhecia os riscos aos quais estava exposto, afinal estaria no front de um protesto de pessoas contra aquela que classifica como "a pior polícia do Brasil". 

Na época, o comando da Polícia Militar atribuiu os confrontos no protesto do dia 13 a um suposto descumprimento de um acordo feito com os manifestantes. "Eu decidi que era necessário o emprego da Tropa de Choque", afirmou o comandante-geral da PM, coronel Benedito Meira. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que os "possíveis abusos" seriam investigados e afirmou que "é dever da polícia proteger a população, garantir o direito de ir e vir, [o direito do] comércio abrir, preservar o patrimônio público e o patrimônio privado". Nenhum policial foi punido.

Silva abriu processo contra o Governo do Estado de São Paulo para reivindicar seus direitos.

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