MPL, Pablo Capilé, Mídia Ninja e Advogados Ativistas: o que houve com os grupos e líderes que mudaram os rumos do País

As manifestações populares que viraram o Brasil do avesso em junho do ano passado completam um ano esta semana em meio às discussões sobre o saldo de tantas passeatas, depredações e repressão. Pelo menos para a vida de um grupo seleto, as mudanças iniciadas há 12 meses mal começaram. Afinal, o que houve com os grupos e algumas figuras que assumiram a linha de frente no levante de junho?

Infográfico: Veja a evolução dos protestos de junho pelo País


MPL – Movimento Passe Livre

Monique Felix, do MPL, diz que o movimento cresceu sem prejudicar a vida dos ativistas
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Monique Felix, do MPL, diz que o movimento cresceu sem prejudicar a vida dos ativistas

Símbolo maior daquele período, o Movimento Passe Livre (MPL) venceu um ano de pressão para “revelar seus líderes” e chega ao aniversário do levante mantendo a mesma postura ao indicar um representante para falar em nome do grupo organizado “horizontalmente, sem líderes”. Destacada para atender o iG , Monique Felix se recorda do sofrimento causado pela insistência para que eles expusessem seus membros. “Foi muito difícil administrar isso no auge das manifestações, mas conseguimos contornar mudando periodicamente as atividades de cada integrante.”

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Monique admite que algumas figuras terminaram bem conhecidas, mas garante que o importante foi preservado: a rotina. “Depois das manifestações, não houve diferença nenhuma nem no cotidiano, nem na nossa militância. Todo mundo continua trabalhando, estudando, alguns com atividades voluntárias na periferia, como já acontecia antes de junho.”

Já o MPL cresceu muito nacionalmente, diz ela, depois que os protestos barraram o aumento da passagem em São Paulo. “A gente sempre soube que seria muito difícil, mas conseguimos e, a partir daí, a população viu que existia uma alternativa real às suas necessidades.” Antes em seis cidades, hoje o MPL está em 13.

Capilé e a Mídia Ninja

Pablo Capilé planeja um site para a Mídia Ninja e se ocupa com palestras até na Argentina
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Pablo Capilé planeja um site para a Mídia Ninja e se ocupa com palestras até na Argentina

“Não consigo te atender, me manda as perguntas por e-mail que eu respondo ainda hoje”, recomentou ao iG pelo celular o criador do coletivo Fora do Eixo, Pablo Capilé, na tarde de sexta-feira (30): “Estou no meio de uma palestra em Buenos Aires.” Alvo de uma enxurrada de acusações (como retenção de cachê e estelionato - nenhuma comprovada) no momento em que despontava como liderança das manifestações de junho, Capilé precisou se retirar dos holofotes, mas a Mídia Ninja, nascida no berço do Fora do Eixo, não.

Hoje com 267 mil curtidas, a página dos jornalistas-ativistas no Facebook saltou para 200 mil adesões logo que as marchas eclodiram. “A rede cresceu. Hoje somos formados por mais de 200 coletivos espalhados pelo País”, contabiliza o fotógrafo ativista Rafael Vilela, repórter desde que a Mídia Ninja engatinhava ainda sem nome: “Em março do ano passado, eu estava cobrindo o Fórum Social Mundial na Tunísia”, recorda-se. "Centenas de coletivos no País se formaram a partir da cobertura das ruas. Com essa rede de contranarrativa, ninguém vai assistir só ao Jornal Nacional."

Rafael Vilela: na Mídia Ninja antes mesmo do coletivo receber esse nome
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Rafael Vilela: na Mídia Ninja antes mesmo do coletivo receber esse nome

No fim, Capilé não respondeu o e-mail ao justificar sua agenda de conferências na Argentina. De fato, o criador do Fora do Eixo anda ocupado. Ele planeja para junho - mês de aniversário dos protestos - o lançamento do portal da Mídia Ninja, previsto para ser hospedado no www.ninja.oximity.com. Ainda no papel de ativista, ele ajuda a planejar a ocupação do centro do Rio de Janeiro durante a Copa do Mundo. Na ocasião, manifestantes vão acampar em barracas e redigir uma Constituição própria em que a maconha é legalizada e a polícia desmilitarizada.

Socorristas

Enquanto alguns coletivos cresciam com a popularização das passeatas, outros nasciam quase que por acaso. Foi assim com o Grupo de Apoio ao Protesto Popular (GAPP), criado de maneira dramática em uma das manifestações mais marcantes daquele ano, a do dia 13 de junho , quando a violência policial ganhou o noticiário estrangeiro e, os manifestantes, a simpatia da população.

Naquele dia, Alexandre Morgado (30) assistia ao protesto da janela de seu trabalho na Avenida Paulista quando decidiu atender ao coro de “vem pra rua você também”. Quando uma senhora de aproximadamente 50 anos foi atingida na perna pelas primeiras balas de borracha que alvejaram os manifestantes, Morgado chamou o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e ficou ao lado da vítima durante os 52 minutos que a ambulância levou para chegar. “A partir daquele dia, passei a frequentar as manifestações para socorrer vítimas.”

Alexandre Morgado atende um dos 12 feridos na manifestação do dia 7 de setembro
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Alexandre Morgado atende um dos 12 feridos na manifestação do dia 7 de setembro

Morgado já tinha três treinamentos de brigada de incêndio e a habilitação de socorrista. Ele então montou um kit de primeiros socorros com água oxigenada, soro, esparadrapo e atadura e convocou dez amigos com algum treinamento em primeiros-socorros. “Nosso recorde foi o atendimento de 12 pessoas na manifestação do dia 7 de setembro.”

Hoje formado por 17 voluntários treinados, o GAPP é seguido por 70 mil pessoas no Facebook e teve sua atuação expandida. “Além de ir a todos os protestos, a gente faz serviço social. Quando a favela Esmaga Sapo [na zona leste] pegou fogo em abril, levamos 150 quilos de alimento, roupa, botijão e kit higiene.”

Para o ativista, junho representa o momento em que o brasileiro tirou da garganta o que estava entalado. “O povo percebeu que tinha potencial para protestar. O resultado é que todos os grupos ativistas estão maiores do que antes."

Advogados Ativistas

Esse é o caso do coletivo Advogados Ativistas, também formado em meio a tiros e gases de efeito moral. Embora alguns jovens advogados já fizessem plantão na porta da cadeia para defender manifestantes detidos, foi só ao longo dos protestos que todos se conheceram, montaram estrutura e batizaram o coletivo, que chegou a ser perseguido pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Representantes da entidade iam às manifestações para saber ‘quem eram esses caras e porque estavam ajudando de graça’. ‘Que partido está por trás deles?’, ‘será um jeito de juntar clientela?’”, recorda-se o advogado Igor Leone. “Hoje eles entendem que ativismo é trabalho voluntário.”

Advogado ativista, Igor Leone vê o Brasil sob uma
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Advogado ativista, Igor Leone vê o Brasil sob uma "ditadura camuflada"

Únicos vestidos com terno e gravata, sete advogados, em média, se espalham pelo protesto, desde a linha de frente ao cordão de isolamento. Outros três ficam de sobreaviso em caso de necessidade. “Sempre se comunicando com celular e mantendo contato com o comandante da PM.” Depois, o grupo se reúne na delegacia para identificar se houve abuso nas detenções. “A gente acompanha o depoimento, entra em contato com testemunhas e procura quem filmou ou fotografou a prisão. Na Páscoa, trabalhamos 72 horas porque duas pessoas acabaram no Centro de Detenção Provisória e a Defensoria Pública estava descansando o feriado.”

Isso não significa, explica ele, que os voluntários não trabalhem em escritórios de advocacia quando estão longe dos protestos. O coletivo, no entanto, cresceu: com 100 mil seguidores no Facebook, os Advogados Ativistas já contam com 50 voluntários, 20 deles fixos. “Pra mim, junho mostrou que o Brasil vive em uma ditadura camuflada.”

Rafucko

Nas manifestações do Rio, quem despontou foi o humorista Rafael Puetter, o Rafucko, que desde 2008 publica sátiras políticas em seu canal no Youtube. Com relativo sucesso já em 2011, seus vídeos ganharam o País depois dos protestos de junho, quando ele tomou a dianteira na condenação ao tratamento policial dispensado aos manifestantes.

Conhecido no Rio, Rafucko virou sucesso ao criticar a truculência da PM nos protestos
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Conhecido no Rio, Rafucko virou sucesso ao criticar a truculência da PM nos protestos

Quando começou a incomodar, Rafucko foi detido, segundo ele, com flagrante forjado. Sua versão é de que policiais colocaram pedras portuguesas dentro de sua camisa com o intuito de incriminá-lo por depredação ao patrimônio público.

No dia 25 de abril, ele se fantasiou de Wiliam Bonner da cintura para cima e se espremeu em uma meia-calça para se apresentar à Corregedoria da Polícia Civil e esclarecer sua participação nos protestos. Saiu de lá sem responder às perguntas do delegado e dizendo que preferia achar que tudo aquilo não passava de "uma grande piada".

Formado em Rádio e TV pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rafucko encampa agora uma campanha em sua página no Facebook (de 48 mil curtidas) para entrevistar o prefeito Eduardo Paes (PMDB). Procurado pelo iG , Rafucko especulou sobre a matéria, pediu as perguntas por e-mail, mas, assim como Capilé, não retornou contato.

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