Visibilidade da Copa atrai até parceiros do governo para protestos

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Especialistas dizem que momento é ideal para revindicar porque os olhos do mundo estão voltados para o Brasil

A pouco menos de um mês para o início da Copa do Mundo no Brasil, movimentos sociais e de trabalhadores, inclusive grupos como Movimento dos Sem-Terra (MST), tradicional parceiro do PT, pegam carona na visibilidade nacional e internacional do evento para pressionar o governo e empresários a atenderem suas revindicações.

Protestos: 
Movimentos sociais ocupam sedes de três construtoras em São Paulo
Greve de ônibus entra no segundo dia no Rio de Janeiro

Veja abaixo imagens de manifestações realizadas neste mês:

Ativistas se reuniram em Belo Horizonte para debater ações durante a Copa. Foto: Agência Brasil/Antônio CruzProfessores estão em greve desde o dia 23 de abril. Foto: Futura Pressgreve. Foto: ReproduçãoParados. Os servidores do Ministério da Cultura não estipularam um prazo para o término da greve. Foto: Luiz Fernando Vieira / DivulgaçãoManifestantes fecharam a avenida Paulista na manhã desta quinta-feira (08). Foto: Mauricio NadalManifestantes fecharam a avenida Paulista na manhã desta quinta-feira (08). Foto: Mauricio NadalNos EUA, consulados do Brasil em Nova York, Los Angeles, Hartford, San Francisco, Houston e Atlanta estão de greve (arquivo). Foto: Wikimedia CommonsEmbaixada do Brasil na cidade de Berlim na Alemanha, é alvo de ataques na madrugada desta segunda-feira (12). Foto: Reynaldo Paganelli/Futura PressGaris fecham rodovia no sexto dia de greve.. Foto: Sindibel/DivulgaçãoGaris efetivos em greve se concentraram no bairro Santa Efigênia. Foto: Edwaldo Cabidelli / SindibelAssembleia foi feita ontem, na UAI 7 de Setembro. Foto: Nelson BatistaManifestantes fecharam a avenida Paulista na manhã desta quinta-feira (08). Foto: Mauricio NadalIntegrantes de movimento sociais ocupam e picham o hall de entrada do escritório da construtora Odebrecht, na zona oeste de São paulo. Foto: Kevin David/Futura Press

Muitos grupos aproveitam as manifestações neste período como uma forte “moeda de troca” na hora das negociações, pois nenhuma das três esferas administrativas do País quer ter seus governos associados a eventuais problemas que ocorram durante a realização do jogos no Brasil.

O sociólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Rodrigo Prando diz que os movimentos estão fazendo pressão psicológica com o governo e com o público para que suas revindicações sejam pelo menos ouvidas. “As categorias usam a proximidade com a Copa para gerar uma pressão psicológica nos governos, que ficam na dúvida: não sabem se atendem [a revindicação] agora ou jogam com a possibilidade que eles [movimentos e trabalhadores] possam parar na época da Copa. A proximidade faz com que esses movimentos ganhem uma nova dinâmica e é mais fácil eles serem atendidos porque têm essa carta na manga”, diz.

Para ele, apesar das ameaças de greve em diversos setores, o governo deve ficar atento às manifestações nas ruas e dialogoar mais com a população.

“Acho que os governos têm que se preocupar mais com as manifestações das ruas por causa da impossibilidade de prever o que vai acontecer. São cidadãos insatisfeitos. Assim como no ano passado, que os movimentos começaram pequenos e ganharam proporcões maiores, pode acontecer agora. Não tem como prever. Se as coisas tomarem a força que tiveram no ano passado, escapa a qualquer critério racional. Em casos de greves [em qualquer setor], é mais fácil negociar porque tem uma liderança”.

Kevin David/Futura Press
Integrantes de movimento sociais, incluindo o MST, picharam o hall de entrada do escritório da construtora Odebrecht, em São Paulo, na última semana

Para a historiadora, socióloga e professora das univerdades Mackenzie e PUC-SP, Rosana Schwartz, as manifestações do ano passado trouxeram a tona as insatisfações da população, que os governos até hoje não conseguiram aplacar.

“Nós tivemos as manifestações do ano passado, que mostraram que a população estava descontente com a forma de fazer política e com o destino do dinheiro público, que não estava sendo empregado para políticas públicas necessárias, como saúde, moradia, educação e transporte. Então, as pessoas saíram às ruas e recuaram [após a revogação do aumento da tarifa dos tranportes]. Mas neste período de recuo, eles perceberam que as demandas continuam as mesmas”. Ela ressalta que diferente do ano passado, em que as manifestações, a príncipio, giravam em torno do tema transporte público e depois alcançaram outras demandas, neste ano, são vários grupos com demandas muito específicas.

O cientista político e professor da PUC-SP Pedro Fassoni Arruda afirma o governo deve se preocupar com a popularidade da presidente Dilma, já que este é ano de eleição presidencial. “Talvez eles [os grupos] esperam ter poder de barganha maior por conta da visibilidade do evento e o governo deve se preocupar porque isso pode cair na conta [do evento e das eleições]".

Mais:
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Os protagonistas

Entre os grupos que estão nas ruas atualmente estão os rodoviários no Rio de Janeiro e em Florianópolis, capital de Santa Catarina, e movimentos de lutas por moradia, em São Paulo, como o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). No mesmo esteio, pegam carona ainda os agentes da Polícia Federal, responsáveis pela fiscalização das fronteiras e de turistas, que prometem operação tartaruga durante os jogos, caso não tenham reajustes salariais, e funcionários das embaixadas brasileiras, que realizam greve de 48 horas nos consulados e embaixadas, em 17 cidades na Europa, Estados Unidos e Canadá, entre esta terça (13) e quarta-feira (14).

Wikimedia Commons
Nos EUA, consulados do Brasil em Nova York, Los Angeles, Hartford, San Francisco, Houston e Atlanta aderiram à paralisação

Até mesmo o Movimento do Sem-Teto, histórico aliado do Partido dos Trabalhadores, da presidente Dilma Rousseff, fechou uma rodovia estadual em Salvador (BA) na semana passada, demonstrando insatisfação em relação a política habitacional do governo e se aliou ao Movimento dos Trabalhores Sem-Teto (MTST), para promover invasões à construtoras responsáveis pelas obras para a Copa do Mundo, como a sede da Odebrecht, que construiu a Arena Corinthians, local da abertura do Mundial, em Itaquera, zona leste de São Paulo, na quinta-feira da semana passada (8).

O MTST interditou ainda vias importantes da capital paulista, como a marginal Pinheiros e a avenida Paulista, e invadiu os escritórios das construtoras OAS e Andrade Gutierrez, que construíram a Arena de Dunas, em Natal (RN), e a Arena Amazônia, respectivamente.

Próximos passos

Os movimentos prometem não parar até que as revindicações sejam atendidas e prometem intensificar as ações caso a lei que criminaliza o vandalismo seja aprovada no Senado Federal.

Estão sendo organizados protesto e ações em 50 cidades, inclusive cidades-sede, como São Paulo, Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (15). 

Em São Paulo, este será o primeiro ato de rua do ano organizado pelos Comitês Populares da Copa e os manifestantes devem se reunir na praça dos Ciclistas, na avenida Paulista, na região central da cidade, às 17h.  Entre as razões elencadas para o protesto estão as mortes de trabalhadores na construção das arenas do Mundial, remoção de famílias para execução das obras, proibição do trabalho ambulante pela Lei Geral da Copa, o endurecimento das forças policiais, entre outras. 

Responsável pela ocupação Nova Palestina, no Jardim Ângela (zona sul), que tem 8 mil famílias, e pela Copa do Povo, com pelo menos 2 mil famílias, a cerca de 4 km da Arena Corinthians, sede da abertura do Mundial, o MTST promete bloquear seis avenidas, nas regiões leste, sul e centro da capital paulista também nesta quinta-feira. Os locais e trajetos ainda não foram divulgados. 

José Afonso da Silva, responsável pela Secretaria Nacional do MTST, admite que o momento é propício para pressionar o governo a negociar com o movimento, mas que o ritmo de intervenções não foi alterado em decorrência da Copa.

Agência Brasil/Antônio Cruz
Ativistas se reuniram em Belo Horizonte para debater ações durante a Copa

“A Copa é um momento de visibilidade, mas isso não é a logica do movimento. A linha de atuação do MTST vem se mantendo. Mas como a imprensa do mundo todo esta aqui, tem uma visibilidade maior, e o governo se sente mais pressionado neste período”, diz lembrando que a presidente Dilma se reuniu com representantes do movimento após a invasão na última quinta-feira. “Isso demonstra que o governo está preocupado”, afirma.

Ativistas planejam ainda o sétimo ato do “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”, no centro da capital paulista para o próximo dia 24. Desta vez, a pauta de manifestação engloba pedido de investigação dos gastos do evento, moradia digna para os removidas para obras, transportes 24 horas e creches.

Sobre as próximas ações, o MST informou que definirá as ações políticas no final deste mês. “Mas já podemos dizer que o movimento apoiará todas as lutas reivindicatórias da classe trabalhadora que poderão ocorrer durante esse período, como a luta por moradia, transporte público, saúde etc”, afirmou em nota.

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