"Foram mais de 100 filhos, nunca parei para contar", diz mãe social

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Conheça o trabalho de duas mulheres que não tiveram filhos biológicos, mas que dedicam a vida às crianças de abrigos

Após ver uma reportagem na televisão sobre crianças em abrigos, a ex-agente de segurança Maria Rita Ferreira ficou tão comovida com o trabalho realizado pelas mães sociais, que revolveu mudar de emprego (e de vida). O ano era 2002 e a piauense tinha 37 anos quando decidiu doar seu tempo e muito amor para cuidar integralmente de crianças com as quais ela não tinha nenhum vínculo sanguíneo.

“Eu fiz a entrevista e me chamaram rápido. Não sabia como era, achava que era que nem creche. Eu queria cuidar dos bebezinhos”, lembra doze anos depois da mudança, afirmando não se arrepender. “Eu tenho mais alegrias do que tristezas com eles.”

Casa lar de um abrigo em Poá, Grande São Paulo. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloCrianças almoçam na casa da mãe social Maria Divina. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloCrianças almoçam na casa da mãe social Maria Divina. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloHomenagem dos "filhos" para mãe social Maria Divina. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloMaria Divina e duas "filhas". Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloMaria Divina e uma das "filhas". Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloAs tarefas domésticas são divididas nas casas lares. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloAs tarefas domésticas são divididas nas casas lares. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloAs tarefas domésticas são divididas nas casas lares. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloMaria Rita e um dos filhos. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo

As mães sociais são profissionais responsáveis por cuidar de crianças e adolescentes abrigados. Elas dormem no local e têm 36 horas de folga por semana.

Segundo Maria Rita, atualmente com 49 anos, o começo da história como mãe social foi difícil porque ela não “sabia lidar com as histórias tristes” pelas quais as crianças, em muitos casos vítimas de violência familiar, com histórico de abandono ou filhos de pais dependentes químicos. “Eu me apegava demais às histórias e não sabia como crianças tão pequenas tinham uma embalagem tão pesada”, diz. Com o passar do tempo, ela foi aprendendo a lidar com essas histórias, mas não ficou menos sensível aos sofrimento dos “filhos”.

Ela é responsável por uma casa, na unidade de Poá (Grande São Paulo), da ONG Aldeias Infantis SOS Brasil, onde mora com seis adolescentes entre 13 e 16 anos, mas garante que já criou mais de 25 “filhos”.

“As minhas crianças ficam muito tempo comigo. A maioria já vem sem vínculo familiar. Tem um que está há dez anos aqui e outro há oito”, explica se referindo a dois adolescentes que chegaram ainda crianças à casa.

O tempo de convívio com os pequenos varia com a história de cada um, pois eles podem ser reinseridos na própria família, serem adotados (por parentes ou desconhecidos) ou ficam até completarem 18 anos. Após essa idade, os jovens deixam o abrigo. “A gente faz um trabalho de inserção social. Ele tem que sair com emprego e um lugar para morar”, diz.

Apesar de ser chamada de “tia” pelos abrigados, Maria Rita, que optou por não ter filhos biológicos, diz que se sente mãe deles. “Eu nunca tive sonho de casar e ter filhos, mas eu me sinto mãe deles e eles sentem isso também. Mesmo os que já saíram ligam para desejar Feliz Natal e Feliz Dia das Mães. Eles vão para minha casa quando estou de folga”, afirma.

Vídeo: Maria Rita fala sobre as alegrias e tristezas de ser uma mãe social:


Para ela, assim como para a maior parte das mães, a maior dificuldade é quando as crianças chegam à adolescencia e a alegria quando eles “concluem um curso ou uma coisa que estavam querendo”, diz Maria Rita. “Quando eles saem, casam, formam uma família e se tornam pessoas de bem é gostoso. Tenho até três netas”, afirma orgulhosa.

Outra Maria, outra mãe

O prenome Maria não a única coisa que ela tem em comum com Maria Divina Gonçalves, 44 anos. Divina também é uma mãe social. Vizinha da colega de profissão, ela administra uma casa com oito crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos. Com 19 anos de experiência, ela perdeu as contas de quantas crianças já ajudou a criar. “Nunca parei para contar, mas foram mais de 100. Alguns ficam um tempo e são adotados ou voltam para família. A rotatividade é maior”, diz.

Mais: Filhos de usuários de droga são maioria entre as crianças acolhidas em abrigos

A “tia” Divina diz que a maior alegria dela é a troca com as crianças. “São tantas alegrias: é poder ajudar quando eles chegam fragilizados, ver eles crescendo, estudando, ver o desenvolvimento deles. Tem tantas coisas boas para aprender com eles que eu vou ensinando e aprendendo ao mesmo tempo. Desenvolvi a tolerância e a paciência e aprendi a respeitar o tempo da criança, que é diferente do adulto”.

Em contrapartida, a parte mais difícil do trabalho é se separar dos pequenos. “Quando eles saem, são adotados, é muito difícil. Tem família adotante que ainda mantém o vínculo com a gente, mas outras, não. Levam até para fora do País. É difícil se separar porque a gente se torna uma família”.

Natural do Mato Grosso, Divina diz que foi apresentada ao trabalho por uma conhecida. Na ocasião, então com 25 anos (idade mínima para se candidatar ao trabalho), ela já sabia que era estéril. “O sonho de todo mundo é casar, ter filhos, mas eu descobri que não poderia engravidar aos 20 anos. O sonho de família ideal foi passando, mas quando eu comecei a trabalhar aqui, com o que eu passo no dia a dia, eu comecei a me sentir mãe de verdade”.

Assim como para a maior parte das mães, as duas Marias dizem que a adolescência é a parte do desenvolvimento mais complicada dos “filhos”. “As meninas começam ir atrás de namoradinhos, os meninos se envolvem em certas amizades da escola e da comunidade, que a gente tem que ficar de olho”, diz Maria Divina.

Maria Rita diz que um dos “filhos” já se envolveu com drogas. “Ele passou a usar drogas, mas fez tratamento e hoje é pai de família. Ele ainda fuma, mas já se recuperou”. Segundo ela, nestes casos, a criança (ou adolescente) recebe também apoio psicológico específico.

Rotina

A rotina das duas Marias começa cedo, antes das 6h das manhã, quando a maior parte dos filhos já se prepara para ir para escola. “À tarde eles têm curso, tem uns que fazem futebol”.

As crianças também ajudam nas tarefas domésticas. “Eles têm uma escala para lavar a louça e cada um é responsável pela tarefa uma vez por semana. Eles lavam as roupas íntimas deles e tênis e arrumam os quartos”, diz Maria Rita.

Meio-dia é a hora mais corrida do dia na casa da mãe Divina. É a hora em que as crianças que estudam de manhã estão voltando da escola e as outras se preparam para a rotina estudantil diária. Os amigos da escola têm permissão para visitar as crianças no abrigo e elas também podem fazer visitas fora do abrigo. “Eu procuro estar sempre acompanhando, faço lição de casa com eles, procuro cursos para os mais velhos. Ajudo a procurar emprego”, diz Maria Divina.

Para as despesas da casa, a mãe social tem uma renda de cerca de R$ 200 para cada criança. Com esse dinheiro compram alimentos, remédios, roupas e materiais escolares. Apesar de inseridas em um abrigo, a gestão das casas, como cardápio das refeições, horários e passeios, é toda determinada pelas mães.

Nas férias escolares, o trabalho é dobrado: “A gente leva eles para passear no shopping, no parque, levo para minha casa quando folgo, mas o que eles gostam mesmo é de ir a praia”, afirma Maria Rita.

Na casa de Maria Divina, é permitido levar coleguinhas da escola (ou da comunidade) para “passar uns dias nas férias”. “Já tive 14 crianças aqui. Foi ótimo”, diz.

O trabalho

A profissão de mãe social foi regulamentada por um decreto presidencial de 1987. Segundo o texto assinado pelo então presidente José Saney, as mães sociais trabalham em casas lares, independentes ou em um abrigo, formando uma espécie de “aldeia”.

As exigências para trabalhar na ONG Aldeias Infantis SOS Brasil, por exemplo, é que as aspirantes a mãe social tenham mais que 25 anos, ensino médio completo e não tenham filhos biológicos menores.

Ao serem contratadas, as mulheres passam por um curso e começam a cobrir as folgas, de 36 horas semanais, das mães sociais, e depois de algum tempo estão capacitadas para assumirem uma casa. Elas ainda passam por reciclagens periódicas.

De acordo com levantamento realizado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) no ano passado, cerca de 29 mil crianças e adolescentes vivem em abrigos e casas-lares em todo Brasil. Esse número equivale a 23% das crianças e adolescentes abrigadas em todo País.

Ainda segundo o levantamento do CNMP, entre as atribuições dessas profissionais está a de “estimular o desenvolvimento do ambiente familiar”. Muito provavelmente, sem ter acesso aos dados do conselho, as mães sociais vivenciam na rotina diária as determinações do papel. “Somos uma grande família”, dizem as duas Marias, quase sem pensar, quando questionadas sobre a relação que desenvolveram com as crianças.

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