Quem está por trás da segurança da Copa?

Por iG São Paulo * Esther Solano Gallego e Marília Carolina Souza |

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Em artigo, professoras alertam que a Copa é um cenário de risco que deve ser administrado com responsabilidade por todos os agentes envolvidos, sem omissões e negligências

A Copa está chegando a sua segurança é um tema delicado e preocupante, mas o cidadão brasileiro sabe como está sendo administrada esta questão e quais são os atores envolvidos nela?

Recentemente soubemos que grupos de policiais e militares, componentes do Comando de Operações Especiais (COE), força naval e investigadores da polícia civil, foram convidados pelo governo dos Estados Unidos para fazerem treinamentos de antiterrorismo por vias marítimas, conduzidos pela empresa de segurança Academi (antiga BlackWater) em sua unidade em Moyock, Carolina do Norte, como parte das preparações para a Copa do Mundo.

A inovação deste tipo de atividade está no fato do governo estadunidense destinar uma verba de US$ 2,2 milhões a uma empresa de segurança privada como é a Academi (suspeita de acusações e escândalos envolvendo suas atividades) para operações contra o terrorismo. Ou seja, por meio de treinamento militar terceriazado, o governo americano está buscando formas mais rápidas de “conscientizar” forças estratégicas brasileiras quanto aos “perigos” do terrorismo internacional, e a Copa do Mundo, neste sentido, tornou-se a força motriz para impulsionar a agenda internacional, carregada da ideologia do perigo e do inimigo.

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Os Estados Unidos vêm, ao longo das últimas três décadas, desenvolvendo programas para a América do Sul, com o intuito de efetivar sua agenda de segurança e defesa para a região, por meio de programas específicos, como o INCS (Estratégia Internacional de Controle de Narcóticos) e o DEA (Programa de Repressão às Drogas); ou por meio de programas mais amplos, como os implementados através da USAID (Agência para o Desenvolvimento Internacional). Com a administração Bush, e os atentados terroristas de setembro de 2001, a agenda regional foi vinculada à Guerra Global ao Terror e, com a administração Obama, tais programas tiveram, em sua maioria, continuidade.

A “contribuição” de terceirizados militares com o polêmico império mercenário BlackWater-Xe-Academi (vários nomes, um mesmo conceito) é controversa e precisa ser discutida. A responsabilidade do Estado na segurança e sua comercialização deveriam ser pensadas num debate público e transparente. A lógica da privatização do poder coercitivo não é trivial e passa, por exemplo, pela dificuldade de exigir responsabilidades destas ações de segurança à empresa mercenária.

A Copa é um cenário de risco que deve ser administrado com responsabilidade por todos os agentes envolvidos na segurança pública, sem omissões e negligências. BlackWater não é só uma empresa, é uma ideologia de segurança fundada nos conceitos de terror e inimigo.

Levemos com cuidado, baixo o pretexto do risco-Copa, não estar apoiando agendas e atores de caráter duvidoso.

* Marília Carolina Souza: Professora de Relações Internacionais da Universidade Anhembi-Morumbi

* Esther Solano Gallego: Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo

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