Há uma banalização da abordagem policial, diz ex-professora da Academia da PM

Por Renan Truffi - iG São Paulo |

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Doutora em ciência política da USP, que foi professora da Academia do Barro Branco, analisa método da PM em protestos

Somente nos últimos três meses de 2013, as polícias civil e militar fizeram juntas mais de 3,5 milhões de abordagens em suspeitos no Estado de São Paulo. O volume de revistas, no entanto, resultou em 43.940 mil pessoas presas e detidas em flagrante ou por mandado, o que representa pouco mais de 1% do número total. Os dados mostram que, influenciadas pelo governo estadual e federal, as forças de segurança do País se preocupam, principalmente, em tentar prender pessoas, não se importando com impacto que isso tenha sobre a população.

A opinião é da doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) Tania Pinc, especialista no estudo da força. Com experiência prática no assunto, ela, que é major da reserva da PM e foi professora por seis anos na Academia de Polícia Militar Barro Branco, explica que o comportamento repressivo dos policiais tem influência na política de aprisionamento, que superlota prisões brasileiras para tentar resolver o problema da segurança.

“Não se importa o que isso pode causar nas pessoas que foram detidas, a preocupação da policia é realizar prisões. A polícia não se importa muito com esse fator, com o número de abordagens. Nessa lógica não importa se você aborde muito e prenda pouco, Há uma banalização da abordagem. Não se leva muito em conta o impacto que isso possa causar na vida de uma pessoa”, afirma.

Veja abaixo as imagens da tropa do braço em ação no protesto contra a Copa do Mundo em São Paulo:


Talvez por essa razão a popularidade da polícia esteja tão em baixa. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do fim do ano passado, informa que 70% da população não confia nas polícias, que é mais popular apenas do que os partidos políticos, rejeitados por 95% dos brasileiros.

Nos Estados Unidos, 88% da população confia em seus policiais, enquanto na Inglaterra esse índice é de 82%. O excesso de abordagens e prisões ficou mais evidente no último protesto contra a realização da Copa do Mundo, que aconteceu em São Paulo. Na ocasião, a PM deslocou cerca de 2.300 policiais para lidar com pouco mais de 1.000 manifestantes. Ao final da manifestação, 262 pessoas foram detidas pela chamada “Tropa do Braço”, formada por PMs que usam artes marciais para impedir que ativistas pratiquem vandalismo.

Manifestante é detida durante o protesto contra a Copa no centro de São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressBlack blocs atacam estabelecimentos comerciais no centro de São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressCerca de cem manifestantes foram detidos, segundo advogado . Foto: Gabriela Bilo/Futura PressAo menos 25 manifestantes detidos no protesto ficaram sentados no chão, em frente ao 78 °DP. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGProtesto teve cerca de 120 detidos. Parte deles foi liberada ainda no centro. Na imagem, manifestantes levados ao 78° DP. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGParte dos manifestantes foi levada ao 78° Distrito Policial, dos Jardins. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGManifestantes em frente ao Theatro Municipal de São Paulo. Foto: Vitor Sorano/iGManifestantes seguiram pelas ruas do centro após o confronto com a polícia. Foto: Vitor Sorano/iGPolícia fecha quarteirão da Xavier de Toledo, onde houve o confronto. Foto: Vitor Sorano/iGPolícia cerca grupo de manifestantes detidos durante o confronto na rua Xavier de Toledo. Foto: Vitor Sorano/iGPM na rua Xavier de Toledo, onde houve confronto. Foto: Vitor Sorano/iGPoliciais militares revistam manifestante detido. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGBlack blocs depredaram estabelecimentos no centro de São Paulo. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGManifestantes depredaram agência bancária do centro de São Paulo. Foto: Vitor Sorano/iGPolícia Militar faz cordão de isolamento no centro de São Paulo após tumulto. Foto: Vitor Sorano/iGManifestantes vestidos de preto e mascarados lideraram o protesto. Foto: Vitor Sorano/iGCentenas de manifestantes se reuniram em protesto contra a Copa. Foto: Vitor Sorano/iGCentenas de manifestantes se concentraram na praça da República. 'Pentacampeão, de injustiça e de corrupção', gritavam pelas ruas do centro. Foto: Vitor Sorano/iGCentenas de manifestantes se concentram na praça da República. Foto: Vitor Sorano/iGBlack blocs organizam cordão humano durante protesto. Foto: Vitor Sorano/iGPoliciais militares reforçam segurança no cruzamento da praça da República com a avenida São Luís. Foto: Vitor Sorano/iGOs estudantes Lucas Crivelaro e Willians Mardegan participam do protesto contra a Copa. Foto: Vitor Sorano/iGManifestantes se concentram na praça da República no segundo ato contra a Copa do Mundo (22/02/2014). Foto: Gabriela Bilo/Futura PressCerca de mil policiais reforçam a segurança na praça da República. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press"Sem educação, não vai ter Copa", diz um dos cartazes preparados por manifestantes do segundo ato contra a Copa em São Paulo. Foto: Vitor Sorano/iGManifestantes se concentram para o segundo ato contra a Copa na Praça da República, centro de São Paulo (22/02/2014). Foto: Vitor Sorano/iGManifestantes se concentram para o segundo ato contra a Copa na Praça da República, centro de São Paulo (22/02/2014). Foto: Vitor Sorano/iG"Eu gosto de futebol, mas temos que sacrificar nossos gostos. Eu sou contra investimento para maquiar corrupção", diz Beto Fontes (22/02/2014). Foto: Vitor Sorano/iG

 

“Ainda é uma estratégia que usa repressão como principal recurso. Depois os policiais militares foram filtrando dentre essas pessoas detidas. É uma técnica menos agressiva (do que gás lacrimogêneo e bala de borracha), mas ainda é uma técnica muito repressiva. Existem outras alternativas que usam o diálogo em vez da repressão”, critica.

Pinc alerta, inclusive, para o risco de que este tipo de comportamento por parte da polícia leve ao crescimento dos protestos, como aconteceu em junho do ano passado. “Eu fico esperando uma próxima reação mais forte na manifestação. Pode ter uma reação mais agressiva dos manifestantes. Apesar da polícia ter evitado dano ao patrimônio público e privado, não quer dizer que essa estratégia foi a melhor. Houve uma intervenção no direito de manifestação, no direito de ir e vir. Se isso foi correto ou não? Foi a decisão da polícia. O fato é que polícia optou por uma ação mais repressiva”, argumenta.

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