Dia da Mulher: ‘Dedicação à família diferencia homens de mulheres’

Por Clarice Sá - iG São Paulo | - Atualizada às

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Esta é a opinião de Taiz de Souza de Almeida, 26 anos, negra, casada, mãe, funcionária com registro em carteira, moradora da periferia de SP que se encaixa no perfil médio das brasileiras

A dedicação à família é a linha que separa os homens das mulheres no convívio doméstico. É o que diz Taiz Souza de Almeida, de 26 anos, negra, casada, mãe, funcionária com registro em carteira, moradora da periferia de São Paulo, proprietária de uma máquina de lavar roupas comprada depois de intensas reclamações ao marido. Taiz se encaixa no perfil médio das brasileiras, de acordo com dados do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher divulgado em novembro de 2013 pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República.

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Taiz Souza de Almeida

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A máquina de lavar é considerada sinal não só da presença de rede de saneamento básico e eletricidade no domicílio, mas também de menos tempo dedicado aos afazeres domésticos. “(Lavar roupa na mão) é um trabalho maçante. É algo que toma muito tempo da mulher”, confirma Taiz. 

A máquina ainda não é um eletrodoméstico universalizado, tanto por problemas de infraestrutura, como pelo preço relativamente alto. Em 2008, 46,4% das casas contavam com o utensílio. Em 2011, eram 50,9%. Dos domicílios chefiados por mulheres, 51,2%. Entre os chefiados por homens, 50,6%. Taiz levou cerca de quatro meses para convencer o marido a levar uma para casa. “Ele tinha outras prioridades. Mas eu reclamei, reclamei, aí ele foi lá e comprou”, conta. 

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Taiz e o filho, Luyan Felipe

Em média, a brasileira dedica cerca de 33,8 horas por semana aos afazeres domésticos. O brasileiro, 14,7. Além das cerca de três horas diárias destinadas aos cuidados com a casa, Taiz dedica as segundas-feiras de folga à faxina pesada. Domingo é o dia de descanso. 

A ajuda do marido, de 23 anos, é mais voltada aos cuidados com o filho, Luyan Felipe, de 6 anos. Arrumar a casa é tarefa esporádica. “Ele é meio machista, diz que é coisa de mulher, que ele não leva jeito. É meio preguiçoso para essas coisas. Às vezes ele lava uma louça, estende uma roupa, mas fica por minha conta mesmo”, diz Taiz. 

Ela gostaria de dedicar mais tempo para passear com o filho, cuidar das unhas e do cabelo, e visitar a mãe, que mora no mesmo bairro. Mas, além das seis horas diárias de trabalho, ela consome outras quatro no trajeto entre o Cocaia, onde mora, e Moema, onde é vendedora de acessórios de conforto e bem-estar. Ganha pouco mais de um mínimo. Com o rendimento do marido, a renda per capita da casa chega a pouco menos de um salário, como em 28,4% dos domicílios do País.

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Esta semana, Taiz se divide entre o trabalho e o Hospital do Grajaú, onde o filho está internado. Sofreu esmagamento de uma das pernas em uma brincadeira na casa da avó durante o carnaval. Foi atingido por uma pedra de mármore, que seria usada na obra de ampliação da casa.

Depois da reforma, aliás, o imóvel pode ser uma opção para Taiz ocupar um puxadinho e sair do aluguel. Com o dinheiro extra, planeja pagar uma faculdade de pedagogia. "Sempre quis e fui adiando por um motivo ou outro", diz. O marido também pretende estudar, mas ainda não concluiu o Ensino Médio e costuma viajar a trabalho. No País, as mulheres representam 55,8% dos ingressantes no Ensino Superior e 61,1% dos que concluem os cursos.

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Taiz queria mais tempo para cuidar das unhas, do cabelo, passear com o filho e visitar a mãe

Enquanto não entra na faculdade, é a academia que ocupa espaço na rotina. Quando dá. Taiz faz exercícios duas vezes por semana - "no máximo três”. O recomendado seriam 30 minutos diários de atividade leve em cinco ou mais dias da semana ou 20 minutos de atividade intensa três ou mais vezes por semana - o que só 11% das brasileiras conseguem cumprir.

É justamente na academia que ela ouve reclamações sobre a falta de atenção dos homens às tarefas domésticas, com o que "é bem difícil" lidar. "Tem amigas que reclamam muito, dizem que não aguentam mais, que é como se fossem empregadas do marido. Não adianta falar, não adianta brigar. O meu (marido) diz 'ah, minha mãe sempre trabalhou e ela sempre deu conta de casa sem reclamar, por que você não dá?".

Mas ela faz questão de ressaltar o cuidado que o companheiro tem com o filho. "Cuida mais do que eu". E também não recebe do marido o tratamento relatado por amigas que ficam em casa, proibidas de sair, enquanto os companheiros vão se divertir. Quando chegam, há troca de ofensas. "Falam que lugar de mulher é em casa, que mulher que anda na rua ou em balada é mulher que não presta para casar". Entre as denúncias de violência contra a mulher, 27,6% é de agressão psicológica e 11,7% de violência moral. A violência física é a primeira no ranking, com 56,6% dos casos. 

O que mais identifica Taiz com outras mulheres é a dedicação à família. "Acho que o homem não vê a família com a mesma visão que a mulher. No meu caso, tudo o que eu faço é pensando neles, o que vão achar, se vão gostar. Meu marido às vezes toma decisões e fala que pensou em mim, mas eu sei que não pensou. Não foi o melhor para nós, mas para ele."

E o que a torna diferente de outras mulheres? "É a disposição, porque muitas não têm. Muitas ficam em casa, não têm coragem de estudar ou disposição de trabalhar. Acima de tudo, força de vontade. E ainda querer mais".

Perfil médio

De acordo com o relatório, 49% das mulheres brasileiras se declaram brancas, 50% pretas ou pardas e 1% outra cor ou raça. Elas têm, em média 1,95 filho. Na análise por anos de estudo, a média sobe para 3,07 filhos para quem estudou até 7 anos e cai para 1,69 para quem tem 8 anos ou mais de estudo (91,9% tem de seis a 14 anos de estudo).

As cidades abrigam 52,1% das mulheres brasileiras e 37,5% delas são apontadas como responsáveis pelos domicílios - independentemente de quem possui a maior renda da casa. Estão no mercado de trabalho 64% das mulheres - do montante, 72,2% tem entre 25 e 39 anos, cerca de um terço com carteira assinada. Na análise de rendimento, 29% vive com renda média per capita entre meio e um salário mínimo e rendimento médio de R$ 499,42.

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