Tonico Doido (PSB), prefeito do município paraense, se surpreendeu com a desistência da médica cubana do Mais Médicos por causa de sua adaptação à cidade

Em Pacajá, município paraense localizado a 600 quilômetros da capital do Estado, Belém, a população comemorou a chegada dos seis médicos cubanos que participam do programa Mais Médicos. Havia apenas dois profissionais para atender os 40 mil habitantes da cidade. O prefeito Tonico Doido (PSB), que diz não aprovar o regime “comunista” de Cuba, também gostou da chegada dos profissionais cubanos. “Ajudou muito a gente”, ele diz.

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Apesar de surpreso por ter sido Ramona Matos Rodriguez a desistir do trabalho – porque, de todas, diz o prefeito, ela era a mais falante, mais desinibida e que mais fez amizades com as pessoas – Tonico Doido diz não ter ficado chateado. E admite esperar que outros profissionais façam o mesmo que Ramona: queiram permanecer no Brasil. “Eu acho que, se qualquer médico cubano tiver chance, não vai embora mais, vai ficar”, afirmou.

A explicação dele é “simples”: “A vida deles aqui é bem melhor do que lá em Cuba. Mesmo não ganhando como os outros médicos, é melhor”, ele pondera. O prefeito conta que, na chegada, Ramona já demonstrou personalidade. Fez alguns pedidos. O primeiro, internet. Depois, quis conhecer a cidade. Em seguida, quis cigarros. Tonico conta que comprou dez carteiras. Elas passaram quatro dias em um hotel antes de ir para a casa alugada pela prefeitura.

O prefeito de Pacajá, Tonico Doido
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O prefeito de Pacajá, Tonico Doido

“Fiquei surpreso. Era a que eu mais tinha amizade, ela era uma alegria danada. Não esperava dela”, admite. E continua suas ponderações: “Estava tudo tranquilo. Das médicas todas, ela era a única que saia para todo lado, ia para as fazendas. Ela é liberada como qualquer pessoa, mas as outras ficavam sempre em casa. Não sei se alguém fez a cabeça dela ou ela já veio para o Brasil querendo ficar. Toda pessoa tem o direito de ser feliz”, diz.

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O prefeito diz que conversou com as companheiras de casa de Ramona. Todas disseram a ele que não vieram para o Brasil enganadas sobre as condições de trabalho. “Mas lá é um país comunista, né? A gente não tem como saber os detalhes. Eu acho que todo passarinho que está preso, se tiver chance, vai voar. É isso”, afirma. Talvez não esperassem, no entanto, ver que o médico brasileiro contratado pelo município ganha R$ 50 mil.

Ramona vivia em uma casa alugada pela prefeitura com outras duas médicas. Segundo o prefeito, a casa foi toda mobiliada para elas, recebeu central de ar condicionado em todos os cômodos e internet wi-fi. Elas recebiam uma ajuda de custo além do salário e tinha transporte gratuito para ir ao trabalho. “O custo de vida aqui realmente é alto, mas todo mundo vive”, diz, brincando.

A prefeitura possui 1.460 funcionários, de acordo com o prefeito. A folha de pagamento desse pessoal custa R$ 3,5 milhões. Segundo Gonçalo Roberto de Souza, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Pacajá (Sismup), 800 deles ganham apenas um salário mínimo. Sobreviver no município exige mais de um emprego para complementar a renda. “Aqui tudo custa o dobro do que em qualquer lugar”, diz Gonçalo.

No sábado, Tonico diz que Ramona falou para as colegas que iria para a fazenda de um amigo. Ninguém estranhou, porque a médica fez muitas amizades e, segundo ele, “não dispensava uma festa, ela bebe, fuma”. “Ela é uma mulher totalmente diferente das outras médicas cubanas”, disse.

Como Ramona não retornou na segunda-feira para trabalhar, as companheiras foram avisar o secretário de Saúde do sumiço da médica. Tonico garante que eles todos se dispuseram a procurá-la antes de chamar a polícia. “Ninguém sabia de nada. Ficamos com medo de alguém ter pegado essa mulher, matado. Não tinha nada de vigiá-la”, ressalta. “Vimos pela televisão que ela estava em Brasília. E a gente procurando aqui”, recorda.

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