Avanço no IDH reduz risco de desastres climáticos no Nordeste, revela estudo

Por Clarice Sá - iG São Paulo |

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Melhora de índices sociais torna região menos vulnerável às alterações de clima previstas para o final do século

O avanço do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) em áreas do Nordeste do Brasil diminuiu o risco de tragédias provocadas por mudanças climáticas previstas para a região até o final deste século, de acordo com estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

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A pesquisa cruza informações de densidade demográfica do History Database of the Global Enviromental (Hyde), projeções climáticas até o ano de 2100 do quinto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e dados do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

A associação entre os dados deu origem ao Índice de Vulnerabilidade Socioclimática (IVSC), que indica áreas onde as populações estão mais suscetíveis a desastres, tendo em vista as alterações no clima previstas até o final deste século. O infográfico mostra a variação entre os dados da primeira versão do estudo, publicada em 2012, e da atualizada, concluída no fim de 2013 - em fase preliminar de análise. A escala é composta de cores contínuas, do azul ao vermelho. Não há unidades estabelecidas, mas uma base de comparação relativa de uma região com a outra.

O gráfico à esquerda considera indicadores sociais de 2000 e projeções climáticas de 2005. As áreas vermelhas, consideradas altamente vulneráveis, predominam no Nordeste. No gráfico à direita, parte dos pontos vermelhos dá lugar a áreas em azul e amarelo, com risco menor de desastres. Esta mudança reflete a o crescimento maior do IDHM no Nordeste em comparação com o Sul e o Sudeste. Na região nordestina, a menor taxa de crescimento do IDHM foi de 24% (PE e RN) e a maior, 34% (MA e AL). No Sul e Sudeste, o maior avanço foi de 17%, registrado em Minas Gerais.

Pedro Silveira/Odin
Cidade alagoana atingida por enchente em 2011

No entanto, apesar do aumento, os Estados nordestinos ainda ocupam as piores posições no ranking nacional do IDHM. O melhor colocado é o Rio Grande do Norte, em 16º, com índice de 0,684. O pior é Alagoas, último da lista, em 27º, com 0,631. Na análise por cidades, a melhor colocada entre as nordestinas é Fernando de Noronha (PE), com IDH de 0,788. A segunda é São Luís (MA), em 249º, com 0,768. A escala do IDHM varia de 0 a 1. Um IDHM de 0,6 a 0,699 é considerado médio. De 0,7 a 0,799, alto, e de 0,8 a 1, muito alto. O cálculo leva em conta dados de escolaridade, longevidade e renda.

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O Índice de Vulnerabilidade Socioclimática serve para indicar áreas prioritárias para a adoção de políticas públicas de longo prazo contra possíveis desastres. “É difícil fazer uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas durante algumas décadas, sendo que temos políticas de governo de quatro em quatro anos. Ninguém pensa 30, 40 ou 50 à frente. Isso talvez explique porque não há uma política nacional de adaptação às alterações climáticas”, pondera o ecólogo David Laporta, coordenador do estudo.

Segundo ele, os países podem ser classificados em dois grupos básicos nas análises de vulnerabilidade às mudanças climáticas: os pobres, onde as perdas são contadas em vidas humanas, e os ricos, onde estas perdas são contadas em dólares. Para exemplificar, Lapola compara as perdas provocadas pelo Furacão Katrina, na cidade americana de Nova Orleans, onde o impacto econômico foi intenso, ao Tufão Hayan, que atingiu as Filipinas no fim do ano passado e provocou uma catástrofe humanitária.

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AE
Via alagada no Jardim Pantanal, na zona leste da cidade de São Paulo

Neste panorama, o Brasil ocupa uma posição intermediária, com áreas pobres, onde vidas podem estar em risco, e outras, de maior poder aquisitivo, em que perdas econômicas podem ser previstas. "Podemos comparar bairros ricos, como Moema (na zona sul de São Paulo) e pobres, como o Jardim Pantanal (na zona leste)”, detalha o pesquisador.

Os principais fatores de vulnerabilidade climática no País são a localização das moradias em áreas de risco, o nível econômico da população e o acesso a serviços de saúde e educação. “Quem tem mais poder aquisitivo, de modo geral, não ocupa encostas e, se ocupa, faz bem feito, também tem plano de saúde, não mora em área de risco e vai conseguir se preparar melhor para esse tipo de evento. Para quem não tem, vale o oposto.”

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