Preço do fruto subiu e vendedores reclamam da margem de lucro; nova queridinha é a água mineral

Neste quiosque em Ipanema, coco é vendido a R$ 5, mas comerciante avisa que não vai repor o estoque devido aos custos para transportar e manter a fruta gelada
Nina Ramos/iG Rio
Neste quiosque em Ipanema, coco é vendido a R$ 5, mas comerciante avisa que não vai repor o estoque devido aos custos para transportar e manter a fruta gelada

O verão de 2014 no Rio de Janeiro deve ficar marcado por altas temperaturas e também pelo preço elevado dos produtos comercializados nas praias cariocas. Não deu nem tempo para titubear. Quando o iG perguntou para os barraqueiros espalhados pelas areias da zona sul como estavam as vendas neste domingo (29), a resposta estava na ponta da língua: “bem pior”. O motivo? O preço da revenda dos produtos.

O novo artigo de luxo na orla é o coco verde geladinho. Seu João Vicente, da Barraca Maria e João, no Arpoador, explica o porquê: “Antes a gente comprava o coco a R$ 1,80. Agora, eles (fornecedores) estão vendendo por R$ 2,50. Se a gente não colocar o preço de R$ 5, não dá para faturar. A gente precisa garantir alguma coisa”, diz o barraqueiro que trabalha há 40 anos na praia.

O grande problema do coco verde é a mão de obra para carregar, gelar e vender por um preço justo para o barraqueiro. Seu Antonio Potty, que há 26 anos gerencia um quiosque entre os postos 8 e 9, em Ipanema, se permite abrir mão da iguaria que faz parte da cultura carioca por conta do faturamento.

“Hoje eu vou trabalhar com esse coco que tenho aqui, a R$ 5. Mas a partir de amanhã já não compro mais. O certo seria cobrar R$ 8 por coco, para cobrir o trabalho que eu tenho. Para vender, o coco precisa estar gelado, senão o freguês reclama e devolve. Para gelar, eu preciso de muito gelo, e o pacote já está o dobro do preço. Em dias normais, o gelo sai a R$ 5. Hoje eu paguei R$ 10. No dia 31, então, eles cobram R$ 50. A venda não cobre meu gasto”, explicou.

Moisés Merelles, que tem barraca há 14 anos entre os postos 11 e 12, no Leblon, faz coro ao time. “Coco toma espaço, demora para gelar, se a pessoa não achar que a água está boa, ela devolve, e quem perde sou eu”, falou o profissional, que segue a tabela e vende o fruto por R$ 5.

Do time de entrevistados, o único que foi do contra foi Nélio, que tem barraca na altura da Rua Farme de Amoedo, em Ipanema. Mas existe uma explicação: “Eu não altero o preço do meu coco há quatro anos. Meus clientes já sabem que é R$ 5. O turismo está bom, as vendas estão acontecendo. O que posso fazer para os clientes fiéis é facilitar no preço do aluguel da barraca e cadeira. Ao invés de R$ 10 e R$ 5, eles pagam R$ 7 e R$ 3”, contou.

Seu João também resgata a tabela de inverno para os clientes fixos da cidade. “Sei a cara deles, já os conheço. Não dá para cobrar o preço mais alto para quem vem na minha barraca o ano todo, todos os dias. Agora, para turista, a tabela que vale é a nova”, disse.

Olha a água mineral

Para compensar o prejuízo do coco verde, a queridinha dos barraqueiros é a água mineral. A garrafinha de 500ml está custando R$ 3 neste verão (em média. A reportagem encontrou quiosques vendendo por R$ 4, e o coco por R$ 6). “O preço da água eu posso subir que ninguém vai reclamar e nem deixar de comprar. Agora, o preço do coco todo mundo reclama”, avisou Potty. “Com a água mineral, eu ganho o dobro do que ganho com o coco”, contou.

Moisés, que tem parceria com vários comerciantes da região para garantir maior conforto da sua clientela, procura o menor preço de venda para focar no faturamento. “A água, hoje, a gente compra por R$ 1,20 e vende por R$ 3. Mas tenho um lugar na Central que me vende por R$ 0,69. Ou seja, meu lucro é muito maior”, revelou.

Outros produtos clássicos das areias do Rio também mostraram elevação nos preços com a chegada do verão. As cangas, por exemplo, que na época do inverno custam entre R$ 15 e R$ 20, hoje estão saindo por R$ 25 - R$ 30. Empadas e esfihas, que matam a fome do banhista, tiveram o preço alterado de R$ 5 para R$ 7. “Tem muita gente que fala que barraqueiro e vendedor de praia ganha bem. Mas é tudo complicado. Em época de Réveillon e Carnaval, eu já tirei até R$ 4 mil em um dia. Mas se tenho um inverno rigoroso pela frente, fico meses sem trabalhar”, alertou Moisés.

Operação Verão

Outra reclamação unânime entre os barraqueiros é a nova fiscalização. A Operação Verão, da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), é rigorosa em diversos aspectos e aplica multa sobre multa quando flagra qualquer irregularidade (vendedores sem identificação, barracas sem tabelas de preços expostas, número de cadeiras e barracas para aluguel em excesso, e etc). A nova regra que está cansando os barraqueiros é a proibição de carros de carga na orla.

“Tem fiscal 24 horas por dia. O Eduardo Paes e o Sérgio Cabral complicaram demais nossa vida. Agora eu tenho que parar o carro na Praça General Osório e trazer a mercadoria para repor durante o dia no braço. Perco tempo e dinheiro com isso”, disse João. Moisés reforçou a reclamação. “Se a Prefeitura nos desse condição para trabalhar seria bem mais fácil. Mas não. Agora não podemos nem mais parar os carros nas transversais da praia. Fica complicado”, falou.

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