Sem prefeitura, mutirão de limpeza recupera favela em SP e vira modelo no Brasil

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Depois de acabar com montanha de lixo, moradores levam o exemplo para bairros na Bahia, Ceará e Alagoas

Conhecida pela violência que dominou suas vielas nos anos 1980, a favela Nossa Senhora Aparecida, no distrito de Ermelino Matarazzo, no extremo leste de São Paulo, foi finalmente urbanizada nos anos 1990. Apesar do asfalto, da iluminação pública e da redução da criminalidade, a montanha de lixo que se acumulava há décadas parecia nunca ter fim. Depois de cansar de recorrer à prefeitura, os moradores se reuniram em 2011 e criaram um mutirão de limpeza que fez tanto sucesso que começa a ser replicado pelo Brasil.

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A ideia partiu do morador Ionilton Aragão, que tinha desistido de pedir ajuda ao município. Braço direito do idealizador, o morador Wilton Mendes (43) se recorda da resposta repetida sempre pela prefeitura. “Ela dizia que, como qualquer ponto viciado da cidade, aqui não tinha jeito.”

Arquivo pessoal
Lixo na comunidade só acabou depois que os moradores desistiram de recorrer à prefeitura

Mendes, então, decidiu tomar uma decisão radical: voltou a ligar para prefeitura, mas dessa vez pediu a retirada dos containers onde os moradores amontoavam “sofá velho, bicho morto, resto de comida”. “Tinha rato por todo o lado. A criançada vivia doente.”

A partir de então, Aragão e alguns moradores passaram a guardar dentro de casa o lixo dos vizinhos. “Quando perguntavam por que eu fazia isso, eu explicava que a partir daquele momento a gente só iria colocar o lixo na rua quando passasse o caminhão. Isso pegou todo mundo de surpresa”, diverte-se Aragão. “Aí o morador percebeu que, se eu guardava o lixo deles, eles também podiam fazer o mesmo”, completa Mendes.

A partir de então, a comunidade se mobilizou. Em dias agendados, eles empunhavam sacos de lixo, pá e vassoura e corriam a comunidade de 15 mil habitantes. “Instalamos nos postes mais de 300 lixeiras”, contabiliza a moradora Osana Souza (29). “Em 30 dias, ninguém mais jogava lixo no chão”, comemora Aragão.

Wanderley Preite Sobrinho/iG
Ionilton Aragão idealizou o projeto: "fazemos com o morador não para ele"

Quando a pilha de lixo desapareceu, o líder comunitário voltou à prefeitura, agora apresentando o projeto que ele batizou de Varre Vila. “Quando eles viram o resultado, aderiram na hora.” Uma das consequências foi a contratação de seis garis da própria comunidade, como a moradora Gilvanete Francisca (52). “O resultado é muito melhor quando quem cuida também mora no bairro.”

Com o sucesso, outras parcerias foram estabelecidas, como com as escolas do bairro, que incluíram a educação ambiental em sua grade curricular. “Quanto mais parcerias, melhor porque dá independência ao projeto, garantindo sua continuidade independente de quem estiver na prefeitura”, acredita Aragão.

Logo no primeiro ano, três comunidades vizinhas pediram ajuda para replicar o modelo em seus bairros. Hoje, além delas, o Varre Vila está sendo implantado em Itaquera, também na zona leste, em um bairro em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, e em vilas de Salvador, Fortaleza e Alagoas.

“Em Maceió [AL], a equipe já foi contratada. Eles vieram nos procurar, depois fomos visitá-los, mas o projeto só deslanchou quando eles perceberam o segredo do sucesso: nós não fazemos a limpeza para os moradores, mas com os moradores”, diz Aragão. “O desafio agora é deixar claro para as prefeituras que o projeto é da comunidade. Se a prefeitura disser que é dela, ninguém vai aderir.”

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