Na rotina de São Paulo, vale até dormir no carro ou fazer exames na madrugada

Por Clarice Sá - iG São Paulo |

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Madrugar vira opção para fugir do trânsito e dar conta de rotina intensa. Especialistas alertam para risco à saúde

Enfrentar o dia a dia em horários de pico é um desafio diário para os moradores das grandes cidades. Para driblar o trânsito ruim ou adaptar os hábitos à rotina que inclui trabalho, faculdade, diversão e cuidados com a saúde, o jeito é criar horários alternativos para dar conta de todas as atividades.

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Estevam Avellar/TV Globo
Angela Dip foge de filas para exames médicos

“Minha vida em São Paulo é pautada pelo trânsito”, conta a atriz Angela Dip, que costuma marcar exames médicos no início da manhã ou nas primeiras horas da madrugada. Chega a passar por atendimento à 1h. "E tem menos gente. Eu sou uma pessoa muito impaciente, não gosto de esperar."

Completar a noite de sono com um cochilo dentro do carro é a saída encontrada por motoristas que madrugam para driblar o horário de pico nas ruas de São Paulo. O supervisor Fábio Roberto sai de casa na zona norte às 5h20 para trabalhar na região da avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, na zona sul. O trajeto dura meia hora. Se deixasse para sair depois das 6h, levaria pouco mais de uma hora e meia. “Tento fugir do trânsito, que é horrível”, diz Roberto, que adotou o esquema há seis meses, quando a empresa saiu da região central.

Ele chega por volta das 5h50, estaciona em uma rua ainda cheia de vagas e tem mais duas horas de descanso dentro do carro, perto do escritório. Roberto diz que, somando o que dorme em casa e no banco do carro, consegue descansar sete horas por dia. “É uma situação de contingência. Acabo relaxando um pouco, mas não é reparador”, conta o supervisor.

É o que diz também a consultora Jeniffer Mignella. Ela dorme pouco mais de uma hora no estacionamento do trabalho antes de começar o dia. “Infelizmente não me sinto disposta depois, mas acredito que sem o cochilo seria ainda pior”, conta. “ O problema do carro é que não tem muita posição para dormir, então acabo dormindo torto. Comecei a fazer pilates para ajudar na postura e no alongamento, amenizando um pouco a indisposição.”

André Lucas Almeida/Futura Press
São Paulo registrou 307 km de congestionamento e bateu recorde histórico em 14 de novembro



Moradora de Guarulhos, Jeniffer sai de casa às 5h50. Pega a via Dutra, cruza a Marginal Tietê, as avenidas Tiradentes e Nove de Julho e completa o trajeto pela Marginal Pinheiros e a Berrini. O trajeto dura 1h10 - o mesmo tempo do cochilo antes do trabalho. Mudar para uma região mais próxima do escritório é um desejo, mas que ainda não cabe no orçamento. “Atualmente o que inviabiliza a mudança é o preço do imóvel. Está muito caro comprar ou alugar algo em São Paulo que seja próximo o suficiente do trabalho.”

Os piores horários para trafegar na cidade de São Paulo são das 7h às 10h e das 17h às 20h, de acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O recorde de congestionamento do ano no período da manhã foi registrado às 9h do dia 23 de setembro, que foi 151 km de filas nas vias monitoradas pela CET. O índice é quase a metade do recorde da noite, registrado às 17h40 do dia 14 de novembro: 307 km.

Arquivo pessoal
Ronaldo Capdevilla é gerente de academia 24 horas e gosta de treinar a partir das 22h

Longe das preocupações com o trânsito, uma turma focada em saúde e estética madruga para malhar. A Academia Gaviões estendeu o horário de funcionamento por conta do número de pedidos dos alunos. Boa parte quer manter a forma após o expediente ou das aulas na faculdade.

Há até os que saem da balada no pique para pegar peso. Alguns precisam espantar a insônia e outros simplesmente se sentem mais dispostos a fazer exercícios antes de a manhã começar. “Agora com as férias escolares, o pessoal que faz faculdade vem mais de madrugada. Eles gostam de acordar tarde. A molecada toda vem de madrugada para poder treinar. Alguns pegam o embalo de balada e vêm direto”, conta o gerente da unidade do Jaçanã, Ronaldo Capdevilla.

Adaptar a rotina a um horário diferente do usual não chega a ser um problema quando o organismo já está predisposto. Há quem simplesmente precise acordar mais tarde e dormir mais tarde, são os chamados vespertinos. No outro extremo, estão os matutinos, que acordam por volta das 4h, 5h e dormem cedo. A maioria faz o horário intermediário.

“Ainda bem que tem opções de 24 horas. Acho que a sociedade no futuro vai ser mas flexível no horário. Se houvesse flexibilização de horas de trabalho, por exemplo, você ja resolveria um grande problema. Vai diminuir os horários de pico do trânsito. Mas isso ainda é muito difícil. Há um preconceito muito grande. A sociedade é feita por essa grande maioria. E o vespertino é mal visto por essa forma”, diz o neurologista Luciano Ribeiro, do departamento científico de sono da Academia Brasileira de Neurologia.

Arquivo pessoal
Universitário Fernando Menezes sai da faculdade e segue para treino de futebol

Um dos que não liga para dormir pouco é o universitário Fernando Menezes, de São Paulo. Ele já chegou a emendar a rotina de estágio de manhã, faculdade à noite e treinos de futebol até 1h30. Em tempos de competição, pode jogar quatro vezes por semana e dorme apenas três ou quatro horas. “Minha mãe reclama, mas é normal. A gente vai treinando e o corpo acostuma”, diz o estudante.

Perder horas de sono para dar conta de muitas atividades pode virar um grande problema. “Se você não tem tempo porque tem que acordar cedo demais pra estudar, ou quer ir à academia à noite, mas de dia tem que trabalhar, o ponto é: o quanto a sua opção terá implicações no futuro? Quem dorme pouco vive menos. A memória também diminui”, alerta a neurologista Dalva Poyares. Diabetes, obesidade, doenças endócrinas, hipertensão, problemas cognitivos e até repercussões emocionais estão entre as consequências de médio e longo prazo da privação de sono. “O ideal é você conhecer o seu corpo e adaptar sua vida a seu ritmo”, orienta Dalva.

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