Comparado a Banksy, artista diz que pretende apenas discutir a cidade e suas questões ambientais e políticas

Um garoto de 12 anos atravessa a zona sul de São Paulo levando consigo algumas latas de spray para, no meio da noite, rabiscar seu primeiro grafite. Ele chega ao destino, uma ponte, escolhe a parede e conclui o desenho: um gênio saindo de uma lâmpada. “Isso foi em 1990. Quando olhei o resultado, pensei ‘ué, por que eu fiz isso?’.”

Mural de 40 metros de largura por 18 de altura no principal banco da Alemanha
Divulgação
Mural de 40 metros de largura por 18 de altura no principal banco da Alemanha

A lembrança é de Alexandre Órion, que chega aos 35 anos rejeitando a comparação com o inglês Banksy – “maior artista do mundo no momento” – e lançando um livro (Espólio) com suas principais obras: intervenções urbanas utilizando métodos e matéria-prima desenvolvidos por ele mesmo, como a poluição. “Quando olhei aquele gênio, percebi que qualquer coisa que eu fizesse precisaria fazer sentido para a cidade.”

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O adolescente Órion levou boa parte daquela década se aventurando pelas ruas, embora incomodado com o comportamento de alguns grafiteiros e pichadores. “Eu não queria usar o espaço coletivo para participar do joguinho interno de meia dúzia. É como entrar na sala de alguém e jogar futebol. Eu tento um diálogo com a cidade, nunca busquei fazer amigos na rua. Essa é a diferença entre o grafite e a street art.”

Hoje com 35 anos, Alexandre Orion fez seu primeiro desenho nas paredes aos 12 anos
Divulgação/Facebook
Hoje com 35 anos, Alexandre Orion fez seu primeiro desenho nas paredes aos 12 anos

Alexandre se formou em design e artes plásticas, trabalhou com pintura, tatuagem, ilustração e fotografia, mas decidiu se dedicar às ruas a partir dos 20 anos, quando começou a ganhar a vida com suas intervenções.

Em 2001, teve uma ideia que terminou em uma exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Metabiótica são grafites que só ganham significado depois de serem fotografados com pessoas ou animais que, involuntariamente, entram no quadro. “Acho engraçadas as comparações com o Banksy. Só porque eu usei estêncil? Nessa época eu nem sabia quem ele era.”

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Mas foi no final de 2005 que Órion se intrigou com a poluição que se desprendia dos carros e tornava negras as placas de aço que protegem as paredes do túnel Max Feffer, sob a Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona sul. “Notei que podia criar algo limpando partes dessa parede e ainda utilizar a fuligem em outros trabalhos. Eu levei um ano desde o dia em que tive a ideia e a coloquei em prática.”

Por 13 madrugadas, o artista entrou no túnel e, com retalhos de pano, limpou cuidadosamente a sujeira, “desenhando” 3.500 crânios humanos e guardando toda a fuligem que depois ele transformou em pigmento para novos trabalhos. “Dizem que o que eu faço é arte, mas não me preocupo com isso. Eu tento me expressar falando da vida urbana, que está doente, esquizofrênica. O transporte público é ruim, o tempo no trânsito é demais. A qualidade de vida pode estar reduzida, mas quanto mais caro for seu carro, mais bem sucedido você parece ser.”

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Para Órion, usar a poluição em sua arte é mais como um símbolo desse caos nas metrópoles. “Um dos meus últimos trabalhos eu batizei de Polugrafia, que é a ideia de gravura feita de poluição. Levou quatro anos para funcionar. Eu fixo uma estrutura em escapamentos de caminhão e a fuligem faz a impressão.”

Cada vez mais solicitado para grafitar pelo mundo, o artista acha que “falta consciência política e ambiental não só em São Paulo, mas na maioria das cidades de países em desenvolvimento”. “O alemão pode até comprar um carro, um Porsche, mas ele só vai sair da garagem no final de semana.”

O artista fala da Alemanha com propriedade. O seu mais recente trabalho está exposto na fachada do principal banco alemão, o Deutsche Bank, em Frankfurt. “Eu fiz um manifestante de 40 metros de largura por 18 de altura em posição de meditação. Eu quis retratar o atual estágio das manifestações no Brasil, onde se discute a legitimidade do uso da força nos protestos. Por isso a personagem está de rosto coberto, pedras nas mãos, mas nessa posição de reflexão.”

Nem mesmo esse engajamento pode ser comparado ao de Banksy?

“Eu comecei em 1990, o Banksy em 1992, mas eu nem sabia que ele existia antes de ver trabalhos de brasileiros como Maurício Villaça e Arthur Barrio. Em plena ditadura militar, o Arthur colocava sacos com gelo tingido de vermelho, que escorria pelas ruas do Rio. Isso é muito anterior à arte urbana. Se for comparar, o Banksy é fichinha. Agora, é claro que o Banksy é um cara genial, mas não é o norte para toda arte de rua.”

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