FHC e Lula, Lula e FHC – na beirada do amor mútuo

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Lula parece não precisar mais do reconhecimento de FHC, enquanto que FHC dá mostras de precisar do reconhecimento de Lula

Com um currículo que até um deus olímpico desejaria, Fernando Henrique Cardoso não é um homem completamente feliz. Falta-lhe o reconhecimento público de Lula. Ele pede reconhecimento em nome do PSDB, mas não é isso que quer dizer. FHC quer mesmo, para completar a sua obra, que Lula dê aval histórico ao que fez. Ao fim e ao cabo, FHC amarga não ter podido ou não ter sabido ser social-democrata autêntico, principalmente no seu segundo mandato. Um mínimo reconhecimento de Lula e ele poderia ganhar uma história reescrita agora, nos próximos anos, como tendo sido um presidente próximo de Clinton e Obama, e não uma versão masculina da pouco feminina Margareth Thatcher.

Lula sabe bem o que é que seu amigo, professor de sociologia, vem sentindo. Ele próprio sentiu isso durante anos. Em alguns momentos, vigorou o seu desejo de ter sido poupado por um intelectual que, de certo modo, fazia a população menos inteligente lembrar que ele, Lula, tinha dificuldade com textos. Quem estudar os discursos de Lula, em comparação com os de FHC, notará essa preocupação. Todavia, nesse quesito, Lula tem sido sincero: ele nunca pediu para que FHC reconhecesse o PT, mas sim ele próprio, Lula.

Ao lembrar-me de FHC e Lula juntos, nas greves do ABC paulista, e depois nos embates de nosso bipartidarismo desgastado, eu coço a cabeça vendo que a história brincou conosco, brasileiros. Nosso destino foi sendo traçado de modo a colocar essas figuras tão emblemáticas da resistência à Ditadura Militar na presidência da República, para marcá-las para todo o sempre com uma grande vitória e uma grande derrota.

O professor Fernando Henrique Cardoso chegou à presidência pela sua própria cabeça, ao escolher a equipe de criação do Plano Real, e realmente fez um primeiro mandato de administração do Plano sob os sons de trombetas de vitória. Posou como o príncipe que derrotara o dragão da inflação salvando a donzela, o Brasil. Completou um quadro com um segundo mandato em que as privatizações foram denunciadas como falcatruas e sob os acordos políticos com a direita que o colocaram todo dia na imprensa espetado por acusações de todo tipo. No início, tudo culpa do PFL. Mas depois, o próprio PSDB tornou-se algo até pior que o PMDB. Ao fim e ao cabo, o Plano Real manteve-se como um estabilizador da moeda, mas sem um aporte social condizente com as necessidades postas pelas mazelas de nosso país.

Lula pegou um país que desejava uma única coisa: fim da pobreza. Todos diziam algo mais ou menos assim: “acho que o próprio FHC votou no Lula, não no Serra”. Era tamanho o consenso de que a estabilidade financeira já havia se tornado um ganho, e que o problema da miséria seria enfrentado somente por um presidente vindo “de baixo” e tendo assim sensibilidade social na pele e não apenas recebida dos livros, que ninguém deixou de notar que FHC entregou feliz a faixa para o Lula. Ele entregou a faixa menos como político e mais como professor de sociologia.

Lula cumpriu a expectativa popular. Tanto de quem votou quanto de quem não votou nele. Mas no meio do primeiro mandato, mostrou a todos que a virgindade do PT, que muitos sabiam que era falsa, era falsa mesmo. O episódio do “mensalão” foi e continua sendo o que vários analistas isentos já disseram dele – um dos maiores crimes de nossa história contra a democracia via deterioração do parlamento. E isso queiram ou não os petistas que, em um primeiro momento, concordaram com esse diagnóstico e, depois, como malucos, começaram com aquela conversa para boi dormir: “o mensalão nunca existiu”. Esse tipo de afirmação nos faz ficar com raiva, porque o PT mostra querer tratar a todos como imbecis, e não só os seus militantes pagos.

FHC colheu uma derrota na vitória, Lula colheu uma vitória na derrota. A desgraça de FHC se deu em fim de mandato. A desgraça de Lula veio em meio de mandato. FHC recuperou a moral após ter deixado a presidência. Lula a recuperou a tempo de vencer mais uma vez e ainda fazer o sucessor, ou melhor, a sucessora. A sorte contou a favor de Lula, aliás, como sempre ocorreu na vida desse homem. Então, estamos nisso agora: Lula parece não precisar mais do reconhecimento de FHC, enquanto que FHC dá mostras de precisar do reconhecimento de Lula. Todavia, quando cada um deles está sozinho em suas casas, eles se imaginam pegando o telefone e ligando um para o outro, e combinando um encontro em que ambos viriam a se elogiar. Eles precisam de amor. Mas não mais de mulheres ou amigos. Eles precisam um do outro. E isso está se tornando insuportavelmente angustiante para ambos.

Ambos gostariam de viver essa confraternização e mandar seus respectivos partidos para PQP. Mas não podem. Estão como aquele filósofo que vai ficar escrevendo à direita apenas porque formou um público conservador e, agora, não tem coragem de deixar esse público ir emobra. Eles não podem abandonar os seus militantes que eles usam, mas que nunca amaram, pois esses militantes são sabujos cansativos, chatos e, no fundo, pessoas que eles mesmos não dão valor. Eles dão valor somente um ao outro.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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