Artigo: Venezuelana eleita Miss Universo põe sua imagem na arena filosófica

Por Paulo Ghiraldelli - iG São Paulo |

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Filósofo divaga sobre o conceito de beleza criado pela indústria hollywoodiana em todo o mundo

A Venezuela é o lugar que teve o presidente mais feio que conheci. Hugo Chávez parecia ter sido talhado a canivete e em madeira dura. Em compensação, é difícil a Venezuela não vencer um “Miss Universo”. Agora é a vez da estonteante beleza de Gabriela Isler.

Reuters
Venezuelana Gabriela Isler venceu o Miss Universo 2013

O segredo não é mais segredo: as garotas da Venezuela possuem um padrão que foi se tornando comum no pós-Guerra: sorriso largo das atrizes americanas, cabelos levemente encaracolados e um toque latino nas formas, para compensar a falta de formas das americanas e alguns exageros de formas das europeias. Esse padrão tem a ver com Holywood, é claro, que conseguiu estar em todos os lugares do mundo com a primeira arte que já nasceu misturada à indústria de grande porte.

Durante leve período de influência feminista no mundo, esses concursos de beleza nacionais e internacionais estiveram em refluxo. Paulatinamente, foram voltando a serem realizados e, de dez anos para cá começaram a receber novamente financiamentos variados. Não creio que terão o glamour que tiveram no passado, antes dos anos sessenta, mas estão caminhando para se tornarem um entretenimento tradicional novamente.

Todavia, agora, há mais dúvidas sobre como realizar tais concursos, e isso quanto a vários aspetos. Surgem dúvidas de todos os tipos, e uma delas até tem a ver conosco, filósofos. Garotas que se envolvem com esse tipo de concurso estão em um mundo novo. Atualmente há dificuldades para se decidir sobre o que é a beleza que cabe como arte erótica e o que é a beleza que cabe como pornografia. Essa discussão passa pela indústria da imagem da mulher.

Para muitos, essa distinção é tola e nem deveria se colocar. Para outros ela existe “naturalmente” e todos devem estar atentos às fronteiras desses campos.

O filósofo britânico conservador Roger Scruton está entre os que querem encontrar critérios para dividir esses campos. Para ele, a questão central está na diferença entre produção de fantasia e instigação da imaginação. A produção da fantasia serve à pornografia e a instigação da imaginação serve à arte erótica. E isso não tem uma correlação direta com mais nu ou menos nu das modelos que posam para as fotos.

Vamos ao primeiro caso, o que envolve fantasia. A gravura da mulher é a gravura de uma mulher determinada, e sua exposição se faz no sentido de provocar aquele que vê, de modo que a fantasia será a de que pode se aproximar da mulher, pois ela existe e se põe não só ali, mas em outros lugares, como quem poderia ser tratada como um objeto. É uma mulher que pode ser manipulada uma vez que, por meio da fantasia, posso tê-la em mãos.

Vejamos o segundo caso, o que tem a ver com imaginação. Ainda que a modelo exista como mulher determinada, e pode até ser uma pessoa famosa, a gravura não determina mulher alguma, e sua beleza está ali não para provocar eroticamente quem a vê, mas para mostrar o erotismo da própria figura. A beleza erótica, nesse caso, fica circunscrita à figura. Caso ela provoque eroticamente em que vê, esse é um defeito de quem vê e não do quadro.

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Imagem do quadro de François Boucher Rococo,“Nu no sofá” (ou “Odalisca”)

Roger Scruton dá o exemplo do quadro de François Boucher Rococo, de 1759, “Nu no sofá” (ou “Odalisca”). Neste, a garota do sofá está em uma oposição nada comum. Só se fica nessa posição quando a situação é a de sexo ou próximo disso. Mas, ao mesmo tempo, não há parceiro em vista. Seu olhar é disperso, parece estar sozinha. Suas mãos não estão voltadas para tocar o próprio corpo e a sua expressão mostra antes uma garota pensativa que uma garota excitada ou que vá se excitar. Não é uma pornografia. Mas não é uma pornografia, na visão de Scruton, antes porque não se trata de ninguém determinadamente do que por tudo que descrevi da figura. Não há o que fantasiar com quem não existe. O que se pode fazer é especular, como eu fiz, usando a imaginação para saber o que é que o quadro revela ou indica.

O critério de Scruton tem sua utilidade, mas não é bom. Ao depositar seu critério na diferença entre fantasia e imaginação, do modo como ele caracteriza essas duas atividades, as fotos de Gabriela Isler, nua ou não, que cativarem pessoas não para ver a sua beleza, mas para se excitarem com suas poses, estarão diante da pornografia e não da arte erótica. Talvez seja interessante acompanhar Isler com o critério de Scruton na mão. Será um bom exercício para testar seu critério. Um bom exercício de estética filosófica. E um prazer!

***

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Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

http://ghiraldelli.pro.br

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