Artigo: 'Alemães que explicam nossas doces UPPs regadas a sangue'

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Genocídio imposto pelos nazistas aos judeus acontece no Brasil há mais de um século, tendo como vítimas a juventude negra e os mais pobres, afirma Ghiraldelli

Quando vejo algumas pessoas supostamente educadas atacando os Direitos Humanos ou, então, silenciando diante de quem os fustiga, fico embasbacado. Perguntas me vêm à mente: “será que essa pessoa não sabe que tais direitos foram criados exatamente para que o estado não maltrate nenhum de nós, mesmo se formos presos?” “Será que essa pessoa se acha tão imune a ponto de pensar que sem Direitos Humanos ela, que acha que nunca poderá ser acusada de um crime, pode acabar diante da força policial do estado e não ser torturada?” “Será que essa pessoa não sabe que os Direitos Humanos não regram as relações entre indivíduos, mas entre o estado e as pessoas?”

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O estado, segundo o sociólogo clássico Max Weber, é a instituição que detém o “monopólio da violência”. Só a violência do estado é, em princípio, legítima e legal. Sendo assim, os Direitos Humanos são a garantia de que não haverá abuso do Estado, de modo que ele próprio não se deslegitime. Por que é tão difícil para algumas pessoas entenderem isso?

Essas perguntas cabem para alguém desinformado. É o que pensamos. No entanto, os Direitos Humanos, do modo que estão organizados hoje, foram criados exatamente por conta de crimes feitos por estados de países com povos altamente educados - pessoas bem informadas. A região da Alemanha, antes mesmo do final do século XIX, tinha somente 0.03% de analfabetos. Ora, foi justamente ali que o nazismo se desenvolveu. Foi o estado nazista que, criando o Holocausto, fez com que os Direitos Humanos fossem inseridos em uma Carta assinada pelas nações do mundo todo após o final da II Guerra Mundial.

Essa questão da ligação entre educação e barbárie sempre inquietou os pensadores, mas ao final da II Guerra, quando as fotos do Holocausto foram divulgadas, as coisas ficaram complicadas. Até então, muitos de nós, filósofos, ainda acreditávamos em uma tese de Sócrates, que dizia que saber e virtude se igualam. Tínhamos por certo que pessoas esclarecidas não iriam fazer mal a outros gratuitamente. Claro que Platão e Aristóteles já haviam colocado essa fórmula de Sócrates em dúvida - e isso todos nós sabíamos. Não precisávamos estar tão na crista da onda, conhecendo Nietzsche, Freud ou Marx, para desconfiar de tal fórmula. Mas, em termos gerais, mesmo o mais romântico entre nós, talvez exatamente por isso mesmo, por ser romântico, tinha lá seu pé na atitude geral do iluminismo, que repetia a fórmula de Sócrates. Ora, na Alemanha nazista, o elo entre o Saber e o Bem parecia ter se rompido de um modo escancarado demais.

Também o cinema tentou, junto com as teses de filósofos e outros pesquisadores, compreender como que o nazismo deslizou para o interior dos corações humanos. Entre outros, há dois filmes que tratam do assunto, e que eu recomendo. Não à toa, eles são filmes a respeito de crianças.

O primeiro é “A fita branca”, do diretor Michael Haneke (França, Áustria, Alemanha e Itália: 2010), o segundo é “Lore”, de Cate Shortland (Áustria e Alemanha).

Haneke é um diretor e produtor austríaco, nascido em 1942. Ele nos mostra uma vila alemã do começo do século XX, onde crianças são tratadas de maneira dura pelos adultos, às vezes até cruel, e reproduzem isso de modo metódico e mostrando não prazer com a maldade, mas insensibilidade. A vila toda reflete uma hierarquia de relações rurais pautadas pelo rigor excessivo, que visa colocar a própria hierarquia na alma de cada um. O filme é rodado em branco e preto e narrado “in off” por um dos personagens, o professor local, que é quem descobre os autores dos assassinatos que estranhamente passaram a ocorrer na vila.

Haneke tem preferência pelo tema do mal. Nesse filme, ele se esmera em mostrar o mal em seu silêncio, em sua soturnidade, como que uma força secreta educando paulatinamente as crianças que, bem depois, estariam no comando da II Guerra Mundial, do lado nazista.

Shortland é uma diretora e roteirista australiana, nascida em 1968. Ela conta a travessia de Lore e seus irmãos menores por uma Alemanha que acaba de ser derrotada na II Guerra e é dividida entre americanos, russos, franceses e ingleses. Ela e seus irmãos são filhos de um oficial nazista e, agora sem os pais, tentam chegar à casa da avó em Hamburgo. No caminho, eles são ajudados decisivamente por um moço, um judeu que esteve nos campos de concentração. Paulatinamente ela vai perdendo sua ingenuidade diante do mundo construído pelos seus pais em torno dos ideais racistas e pautados por uma ordem hierárquica perfeita. Como ela mesma diz: só mentiras. O filme tem um final simples, mas apoteótico.

Shortland é uma diretora jovem, com apenas uma produção nas costas, mas já notada em Cannes. Trata-se de “Summersault”, de 2004, em que a personagem é, como em Lore, uma teenager. Todavia, o filme é ambientado na Austrália e os problemas da jovem dessa película são mais corriqueiros que os de Lore.

Em “A fita branca” tudo ocorre de modo denso, em uma trama mais própria de romance que de cinema, embora enquanto filme, trate-se de uma película impecável. Por sua vez, “Lore” é puro cinema. As imagens superam os diálogos e os sons são cuidadosamente escolhidos dentro de uma trilha sonora extraordinária. O destaque, claro, é para a atriz teenager Saskia Rosendahl, cuja beleza loira e sensualidade são estonteantes.

O fio comum entre os dois filmes é a questão da educação alemã. Trata-se tanto da educação do campo quanto a da cidade, tanto a formação das crianças do começo do século em uma Alemanha rural quanto a educação bem mais sofisticada das crianças com pais da elite nazista, capazes de desfrutar de boas casas e de bens de um tipo de classe média moderna. Em ambos os casos quatro elementos comuns saltam aos olhos: hierarquia, disciplina, capacidade de se acreditar melhor que outros, ingenuidade (em “A fita é branca” há um elemento a mais: subserviência, comportamento de sabujo).

A questão da hierarquia e da determinação em ser o melhor por conta de saber obedecer e imitar é o segredo fantástico da educação alemã. O seu segredo de êxito durante anos e, ao mesmo tempo, o que selou o seu destino e a sua perdição.

Ambos os filmes fizeram-me lembrar do sociólogo Max Weber, de como ele foi recebido pela sua mãe, após uma longa estadia no exército. Ele se aproximou da mãe e esta, sem lhe dizer qualquer coisa, deu-lhe um tremendo tapa na cara, e em seguida virou-se sem mais. Ela havia notado que o filho tinha uma cicatriz no rosto. Uma cicatriz indicava ter participado de um duelo, algo comum na Alemanha, mas já proibido na época de Weber. O jovem havia se exposto e não merecia qualquer incentivo pela coragem, mas reprovação por ter feito algo ilegal. Acima de tudo o coração da mãe de Weber reclamou por aquilo que o próprio Weber, mais tarde, em teoria, mostrou como funcionava em sua máxima eficácia: a capacidade de obedecer.

Foi essa capacidade de obedecer e imitar que fez com que o estado alemão tenha sido erguido segundo o que Weber apontou em seus estudos: a organização da burocracia eficaz no comando da máquina pública e o papel do exército de origem prussiana na capacidade de se adequar a esse regime regrado por códigos, relógios e exemplos. Weber entendia que para comandar um povo assim, de modo correto, só mesmo o político com carisma. Sempre seria necessário alguém entusiasmado consigo mesmo, capaz então de fazer a letargia desaparecer, promover a desinibição em doses certas, canalizar tais doses para alguma coisa que pudesse ser chamada de “vida”. Ah! se ele soubesse o quanto estava acertando quando escreveu isso, talvez tivesse tido calafrios.

Mas se a insensibilidade perante o outro, própria do nazismo, foi assim produzida na Alemanha, como vemos a insensibilidade típica do fascismo e do nazismo aparecer entre nós, ao menos nos que teimam em fazer chacota dos Direitos Humanos? Como é a insensibilidade no país tropical bonito por natureza?

Talvez devêssemos esquecer que somos latinos bronzeados por povos daqui e da África. Talvez devêssemos lembrar que nossa sociedade, sob a capa do “jeitinho”, da música e da incapacidade de disciplina e planejamento, guarda algo pior que a hierarquia extremada, que é o mandonismo.

O mandonismo é a hierarquia em forma de caricatura, dada pela pura força bruta e pelo dinheiro. Isso a Alemanha não conheceu nem mesmo nos tempos de Hitler. Sempre alguma questão de mérito regrava a hierarquia e a disciplina alemãs, ainda que o mérito fosse completamente formal. Aqui não. Aqui tudo se fez em torno daquele que obedecia e daquele que mandava, mas sob o som do chicote e sob o odor do pelourinho. Aqui, a insensibilidade cresceu segundo a propriedade não só da terra, mas do próprio homem. Quem mandava era antes dono que patrão. Foi chamado de “doutô” única e exclusivamente por conta de ser o dono de homens e mulheres.

No Brasil, nunca Deus disse qualquer coisa. Foram os senhores da terra e os donos dos homens, com o chicote, que disseram o que os negros e o povo todo faria. Encerrada a escravidão, esses mesmos senhores, também com o chicote, fizeram o povo subir os morros e morar nas favelas. Em seguida, com coisa bem pior que chicotes, esses donos inauguraram as UPPs. E as mantém entre milícias que fariam Hitler repensar as coisas. Nossa insensibilidade não foi gerenciada senão pelo sangue. O genocídio que foi feito com judeus é feito no Brasil há mais de um século, tendo como vítimas a juventude negra e os mais pobres. Tornamo-nos insensíveis desse modo, sem qualquer mediação.

***

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Paulo Ghiraldelli Jr, 56, filósofos, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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